Ensino Médio: A Catástrofe

Reportagem de hoje do jornal Folha de São Paulo revela a catástrofe do ensino médio no Brasil, que piorou nos últimos 20 anos, inclusive em São Paulo. Como professor há 25 anos, posso testemunhar que os dados refletem a mais pura verdade.

Brasil está perdido há 2 décadas no ensino médio, e caminho segue incerto – País sabe tamanho do problema desde ao menos 1995, quando avaliação começou

“O ensino médio é o elo frágil da educação.” “O resultado documenta aquilo que já sabíamos.”

As frases podem explicar bem os dados divulgados nesta quinta (30), referentes às provas que os estudantes brasileiros fizeram em 2017. Apenas 1,6% dos alunos se formam com conhecimento adequado em português, segundo o Ministério da Educação.

O triste é que a primeira declaração no parágrafo inicial foi dada há dez anos, pelo então ministro da Educação, Fernando Haddad (PT). A segunda foi há 17 anos, dita pelo então titular da pasta, Paulo Renato Souza (PSDB), logo após divulgação de resultados dos estudantes do ensino médio.

O país sabe o tamanho do problema da educação desde ao menos 1995, quando o sistema de avaliação nacional começou. Porém, praticamente não houve avanço nos indicadores. A média em matemática hoje é até menor do que há 23 anos.

E as perspectivas para o futuro são pouco animadoras.

Ainda esperamos o que se chama no meio educacional de “onda”. Como vem melhorando o desempenho dos estudantes das primeiras séries do ensino fundamental (alunos com idades entre 6 e 11 anos), há a torcida de que as notas nas séries adiante vão melhorando à medida que vão avançando esses novos estudantes, mais bem formados.

Por ora, a onda é apenas um desejo não realizado. Desde ao menos 2005 as primeiras séries do ensino fundamental vêm melhorando, tanto em português quanto em matemática.

Mas parte do ganho se perde quando esses estudantes chegam ao final do ensino fundamental, quando estão por volta dos 14 anos. E desaparece no ensino médio (quase 40% dos jovens que deveriam estar nessa etapa ou estão fora da escola ou ainda cursam o fundamental; a boa notícia é que esse percentual já foi de 60%, em 2001).

Há problemas estruturais a partir do fim do ensino fundamental que seguram o desenvolvimento dos estudantes.

Uma das estratégias atuais para atacar a situação é a chamada reforma do ensino médio. O diagnóstico é que o estudante se desinteressa nessa etapa do ensino, pois enfrenta 13 matérias obrigatórias, sem muita conexão com o que vive.

A proposta em curso, idealizada pelo governo Michel Temer (MDB), é que as escolas escolham uma ênfase a ser dada aos estudantes, entre cinco opções (como ciências humanas ou ensino profissionalizante).

É um modelo tímido, considerando o que se pratica em países desenvolvidos. Nos EUA, um aluno nessa idade pode montar seu currículo tendo à disposição matérias eletivas como culinária ou gestão de negócios. O mesmo ocorre na Inglaterra, Austrália e outros.

E mesmo esse modelo tímido enfrenta grandes dificuldades de implementação. Estados reclamam não ter recursos para fazer a adaptação.

Outro aspecto que pode frear o sucesso de uma reforma no ensino médio é que os estudantes já ficam com desempenho inadequado antes dessa etapa, entre o 6º e 9º anos do fundamental.

Não há política nacional para melhorar especificamente essa etapa.

Para o sistema educacional como um todo, a aposta é na Base Nacional Comum Curricular. A medida visa estabelecer, para o país todo, o que os alunos devem aprender em cada série. Hoje, esses padrões variam entre as redes de ensino.

Além de deixar mais claro que grupos de estudantes não estão aprendendo o suficiente, a política pode ajudar a nortear os cursos de formação de professores, criticados por serem muito teóricos, com pouca ligação com o que os futuros educadores vão enfrentar nas salas de aula.

Infelizmente, a adoção de uma política como essa não garante melhoria nos resultados. Os EUA adotaram medida parecida em 2010. No começo deste ano, foram divulgados os resultados da principal avaliação educacional daquele país. Até agora, não houve avanço nas notas, mesmo com muito dinheiro disponível.

O governo Barack Obama, no início da implementação, destinou cerca de US$ 1 bilhão exclusivamente para a medida, e a fundação do empresário Bill Gates, outros US$ 200 milhões.

Aqui, a implementação da Base Nacional começa em meio à lei aprovada pela gestão Temer de represamento de gastos públicos.

Qual pode ser a solução, então?

Inúmeros estudos nacionais e internacionais apontam que um fator primordial para melhoria na qualidade da educação é o perfil e a formação dos professores.

No Brasil, via de regra, são os jovens com piores notas que buscam os cursos de pedagogia e licenciatura. Cursos esses que têm duração curta (três anos) e, em grande parte, são à distância (o que não ocorre com outras carreiras como direito ou administração).

Como há mais vagas do que interessados nos cursos, pouco se seleciona quem serão os futuros educadores.

Virar essa situação não é trivial. São necessários jovens mais bem preparados para o magistério, com carreira e condições de trabalho melhores. E cursos universitários reformulados, o que exigiria mudanças profundas nas já sedimentadas estruturas das faculdades.

Seriam mudanças estruturais. Para um problema estrutural.

Autor: Roberto G. S. Berlinck

Professor do Instituto de Química de São Carlos, USP