Ciência, Tecnologia e a Sociedade Industrial

Durante a pré-história duas grandes revoluções tecnológicas transformaram totalmente a existência humana: as revoluções do Neolítico e da Idade do Bronze Urbano – as transições da coleta de alimentos para a produção de alimentos e depois para sociedades complexas que começaram há cerca de 12.000 e 6.000 anos, respectivamente. Uma terceira grande revolução tecnológica – a Revolução Industrial e o surgimento da civilização industrial – ocorreu apenas nos últimos trezentos anos, um piscar de olhos. O resultado foi mais uma transformação histórica mundial, à medida em que a industrialização alterou irreversivelmente o curso da história e remodelou fundamentalmente as sociedades humanas. As consequências sociais e econômicas da industrialização foram tão amplas quanto as das primeiras revoluções Neolítica e Urbana. A Revolução Industrial foi uma transformação tecnológica e sociocultural que começou discretamente na Inglaterra no século XVIII. Em essência, a industrialização implicou uma mudança da agricultura como o objeto principal do trabalho humano e o principal meio de criação de riqueza para a mecanização da produção de bens nas fábricas. Como resultado, um novo modo de existência humana começou a tomar forma, a civilização industrial, e com a civilização industrial a espécie humana entrou em uma nova era histórica. Hoje, cultivamos nossos alimentos, criamos nossos filhos, organizamos nossas economias e planejamos nossas atividades como indivíduos e como sociedades de maneiras que são muito diferentes da vida anterior ao início da Revolução Industrial na Inglaterra do século XVIII. Uma lista dessas diferenças não é difícil de compilar: a produção tornou-se mecanizada e movida por motores que utilizam combustíveis fósseis; a industrialização revolucionou a agricultura em muitas regiões; uma reestruturação completa das sociedades nos trouxe novas classes inteiras de proprietários, trabalhadores, patrões, líderes políticos e consumidores. A industrialização abriu as portas para um admirável mundo novo que ainda não dominamos por completo.

Paralelamente aos desenvolvimentos no domínio da tecnologia, mudanças intelectuais e sociais dramáticas ocorreram no mundo da ciência e da filosofia natural desde o século XVII. De Newton a Einstein e além, de Darwin ao DNA e além, a lista de grandes cientistas e grandes realizações científicas cresceu exponencialmente; hoje conhecemos o mundo de maneiras diferentes e muito mais sofisticadas do que nunca. Na época de Newton, o empreendimento científico não era organizacionalmente diferente do que tinha sido na Alexandria antiga. Hoje, apoiado de forma sem precedentes por governos e por um novo elemento no cenário histórico – a indústria de alta tecnologia – o empreendimento da ciência mudou da periferia da sociedade para o próprio coração das economias e prioridades das sociedades industriais e em industrialização de hoje.

Como parte dessa dramática revolução socio-tecnológica, a ciência e a tecnologia criaram novas conexões; sua fusão total na era moderna representa outro elemento definidor da civilização industrial contemporânea. Historicamente a ciência e a tecnologia foram empreendimentos totalmente separados ao longo do século XVIII. Somente nos séculos XIX e XX, e apenas lenta e relutantemente, governos e um número crescente de indústrias passaram a reconhecer as possibilidades plenas de aplicação da pesquisa teórica em ciência à tecnologia e à indústria. Liderado por indústrias-chave baseadas na ciência, o resultado foi uma expansão dramática nas aplicações da ciência à tecnologia. Em suma, de suas origens separadas e contato historicamente ocasional, pensamento e fabricação de ferramentas – ciência e tecnologia combinaram-se para nos dar o mundo que conhecemos hoje.

A industrialização trouxe uma combinação potente de novas tecnologias na produção de energia, transporte, equipamento militar, comunicação e entretenimento, que espalhou tentáculos por todo o mundo, substituiu muitas tecnologias tradicionais e apagou muitas das barreiras que separavam as nações e os povos do mundo. A ciência moderna, particularmente no século XX e cada vez mais no XXI, deixou de ser uma instituição estreitamente europeia e “ocidental” para se tornar um elemento dinâmico e definidor da cultura mundial. Ao contrário de outras tradições culturais, a ciência hoje é totalmente ecumênica, uma parte preciosa do patrimônio da civilização mundial e um grande testemunho da realização da humanidade como um todo. Dessa maneira, a ciência e a tecnologia desempenharam papéis essenciais nas transformações históricas que estão sob a rubrica de globalização.

in James E. McClellan III and Harold Dorn, Science and Technology in World History – An Introduction, Johns Hopkins University Press, 2006, pp. 255-256. (tradução livre)

Johann Sebastian Bach – Música para Orquestra – 1

A obra de JS Bach para orquestra não é numerosa, mas é de expecional qualidade e originalidade. Contitui-se das 4 suítes (aberturas) para orquestra e dos 6 Concertos de Brandemburgo. As suítes para orquestra foram todas presumivelmente compostas quando JS Bach já se encontrava em Leipzig, embora a suíte de número 4 possa ter sido composta anteriormente, quando o compositor ainda se encontrava em Cöthen. Já todos os concertos de Brandemburgo foram compostos quando JS Bach ainda estava em Cöthen.

As quatro suítes orquestrais BWV 1066–1069 (também chamadas de aberturas pelo próprio autor), são quatro suítes de Johann Sebastian Bach. Foram concebidas no estilo de uma “abertura francesa”: uma abertura grandiosa em ritmo relativamente lento, em seguida rápido, finalizada pela retomada do tema inicial. Este gênero musical era muito popular na Alemanha durante a época de Bach, mas o próprio compositor escreveu somente 4 para orquestra e 6 para violoncelo.

Aqui incluímos a Suite No. 2 em Si menor, BWV 1067.

No que se refere aos Concertos de Brandemburgo, estes não são concertos propriamente ditos, uma vez que não incluem um instrumento solo. A exceção é o Concerto de Brandemburgo no. 5, que quase pode ser considerado um concerto para cravo, uma vez que em vários momentos da peça este seja predominante, especialmente no 1º movimento. Por isso, o Concerto de Brandemburgo no. 5 de JS Bach é considerado o primeiro concerto para teclado jamais escrito.

A integral dos 6 Concertos para Brandemburgo é apresentada a seguir por Karl Richter, em uma gravação magistral de 1970.

Johann Sebastian Bach – música para teclado (cravo) – 1

Todas as obras de JS Bach para teclado foram originalmente compostas para cravo. O fortepiano surgiu cerca de 1700, mas só passou a ser empregado como instrumento a partir da segunda metade do século 18 – início do século 19. O cravo tem um som metálico, que não é tão agradável quanto o do piano. A seguir são incluídas duas interpretações da suíte inglesa número 3, uma em piano outra em cravo, para poderem ser ouvidas. A sonoridade é bem diferente.

A wikipedia lista toda a obra para teclado de JS Bach.

JS Bach compôs uma série de 6 suítes inglesas e 6 suites francesas. Apesar do nome, as suítes inglesas se assemelham em estrutura ao estilo barroco francês. Existem gravações integrais de todas as suítes inglesas e francesas, por diversos pianistas. A interpretação aqui escolhida para piano é pessoal.

Para cravo.

Algumas obras para teclado de Bach são longas. Uma dela são as variações Goldberg, BWV 988. Segundo um dos biógrafos de JS Bach, Johann Nikolaus Forkel, a composição das variações Goldberg deve-se ao seguinte fato:

… temos de agradecer à provocação do ex-embaixador russo no tribunal eleitoral da Saxônia, o conde Kaiserling, que por vezes visitava Leipzig e trazia consigo o mencionado Goldberg, para que recebesse aulas de Bach. O conde ficava doente com frequência e passava noites sem dormir. Goldberg, que se hospedava em sua casa, tinha que pernoitar em uma antecâmara para tocar para ele durante sua insônia. … Certa vez, o conde mencionou à Goldberg na presença de Bach que gostaria de ter algumas peças de cravo para Goldberg, que deveriam ser de um caráter tão suave e um tanto animado que ele poderia ficar um pouco animado por elas em suas noites sem dormir. Bach considerava ser capaz de realizar esse desejo por meio da composição de Variações, cuja escrita havia considerado até então uma tarefa ingrata por causa da base harmônica repetidamente semelhante. Mas, como todas as suas obras então já eram consideradas exemplos de composição, decidiu compor as variações. O conde sempre as chamou de suas variações, das quais nunca se cansou. Em suas noites sem dormir pedia a Goldberg para tocá-las. Bach talvez nunca tenha sido tão recompensado por uma de suas obras como por esta, tendo recebido uma taça de ouro cheia de 100 luíses-d’or. No entanto, mesmo que o presente fosse mil vezes maior, seu valor artístico ainda não teria sido pago.

Mais sobre as variações Goldberg na wikipedia (em inglês). O conjunto das variações tem cerca de 1:30 h de duração.

Veja aqui a moeda de luis d’or.

Concertos de Johann Sebastian Bach – 1

Como profissional, JS Bach era músico, principalmente compositor. Durante seu período em Coethen, o príncipe Leopold o deixou à vontade para compor. Com isso JS desenvolveu muito seu repertório. Compôs diversos concertos para diferentes instrumentos, alguns considerados obras primas.

J S Bach concerto BWV 1055 em Lá Maior.

Este concerto é considerado um dos mais “maduros” do compositor. Existem duas versões, uma para cravo e outra para oboé d’amore. Considera-se que Bach tenha composto originalmente para oboé d’amore, embora historiadores de música tenham discordâncias a este respeito. Outra versão é para flauta.

Informações técnicas adicionais podem ser encontradas na wikipedia.

Eu particularmente gosto mais das versões para instrumentos de sopro, oboé d’amore e flauta. A versão para flauta interpretada por Jean-Pierre Rampal é a de minha preferência. A versão para cravo é também conhecida para piano. Incluo aqui as versões para flauta, oboé d’amore e para piano, caso queiram escutar todas, ou apenas alguma das 3.

Concerto para dois violinos em ré menor, BWV 1043.

JS Bach compôs quatro concertos para violinos, muito famosos. O concerto para dois violinos, BWV 1043, é um deles. É um dos concertos para violino mais interpretados. De extrema beleza, os dois violinos “dialogam” entre si e com a orquestra, constituindo uma obra de qualidade excepcional. São conhecidas inúmeras interpretações deste concerto. A wikipedia lista 155 gravações deste concerto. A aqui selecionada não é interpretada por violinistas famosos, mas a qualidade do som da gravação é muito boa e a interpretação não deixa a desejar, por músicos da pequena orquestra New York Classical Players (NYCP).

Esta orquestra realiza apresentações em lugares públicos, principalmente em igrejas, da cidade de Nova York. O canal do YouTube da NYCP tem muitas gravações interessantes, inclusive uma interpretação de Eleanor Rigby dos Beatles que é única, além de uma interpretação da Sonata Arpeggione de Schubert com viola d’amore e orquestra que é maravilhosa.

Porque devemos escutar Johann Sebastian Bach antes de morrer?

Simplesmente porque Johann Sebastian Bach é considerado o maior e mais importante compositor musical de todos os tempos.

Biografia muito concisa

Johann Sebastian Bach nasceu em Eisenach (Alemanha), em 1685. A família Bach era essencialmente de músicos. Seu trisavô Veit Bach foi um grande amante de música. Seu bisavô Hans foi músico, seu avô paterno Johann Christoph (1613-1661) foi organista, seu pai Johann Ambrosius (1645-1695) foi musicien de ville, algo como um organizador da música da cidade em que viveu (Eisenach). Johann Sebastian teve um irmão, Johann Christoph, organista, que foi seu primeiro professor de música. Johann Sebastian (JS) aprendeu a tocar instrumentos de cordas já na infância. Foi também membro do coral da cidade. Porém aos nove anos ficou órfão de pai e mãe. Seu irmão mais velho, organista de Ohrdruf, lhe ensinou cravo e composição. Aos quinze anos JS foi admitido no mestrado em Saint-Michel de Lüneburg, onde recebeu formação em retórica, latim, grego, lógica, teologia e música. Foi contratado como organista em Arnstadt em 1703.

Aprendeu francês e descobriu a cultura francesa sem se afastar da tradição alemã. Também conheceu a cultura italiana, primeiro da música de Frescobaldi. Teve aulas com os organistas Georg Bohm e com o grande Buxtehude. Foi subsequentemente contratado em Miihlhausen. Casou-se pela primeira vez aos 22 anos com sua prima Maria Barbara Bach. Já nessa época JS tinha excelente reputação, tendo sido contratado em Weimar como organista, violinista e compositor, onde tornou-se músico “da corte”. Weimar (de 1708 a 1717) proporcionou-lhe importante enriquecimento musical, mas também tensões com o duque reinante. Bach desenvolveu maior afinidade pelo sobrinho e herdeiro do duque, o príncipe Wilhelm Ernst, amante de música. Em 1717 obteve permissão para deixar Weimar para a corte do Príncipe Leopold de Anhalt-Coethen (1717-1723).

Cinco anos em Coethen foram provavelmente os mais felizes de sua vida, apesar da morte de Maria Barbara. O príncipe Leopold constituiu a melhor orquestra da Alemanha de então (dezessete músicos, incluindo vários virtuosos renomados). Bach desfrutava não apenas de profunda consideração por parte do príncipe (seu salário era tão alto quanto o do marechal da corte), mas de uma verdadeira amizade. Condições ideais permitiram a Bach uma criação abundante. Concertos, quase toda a sua música de câmara data deste período, o Cravo Bem Temperado, suites e partitas, aberturas (suítes) para orquestras, os Concertos de Brandenburgo foram compostos durante estes 5 anos.

Bach se casou pela segunda vez com Anna Magdalena Wilcken, filha de um trompetista orquestral e uma cantora da corte. No entanto, o príncipe Leopold era calvinista e, em Coethen, não havia música nos cultos religiosos. JS compôs nesse período essencialmente música não-religiosa. Porém, JS sentiu forte necessidade de trabalhar novamente para a Igreja. Por isso, tentou obter cargo como organista em Hamburgo, mas obteve posição de cantor na Thomasschule em Leipzig, para onde se mudou com salário menor e com muitas restrições.

Trabalhou na escola Saint-Thomas, meio orfanato, meio conservatório, intimamente envolvida com a vida da igreja e da cidade. O papel de cantor foi honroso e importante, mas cheio de muitas dificuldades com a administração da escola. Bach pediu mais recursos para sua música e maior disponibilidade de alunos; mas o reitor dava ênfase aos estudos clássicos. O impasse lhe causou problemas de saúde. Mesmo assim, ele permaneceu em Leipzig por 27 anos, até sua morte em 1750, período durante o qual compôs algumas de suas obras sacras mais importantes.

Johann Sebastian Bach – um músico excepcional

Bach é considerado o mais erudito compositor da história da música. Sua ciência da composição, sua inventividade e, acima de tudo, sua capacidade de combinar diferentes estilos, são surpreendentes. Sua força intelectual decorreu do facto de ter vivenciado um período de transição de diferentes tradições musicais. Graças a um espírito de síntese de rara potência, conseguiu captar os diferentes tipos de linguagens musicais e desenvolver sua própria gramática musical.

A base da linguagem musical de Bach foi o contraponto. Bach foi herdeiro da tradição polifônica europeia. A concepção musical de Bach é uma polimelodia, estrutura combinatória na qual as linhas musicais guardam independência melódica. Esta concepção é perceptível em suas grandes obras como as grandes fugas, as fugas choeurs, e vai além. O contraponto é o fundamento do estilo de Bach, que entrelaça vozes sem esforço. A riqueza musical de JS se deve a esta capacidade. Seu tecido é compacto e denso, com vozes intermediárias de linhas melódicas completas e independentes.

O virtuosismo contrapuntístico de Bach foi inigualável. Foi capaz de combinar qualquer melodia com outra, ou consigo mesma. Um exemplo é a cantata BWV 78 Jesu der by meine Seele.

A capacidade combinatória de Bach caracterizou seu estilo, sendo o autor das mais impressionantes fugas já compostas. Também garantiu a liberdade de seu pensamento musical. Pôde combinar qualquer tema com qualquer outro para que, de seu contraste ou de sua união, fosse possível criar música completamente nova.

Apesar de ser herdeiro da tradição polifônica, Bach contribuiu decisivamente para a criação de uma nova linguagem musical, que trouxe consigo a sobreposição simultânea e sincrônica de vozes. Uma das grandes inovações foi a diminuição da estrutura musical a uma melodia acompanhada pelo “baixo contínuo” (o cravo). JS utilizou essa concepção em toda sua obra. Esse é o estilo de toda a sua música de câmara, da parte principal das partes vocais de suas cantatas, que liberta a melodia do solista e permite que o canto permaneça livre. O estilo essencial de Bach é a combinação de vozes, enquanto que Vivaldi ou Handel conceberam a música verticalmente, na qual apenas a melodia principal se move com eles ao longo do tempo e a harmonização é sincrônica.

Já os grandes polifonistas do século XV e XVI, como Josquin des Près, Victoria, Palestrina, pensaram na totalidade simultânea das vozes cujo entrelaçamento eles conduziam. JS Bach transformou o conceito de conjunto simultâneo. Sendo virtuose do contraponto, não perdia de vista o resultado produzido pela superposição de notas introduzidas simultaneamente. A dinâmica de sua polifonia permitiu efeitos de encontro de uma intensidade às vezes dramática.

JS Bach não teve um herdeiro musical. Sua síntese foi única, pois só pôde ser realizada entre 1700 e 1750. A evolução da estética musical tornou-a impossível posteriormente. Após sua morte, Bach foi incompreendido e considerado ultrapassado. Seus principais filhos compositores, Johann Christian, Wilhelm Friedmann e Carl Phillip Emmanuel, desenvolveram estilos completamente distintos do pai.

O conjunto da obra

200 Cantatas (mais de cem perdidas).

Oratórios da Páscoa (1735) e de Natal (1734).

2 grandes paixões: São João (1722) e São Mateus (1729).

Grande Missa em Si menor (1732-37-49).

4 Missas Curtas (1735).

Magnificat (1723).

7 motetos (1723-34)

24 cantatas profanas

6 Concertos de Brandemburgo (1721).

14 concertos para um, dois, três, quatro cravos e orquestra (1727-35).

4 concertos para um e dois violinos.

Inúmeros concertos para instrumentos solo (oboé e violino, flauta, violino e cravo, entre outros).

4 suítes orquestrais (1717-25).

3 Sonatas e 3 Partitas para violino solo (1720).

6 suítes para violoncelo solo (1720).

6 Sonatas para flauta e cravo, 10 Sonatas para violino e cravo (1717-21), 10 Sonatas em trio (1717-21).

3 Sonatas para viola da gamba e cravo (1717-21).

Música para órgão, que inclui 166 coros, 6 concertos, 6 sonatas em trio (1727), 27 prelúdios, fantasias, tocatas e fugas.

Grande Passacaglia em dó menor (1716).

Música para cravo e pianoforte (que surgiu na época):

O cravo bem temperado (1722-44) (duas vezes 24 prelúdios e fugas).

6 partitas (1726-31), 6 suítes inglesas (1724-25), 6 suites francesas (1722), concerto italiano (1735), 30 invenções a dois e 3 vozes, 3 sinfonias a três vozes (1720-23), 16 transcrições de concertos (1710). Variações Goldberg (1742).

Oferenda musical (1747).

A arte da fuga (1750).

As próximas postagens incluem algumas das obras mais importantes do grande compositor Johann Sebastian Bach.

Bach – Cantata Wachet auf, ruft uns die Stimme BWV 140 – Van Veldhoven | Netherlands Bach Society

Bibliografia

Histoire de la Musique Occidentale – Jean Massin e Brigitte Massin, Fayard, 1983.

Jean-Sébastien Bach – Génies et Réalités, Chêne, 1985.

Homenagem ao Dia Internacional do Café

Johann Sebastian Bach (1685-1750) é considerado por especialistas como o maior e mais importante compositor musical de todos os tempos, por vários motivos. Também era um amante do café. Bach compôs principalmente música sacra (200 cantatas religiosas; 9 peças litúrgicas em Latim; 5 paixões e oratórios, dentre as quais a Paixão segundo são Matheus, considerada sua obra mais importante). Em muito menor quantidade compôs cantatas seculares (não-religiosas), apenas 15.  Dentre estas a cantata do café é a mais popular (também conhecida como Schweigt stille, plaudert nicht, BWV 211). Foi escrita por volta de 1735 para um conjunto musical chamado The Collegium Musicum, que atuava no café Zimmerman em Leipzig, Alemanha.

Johann Sebastian Bach (1685 – 1750), German musician and composer playing the organ, circa 1725. From a print in the British Museum. (Photo by Rischgitz/Getty Images)

A ópera cômica narra a história de uma jovem casamenteira, que encontrou um pretendente. Porém, o pai da moça não gosta do hábito dela de beber café, e impõe condições para o casamento para que ela pare de beber café para ter o consentimento. A moça inteligente concorda com o pai e, em segredo, faz o futuro marido concordar que só se casará com ela se depois do casamento ela puder beber café. Ao final, todos concordam que café é uma bebida que uma vez que a gente começa a tomar, é muito difícil de parar… Esta é minha homenagem ao Dia Internacional do Café. A seguir, uma interpretação bem moderna da Cantata do Café de Johann Sebastian Bach.

Pai senhor, mas não seja tão duro!

Se eu não pudesse, três vezes por dia,

ter permissão para beber minha pequena xícara de café,

na minha angústia vou me transformar em

uma cabra assada enrugada.

Ah! Qual o gosto doce do café,

mais gostoso do que mil beijos,

mais suave do que o vinho moscatel.

Café, eu tenho que tomar café,

e, se alguem quiser me mimar,

ah, então me traga café de presente!

Para onde vamos?

Ao longo da história, mais de uma vez a humanidade se meteu em enrascadas ou se confrontou com problemas realmente sérios. Alguns exemplos recentes, de cerca de 100 anos ou menos, foram as Guerras Mundiais.

Em sua obra de 1955 Edward M. Burns discute os eventos que levaram à 1ª Guerra Mundial com base em sentimentos nacionalistas bastante radicais. Burns ressalta dois aspectos importantes a serem considerados para entender a 1ª Guerra Mundial, os imediatos e os subjacentes. Dentre os subjacentes, destaca a competição econômica entre a Inglaterra e França com a Alemanha, esta última sendo então uma potência industrial. Inglaterra e França se encontravam profundamente incomodadas com o desenvolvimento alemão. Razões geopolíticas envolvendo a Rússia, Áustria, Sérvia, Romênia, Bulgária e Grécia também são consideradas relevantes pelo autor que, todavia, assinala que questões de rivalidade econômica foram menos importantes do que questões políticas diretamente relacionadas ao forte sentimento nacionalista de várias nações.

Barraclough e Parker (1993) não apresentam uma interpretação das razões subjacentes que levaram à 1ª Guerra Mundial, a não ser por detalhes não mencionados por Burns. Por exemplo, o não-apoio da Rússia e do Império Austro-Húngaro à França, que estaria relacionado a manifestações proletárias no país francófono. A entrada dos EUA no conflito em 6 de abril de 1917 foi determinante para a vitória dos aliados contra a Alemanha, Áustria e outros países como Turquia e Bulgária, que levou ao fim do Império Austro-Húngaro, do Império Otomano e, por outro lado, aos movimentos revolucionários na Rússia.

Burns, assim como Barraclough e Parker, consideram o fim da 1ª Guerra como a entrada na era moderna. Poincaré era presidente da França, o primeiro-ministro inglês era David Lloyd George, o presidente dos EUA Woodrow Wilson e Wilhelm II imperador da Alemanha, que abdicou. Vladimir Ilyich Ulianov (Lênin) assumiu o poder da Rússia em 1917. Em 1919 Wilson recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Paz que, infelizmente, não durou muito. Foi preciso uma 2ª Guerra Mundial para que os ânimos se arrefecessem um pouco mais na Europa.

No fim da 1ª Guerra Mundial o mundo também teve que enfrentar a pandemia de gripe espanhola que, estima-se, tenha infectado 500 milhões de pessoas das quais entre 17 e 100 milhões morreram. Uma das hipóteses para se explicar o fim da gripe espanhola é que o vírus tenha sofrido uma mutação com significativa perda de letalidade. A varíola era outra doença de origem viral ainda muito presente no fim do século 19 e que só foi completamente erradicada em 1980.

Segundo o Professor Hernan Chaimovich da USP, guerras e pandemias apresentam suas similaridades, com uma diferença: nas pandemias virais os humanos têm como inimigo um vírus que mata indiscriminadamente. Pode-se acrescentar que, embora guerras permitam diferentes interpretações históricas, pandemias virais apresentam um padrão científico mais preciso em termos de natureza, infecção, disseminação e tratamento, mesmo que essas características sejam difíceis de serem conhecidas. O entendimento e interpretação de fatos históricos por vezes e por certo podem variar, dentro dos limites aceitos pela ciência; no caso de infecções virais, variações podem ocorrer mas serão cada vez melhor compreendidas com o tempo. Foi justamente isso que possibilitou a erradicação da varíola e outras viroses severas, como a poliomielite, a catapora (varicela), caxumba, coqueluche, meningite, sarampo, e outras.

O tratamento de doenças virais com vacinas é um dos triunfos do desenvolvimento das ciências médicas nos últimos mais de 100 anos, que fez com que a expectativa de vida média dos humanos passasse de menos de 50 anos no final do século 19 para quase 80 anos atualmente. Se o líder de uma nação sofresse uma facada no final do século 19 como Bolsonaro sofreu durante a campanha presidencial de 2018, seu destino estaria rápida e definitivamente determinado, pois ainda não existiam antibióticos, as técnicas cirúrgicas ainda eram primitivas, hábitos de higiene estavam começando a se consolidar e o número de medicamentos era limitado.

Guerras e pandemias têm outra característica comum para serem enfrentadas: é preciso lideranças capazes com um exército de profissionais competente e inteligente, em todos os níveis hierárquicos. Não bastam destemidos e bem armados soldados se seus superiores não conseguem lhes coordenar de forma a enfrentar o(s) inimigo(s) na guerra. Também não bastam generais e coronéis muito bem capacitados se seus subordinados são mal preparados e não entendem as ordens superiores. O enfrentamento de pandemias igualmente necessita de profissionais competentes em todos os níveis.

Ambas situações têm um objetivo comum: proteger a população. Para tal, tanto em uma situação quanto em outra a população deve ser bem instruída como proceder diante de situações mais ou menos críticas quando em guerra ou sob uma pandemia. De outra forma, a guerra contra o inimigo será infrutífera, pois a população se torna seu próprio adversário.

O Professor Chaimovich menciona que o inimigo pode estar entre nós, se os responsáveis por enfrentar inimigos externos nas guerras e pandemias não têm capacidade para fazê-lo. O pior são governos que confundem a própria população, e a tornam incapaz de entender quais são os verdadeiros oponentes, se vírus ou ignorância.

Para além de guerras e pandemias, deveríamos refletir seriamente sobre o que nos reserva o futuro. Lideranças muito bem preparadas, profissionais competentes em todos os níveis, e uma população esclarecida, bem educada e socialmente muito bem estruturada são os fundamentos de democracias de sucesso. Democracias estas que conseguem enfrentar e resolver seus problemas, por mais complexos e diversos que sejam.

Mais do que nunca o Brasil precisa se conhecer muito melhor, amadurecer e se inserir no século 21 como nação. Para isso não bastam cartas de intenções, manifestos e reuniões de notoriedades, ainda que com os melhores propósitos. Embora um problema específico exija resolução imediata – a COVID-19 – problemas maiores só poderão ser enfrentados com tempo. Para tanto, mais do que nunca é necessário que se construa um projeto de país. Não é uma tarefa simples. Mas a realidade atual demonstrou mais do que nunca que, sem um projeto de país, não será possível o Brasil enfrentar seus muitos problemas.

Cabe então a reflexão: a quem de direito, construir esse projeto? Somente políticos e empresários? Não seria necessário engajar outros vários atores neste propósito tendo em vista que políticos e empresários representam uma fração ínfima da sociedade?

Se por um lado a pandemia evidenciou que a ciência é imprescindível para seu enfrentamento, ainda não ficou claro para a sociedade o poder do conhecimento para entender e enfrentar outros problemas igualmente complexos, que estão presentes. Tendo em vista a urgência em se resolver questões que podem necessitar mais ou menos tempo, é importante que a construção de um projeto de nação inclua diferentes setores da sociedade, especialmente “minorias” que, na verdade, muitas vezes são maiorias.

Definir minorias como tal depende de quem as define. Além do mais, o termo traz consigo certa conotação de desimportância. Porém, existem minorias que o são, de fato, minorias, mas nem por isso menos importantes, muito pelo contrário. Por exemplo, professores e pesquisadores.

Desnecessário discutir a importância de professores, sendo este um assunto tão presente na realidade calamitosa da educação brasileira.

Sobre a importância de pesquisadores seria necessário escrever outro artigo. Contudo, basta mencionar o planejamento de investimento em ciência para 2021 e além de governos de diversos países: Reino Unido, França, EUA, países escandinavos, Japão, Argentina, África do Sul, Países Baixos, Alemanha, e outros. O aumento de orçamento de países desenvolvidos para as atividades de pesquisa mais do que evidencia o novo status que a pesquisa científica atingiu no período da pandemia. Seria bom se também fosse verdade no Brasil.

Não é mais possível ter um país tão fragmentado, pois essa divisão impede o país de avançar e se inserir no século 21. Em uma verdadeira democracia sociedade e governantes devem estar abertos ao diálogo, construir pontes e não muros. Para isso, trazer para o debate aqueles que se debruçam sobre a resolução de problemas como a principal atividade de suas vidas – professores e pesquisadores – é absolutamente necessário. Somente uma construção de projeto de país verdadeiramente colaborativa poderá responder à pergunta: para onde vamos?

Biblio

Burns, E. M. Western Civilizations: their history & their culture, 1955.

Barraclough, G. & Parker, G. The Times Atlas of World History, 1993.

The Hill We Climb – Amanda Gorman

When day comes we ask ourselves,
where can we find light in this never-ending shade?
The loss we carry,
a sea we must wade
We’ve braved the belly of the beast
We’ve learned that quiet isn’t always peace
And the norms and notions
of what just is
Isn’t always just-ice
And yet the dawn is ours
before we knew it
Somehow we do it
Somehow we’ve weathered and witnessed
a nation that isn’t broken
but simply unfinished
We the successors of a country and a time
Where a skinny Black girl
descended from slaves and raised by a single mother
can dream of becoming president
only to find herself reciting for one
And yes we are far from polished
far from pristine
but that doesn’t mean we are
striving to form a union that is perfect
We are striving to forge a union with purpose
To compose a country committed to all cultures, colors, characters and
conditions of man
And so we lift our gazes not to what stands between us
but what stands before us
We close the divide because we know, to put our future first,
we must first put our differences aside
We lay down our arms
so we can reach out our arms
to one another
We seek harm to none and harmony for all
Let the globe, if nothing else, say this is true:
That even as we grieved, we grew
That even as we hurt, we hoped
That even as we tired, we tried
That we’ll forever be tied together, victorious
Not because we will never again know defeat
but because we will never again sow division
Scripture tells us to envision
that everyone shall sit under their own vine and fig tree
And no one shall make them afraid
If we’re to live up to our own time
Then victory won’t lie in the blade
But in all the bridges we’ve made
That is the promise to glade
The hill we climb
If only we dare
It’s because being American is more than a pride we inherit,
it’s the past we step into
and how we repair it
We’ve seen a force that would shatter our nation
rather than share it
Would destroy our country if it meant delaying democracy
And this effort very nearly succeeded
But while democracy can be periodically delayed
it can never be permanently defeated
In this truth
in this faith we trust
For while we have our eyes on the future
history has its eyes on us
This is the era of just redemption
We feared at its inception
We did not feel prepared to be the heirs
of such a terrifying hour
but within it we found the power
to author a new chapter
To offer hope and laughter to ourselves
So while once we asked,
how could we possibly prevail over catastrophe?
Now we assert
How could catastrophe possibly prevail over us?
We will not march back to what was
but move to what shall be
A country that is bruised but whole,
benevolent but bold,
fierce and free
We will not be turned around
or interrupted by intimidation
because we know our inaction and inertia
will be the inheritance of the next generation
Our blunders become their burdens
But one thing is certain:
If we merge mercy with might,
and might with right,
then love becomes our legacy
and change our children’s birthright
So let us leave behind a country
better than the one we were left with
Every breath from my bronze-pounded chest,
we will raise this wounded world into a wondrous one
We will rise from the gold-limbed hills of the west,
we will rise from the windswept northeast
where our forefathers first realized revolution
We will rise from the lake-rimmed cities of the midwestern states,
we will rise from the sunbaked south
We will rebuild, reconcile and recover
and every known nook of our nation and
every corner called our country,
our people diverse and beautiful will emerge,
battered and beautiful
When day comes we step out of the shade,
aflame and unafraid
The new dawn blooms as we free it
For there is always light,
if only we’re brave enough to see it
If only we’re brave enough to be it

2020 foi um bom ano para a Ciência?

O ano se inicia com a COVID-19

Há um ano atrás surgiram as primeiras notícias do surgimento de um novo tipo de vírus, do tipo coronavírus, na China. As autoridades sanitárias e cientistas da China rapidamente o identificaram, e foi batizado de SARS-CoV-2, causador de doença respiratória denominada COVID-19. Talvez o mundo não imaginasse que em um ano esse vírus contaminaria quase 80 milhões de pessoas, causando mais de 1,4 milhões de mortes.

No Brasil estima-se que o vírus tenha chegado em 26 de janeiro, pouco antes do carnaval, trazido da Europa, provavelmente da Itália. Rapidamente se disseminou, muito provavelmente devido à lentidão para que medidas sanitárias eficazes fossem implementadas.
O mais impressionante da incompetência em se enfrentar rapidamente o problema é que há 100 anos atrás o mundo enfrentou a pandemia da gripe espanhola que dizimou 50 milhões de vidas. Publicado em 1919 na revista Science, artigo pelo Major George A. Soper relata as lições trazidas pela pandemia de gripe espanhola, e finaliza seu artigo listando medidas eficazes para conter a disseminação da mesma.

  1. Evite aglomerações desnecessárias – a gripe é uma doença das multidões.
  2. Sufoque a tosse e os espirros – os outros não querem os seus germes.
  3. Seu nariz, não sua boca, foi feito para respirar – adquira esse hábito.
  4. Lembre-se dos três C’s – uma boca limpa, pele limpa e roupas limpas.
  5. Tente manter a calma ao caminhar e aquecido ao andar de bicicleta e dormir.
  6. Abra as janelas – sempre em casa à noite; no escritório, quando praticável.
  7. A comida vencerá a guerra se você der uma chance – escolha e mastigue bem a comida.
  8. O seu destino pode estar nas suas próprias mãos, lave as mãos antes de comer.
  9. Não deixe os resíduos da digestão se acumularem – beba um ou dois copos de água ao se levantar.
    10 Não use guardanapo, toalha, colher, garfo, copo ou copo que tenha sido usado por outra pessoa e não tenha sido lavado.
  10. Evite roupas apertadas, sapatos apertados, luvas apertadas – procure fazer da natureza sua aliada, não sua prisioneira.
  11. Quando o ar é puro, respire todo ele, você pode respirar profundamente.

Os conselhos de Soper parecem inocentes, mas alguns foram repetidos ad nauseam durante este ano.
Mesmo tendo enfrentado a gripe espanhola, tendo passado pela revolta da vacina em 1904, tendo sido descobertas vacinas para tratar 26 doenças, a importância da vacinação ser inquestionável para se prevenir inúmeras doenças, os governos de alguns países decidiram voltar ao século 19.

De minha parte, posso dizer que tive MUITA SORTE em não ter sido contaminado. Estava em viagem pelos EUA, mais precisamente em San Francisco, quando a COVID-19 já estava circulando pela California. Visitei San Francisco entre 10 e 17 de fevereiro, Vancouver (Canadá) entre 17 e 23 de fevereiro, e participei da Gordon Research Conference on Marine Natural Products (GRC-MNP) entre 23 e 28 de fevereiro. Na GRC-MNP estavam pesquisadores do mundo todo: Itália, Japão, Coréia do Sul, Espanha, Alemanha, Brasil, Canadá e vários outros. Pelo que eu soube, ninguém se contaminou. Minha viagem de volta, em 28 de fevereiro, teve como ponto de partida o aeroporto de Los Angeles, com parada no aeroporto de Montreal, e chegada em São Paulo no dia 29 de fevereiro, quando o vírus já estava circulando no Brasil.

A COVID-19 e a ciência

Considerada pelo governo como uma “gripezinha”, desde o início o governo recomendou tratamento ineficaz com hidroxicloroquina. Diversos outros medicamentos foram sugeridos para tratar a COVID-19 sem que nenhum apresentasse real eficácia para a sua cura. De imediato as empresas farmacêuticas se lançaram à busca de uma vacina que pudesse ser utilizada contra a infecção viral. No atual momento, pelo menos 4 vacinas já estão sendo utilizadas em diferentes países. No Brasil, espera-se que a Coronavac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac Biotech e pelo Instituto Butantan, possa ser brevemente utilizada na vacinação da população. O desenvolvimento de vacinas contra a COVID-19 é um recorde histórico no desenvolvimento de medicamentos, que na sua maioria demoram de 10 a 15 anos desde a sua descoberta e chegam a custar quase US$ 2 bilhões até chegar no mercado.

A pandemia da COVID-19 definitivamente colocou o debate sobre a importância da ciência em nível muito acima do que até então. Ao longo deste ano as discussões sobre a importância da ciência proliferaram vertiginosamente, e continuam na ordem do dia, fazendo parte do discurso de autoridades políticas para sustentar suas ações de enfrentamento da pandemia.

Vários debatedores e analistas elaboraram argumentos diversos sobre as consequências da valorização da ciência, os quais muitas vezes se mostraram como “wishful thinking”. Talvez a elaboração de argumentos pressupostamente otimistas tenha ajudado a olhar para um futuro um pouco mais promissor. Mas infelizmente tal olhar não colabora no enfrentamento dos problemas.

No Brasil, em particular, é necessário se levar em conta possibilidades as mais realistas possíveis, considerando-se as inúmeras dificuldades atuais e futuras.

Independentemente das análises, mais ou menos otimistas (ou pessimistas), é necessário muito melhor se compreender a ciência para melhor se conhecer a sua importância.

A ciência e as artes são duas das maiores realizações da humanidade. O “espírito científico” faz parte da natureza humana assim como sua expressão artística. De acordo com Brito Cruz e Chaimovich,

A final note is in order here to address a question that comes up frequently in political circles in Brazil, namely, ‘Why should taxpayer money pay for R&D?’ As a tentative answer, we would say that there are at least two equally valid justifications for this. One is that contributing to the universal pool of knowledge makes Brazilians more capable of determining their own destiny. Like people everywhere, Brazilians ask themselves, ‘How did the Universe begin?’ ‘How does it work?’ ‘Why does society behave the way it does?’
‘What drives human beings towards good or evil?’ Understanding the classics of literature and appreciating nature and art are part of what makes us human. Studying these and an infinite number of other questions enriches us. This alone would be reason enough to use taxpayer money to find science-based answers – even incomplete ones – to fundamental questions and thereby improve our knowledge of the Universe and humankind.”

Mas, como definir a ciência? O que seria, exatamente, a ciência? Algumas definições mais clássicas afirmam que ‘a ciência é o domínio do homem sobre o ambiente’, ou que ‘ciência é a investigação do mundo material (físico)’, ‘ciência é o método experimental’, ‘ciência chega à verdade através de inferências lógicas a partir de observações empíricas’.

Ume definição bastante ousada, e ao mesmo tempo simples, é que ciência é conhecimento público, uma vez que a ciência existe somente pelo conhecimento publicado e disseminado. Já o conhecimento científico é aquele que sobrevive à sua análise e escrutínio críticos durante muitas décadas, tornando-se persuasivo e universalmente aceito. O conhecimento científico é, assim, estabelecido em consenso e, como tal, aceito.

Partindo-se de tais premissas, e voltando-se ao enfrentamento da COVID-19, cabe perguntar: o que faltou para enfrentarmos a pandemia de maneira muito mais eficaz? Faltou, justamente, um melhor entendimento sobre a ciência e sobre o consenso científico. Faltou este entendimento tácito por parte de políticos, gestores, e até mesmo por parte de médicos e cientistas. Sem este entendimento, é muito difícil se enfrentar de maneira eficaz um problema de natureza essencialmente científica. As consequências são evidentes, e não necessitam ser enfatizadas.

Afinal, 2020 foi um bom ano para a ciência?

Talvez a importância da ciência em tempos recentes não tenha sido tão ressaltada quanto em 2020. Ao mesmo tempo, incompreensivelmente políticas nacionais e estaduais parecem ignorar a importância essencial da ciência para o enfrentamento da pandemia de COVID-19 e de muitos outros problemas. De qualquer forma, foi importante esse debate ter sido aberto e exposto para a sociedade, que além de financiar boa parte da pesquisa e do conhecimento científico adquirido, também é a maior beneficiária do desenvolvimento da ciência. Porém, isso não é evidente para a maior parte da sociedade, simplesmente pelo fato de não saber o que é ciência e conhecimento científico.

Estudo recente mostra que a percepção da sociedade sobre a ciência e os cientistas é bastante indefinida. Cabe, então, aos pesquisadores, cientistas e gestores de instituições científico-acadêmicas trabalhar continuamente para demonstrar a importância da ciência para a sociedade. Somente assim será possível garantir a permanência da ciência como uma das maiores realizações da humanidade. E também enfatizar que problemas aparentemente insolúveis, ou muito difíceis de serem enfrentados, necessitam de mais ciência para sua resolução. Não de menos.

Atualização em 26/12/2020: um de meus leitores me sugeriu um post de Tyler Cowen no site da Bloomberg, que faz uma análise que 2020 foi um ano realmente bom para a ciência. Para além das vacinas obtidas em tempo recorde, e em particular com o sucesso da tecnologia de mRNA inicialmente proposta pela pesquisadora húngara Katalin Karikó, Tyler menciona: a) uma vacina para o tratamento da malária cujo avanço se encontra adiantado; b) novas abordagens de edição genética que fazem uso de CRISPR; c) avanços também na pesquisa com inteligência artificial, em especial na edição de textos, em bioquímica e química medicinal; d) avanços na computação quântica, que inclusive determinaram o sucesso da vacina da COVID-19 da empresa Moderna; e) avanços também na tecnologia de transportes sem condutores; f) os progressos fantásticos da SpaceX de Elon Musk; g) igualmente na direção da sustentabilidade, com o aprimoramento de tecnologias de captação de energia solar; h) o sucesso das reuniões em modo remoto (mas não sei se deixará saudade entre aqueles que podem se reunir presencialmente).

 

Ataques à ciência dão errado

A ciência é um conjunto institucionalizado de práticas de conhecimento, não um sistema filosófico.

O texto a seguir é uma tradução do texto “What Attacks on Science Get Wrong – Science is an institutionalized set of knowledge practices, not a philosophical system” publicado no The Chronicle of Higher Education em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrew Jewett.

Andrew Jewett é autor de Science, Democracy, and the American University: From the Civil War to the Cold War (Cambridge University Press, 2012). Estudou em Harvard, Yale, New York University, Vanderbilt, e no Boston College. Teve bolsas de estudos do National Humanities Center, do Cornell Society for the Humanities, do National Academy of Education, e do American Academy of Arts and Sciences. Esse texto é adaptado do último livro de Jewett, Science under Fire: Challenges to Scientific Authority in Modern America (Harvard University Press).

Em 2013, eclodiu outra longa linha de disputas sobre o cientificismo. Leon Wieseltier, editor literário do The New Republic, disse aos formandos em humanidades em uma cerimônia de formatura da Universidade Brandeis que eles representavam “a resistência” em uma sociedade dominada pelos “imperialismos gêmeos da ciência e da tecnologia”. Wieseltier mencionou os temas familiares de ataque à ciência – a escravidão dos seres humanos às máquinas, a tirania dos números, as depredações do “tecnologismo”, o domínio incontestável da “utilidade, velocidade, eficiência e conveniência” na cultura moderna. O antídoto, afirmou ele, são as humanidades.

O psicólogo evolucionista Steven Pinker respondeu. Humanistas petulantes, acusou ele, dão boas-vindas à ciência quando ela cura doenças, mas não quando ela atinge seu feudo profissional. A marcha da ciência e do Iluminismo melhorou imensamente a condição humana. Apenas a ciência, insistiu Pinker, poderia abordar “as questões mais profundas sobre quem somos, de onde viemos e como definimos o significado e o propósito de nossas vidas”. Os estudiosos das ciências humanas permaneceriam irrelevantes até que adotassem o humanitarismo cientificamente informado que constituía a “moralidade de fato” do mundo moderno. A controvérsia que se seguiu se estendeu por aquele verão e outono.

Hoje, uma pandemia global atinge o mundo. As sociedades enfrentam questões imediatas, práticas, de vida ou morte, sobre como incorporar ciência e perícia em suas decisões coletivas. E, no entanto, os velhos refrões ainda podem ser ouvidos. O comentarista conservador Sohrab Ahmari argumentou que “a ideologia do cientificismo” mergulhou o mundo em “um funk meio-milênio”. Diante de um vírus mortal, escreveu Ahmari, os modernos não entendem por que “vale a pena viver e passar adiante”; eles não podem nem mesmo afirmar que “ser é preferível a não ser”. Pinker voltou a entrar na conversa, argumentando que as decisões políticas que favorecem o bem-estar econômico em vez da saúde física refletem a “ilusão maligna” da “crença na vida após a morte” dos evangélicos, que “desvaloriza vidas reais”.

E assim este padrão cansativo de décadas de disputas continua. Amargas controvérsias públicas giram em torno de mudanças climáticas, design inteligente, alimentos geneticamente modificados, vacinas, mineração de dados e dezenas de outras questões. Em resposta, os críticos culturais reiteram suas posições familiares – geralmente o lamento de que uma ciência sem alma domina a vida moderna ou o medo de que uma onda crescente de irracionalidade faça com que a humanidade retorne à idade das trevas. As abstrações proliferam, à medida que comentaristas invocam a ciência, o cientificismo, o racionalismo, o Iluminismo, as humanidades, o humanismo, a religião, a fé, a irracionalidade, o Ocidente e a modernidade.

Essas abstrações em grande escala provaram ser extremamente inúteis. Cada um dos problemas que enfrentamos tem seus próprios contornos distintos, suas próprias inter-relações complexas entre ciência e normas sociais, práticas e instituições. Apesar das declarações inflamadas dos combatentes e das preocupações dos espectadores, o empreendimento científico como um todo não está em jogo nos debates sobre vacinação, engenharia genética ou mudança climática. Em vez disso, essas controvérsias envolvem descobertas científicas específicas, teorias, técnicas, dispositivos e práticas, conforme se relacionam com valores profundamente arraigados (e muitas vezes diretamente conflitantes) de muitos grupos diferentes.

Teremos dificuldade para abordar as questões incômodas do século 21 se continuarmos a usar as ferramentas interpretativas dos séculos 19 e 20. Essas ferramentas foram forjadas na polêmica entre as elites culturais conflitantes sobre a extensão da ciência a novos domínios – primeiro na história da vida na Terra e depois nas relações humanas – e seu lugar em escolas e faculdades. As injunções gerais para colocar nossa confiança na ciência, ou religião, ou humanidades, ou qualquer outra estrutura ampla, oferecem pouca orientação sobre como responder às possibilidades sociais levantadas por inovações científicas específicas.

Em meados do século 20, uma grande variedade de líderes religiosos, juntamente com estudiosos das humanidades, conservadores políticos, muitos cientistas e grupos de cientistas sociais dissidentes e progressistas seculares, atribuíram os problemas do mundo moderno a uma difamação moral generalizada. Atribuíram esse problema, por sua vez, a tentativas equivocadas de aplicar métodos científicos ao domínio moralmente carregado da ação humana. As imagens resultantes da ciência como uma força eticamente impotente e culturalmente ameaçadora influenciaram as revoltas da década de 1960, que reforçaram poderosamente a associação da ciência com uma forma tecnocrática de liberalismo. Embora os contornos dessas imagens tenham mudado desde então, elas ajudam a explicar por que muitos americanos vêem a ciência moderna como uma presença cultural estranha, apesar de suas associações igualmente fortes com o progresso tecnológico e o crescimento econômico.

Os desafios à autoridade científica que circularam nos Estados Unidos desde os anos 1920 não estão todos errados. A ciência é um empreendimento confuso e totalmente humano, que não aborda e não pode abordar muitas das questões sociais e morais que enfrentamos. Mas muitos críticos vincularam esse ceticismo apropriado a afirmações extravagantes sobre as ambições dos cientistas para o futuro e a influência no presente.

Apesar de todos os seus insights, a ‘esquerda acadêmica’ de hoje também herda muitos desses maus hábitos interpretativos. Na década de 1980, os pós-estruturalistas argumentaram que a mudança social exigiria o desmantelamento não apenas da visão de mundo predominante, mas também do sentimento subjacente de que uma visão de mundo funcionaria para todos. Não houve respostas finais, apenas pessoas em conflito, travando suas lutas em domínios que iam desde os mais altos níveis de abstração filosófica até as formas mais básicas e mundanas de atividade diária.

Os ataques pós-estruturais aos valores universais propostos pela geração do pós-guerra ampliaram-se para uma crítica à ideia de universalidade. As reivindicações de universalidade eram consideradas meramente como representações de exercícios de poder. A campanha contra o universalismo identificou a ciência como uma espécie de metáfora, uma arma excepcionalmente potente para desarmar aqueles que resistiriam a outras operações de poder. Isso influenciou muito a maneira como os estudiosos pensavam sobre a ciência e seus significados sociais no final do século XX. As concepções foucaultianas de “poder / conhecimento”, a rejeição do essencialismo e universalismo e as afirmações do pós-estruturalismo sobre a centralidade do conflito convergiram em um desafio total à compreensão convencional da ciência.

Esses compromissos moldaram a ‘esquerda acadêmica’ à medida que sua influência cresceu nas décadas de 1980 e 1990. Novos estilos de crítica se juntaram aos antigos, e os pós-estruturalistas negaram que qualquer um pudesse alcançar o que o filósofo Thomas Nagel chamou de “visão de lugar nenhum” e a estudiosa feminista Donna Haraway chamou de “truque de deus”. Mesmo as formas de objetividade de baixo para cima adotadas por muitos marxistas e feministas na veia de Sandra Harding entraram em conflito com essa crítica. Haraway procurou fundamentar a capacidade de um insight genuíno em pontos de vista autoconscientemente parciais. Sem uma estrutura única e libertadora disponível, argumentou ela, uma série de “conhecimentos situados” ofereceu a única alternativa para a falsa objetividade da ciência dominante.

À medida que a presunção de universalidade – e, portanto, de uma estrutura moral comum – desapareceu, uma nova ênfase na diferença prevaleceu na ‘esquerda acadêmica’. “A cosmovisão pós-moderna acarreta a dissipação da objetividade”, escreveu Zygmunt Bauman, com “a lenta erosão do domínio outrora desfrutado pela ciência sobre todo o campo do conhecimento (legítimo)”, levando ao surgimento de múltiplos sistemas de verdade concorrentes.

Há muito a ser dito sobre esses relatos. Como tantos críticos antes deles, no entanto, os teóricos pós-estruturais muitas vezes vincularam os argumentos do senso comum sobre o caráter e os limites do conhecimento científico a retratos abrangentes e redutivos de sua influência hegemônica no mundo moderno. Eles afirmaram que a ciência como um todo reivindica a capacidade de responder a todas as perguntas e resolver todos os problemas. Eles também afirmaram que a ciência reina suprema nas sociedades modernas, determinando os contornos básicos de nosso pensamento. Finalmente, eles atribuíram uma série de problemas sociais específicos à influência cultural da ciência. Ao fazer isso, eles ecoaram gerações de críticos religiosos, humanistas e conservadores com visões sociais muito diferentes das suas.

A segunda dessas suposições – que a ciência dá o tom da cultura moderna – ancora o resto do argumento e merece um exame especial. Se a ciência não é culturalmente dominante, então ela não pode ter causado a ladainha de males atribuídos à ela. A ciência é realmente tão influente? Ou devemos culpá-la instintivamente? O que, exatamente, é científico sobre o nosso mundo?

Nos Estados Unidos, a ciência desempenha funções públicas importantes. Biólogos e físicos exercem formas de autoridade em tribunais que líderes religiosos e críticos literários não possuem. O Federal Reserve baseia-se em especialistas econômicos, não na Bíblia ou em Melville. A Agência de Proteção Ambiental segue sugestões das ciências naturais, o Departamento de Educação das ciências sociais. As escolas públicas de ensino médio podem ensinar darwinismo, mas não criacionismo ou design inteligente. Olhando para esses casos, podemos concluir que a ciência desfruta de uma posição privilegiada única na cultura pública americana.

No entanto, outros especialistas também compartilham desses privilégios. Contamos constantemente com o conhecimento de historiadores, jornalistas, juristas e testemunhas oculares, entre outros, embora não consideremos seu trabalho científico. A posição elevada da ciência acaba sendo em parte uma questão de exclusão seletiva: de acordo com a Primeira Emenda, as instituições públicas nos Estados Unidos se abstêm – com ou sem razão, de forma consistente ou inconsistente – de tratar os princípios teológicos como verdades estabelecidas. Enquanto isso, mesmo os mais fervorosos defensores da literatura e das artes raramente afirmam que oferecem formas de conhecimento que devem ser usadas em tribunais ou em decisões políticas.

Ironicamente, o distanciamento das instituições públicas das religiosas tornou muito mais fácil para os críticos religiosos e humanistas se posicionar contra a ciência, embora esse posicionamento às vezes tenha prejudicado a capacidade de encontrar uma audiência. À medida que as comunidades religiosas se tornavam mais tolerantes umas com as outras, o inimigo comum – antigamente paganismo, agora materialismo, naturalismo ou secularismo – apresentava um alvo óbvio. Certamente, continua o pensamento, as instituições seculares resultam de filosofias seculares, e certamente a ciência produz essas filosofias. À medida que os cientistas aumentavam suas afirmações de neutralidade de valor, mais e mais críticos traçavam uma conexão causal. A ciência, eles argumentaram, trouxe à tona um mundo dominado por valores superficiais e materialistas, por uma mentalidade puramente instrumental que obscurece a própria existência de valores, ou talvez pelos valores de um grupo social hegemônico, pintado com o pincel da neutralidade.

É realmente verdade, entretanto, que as instituições e práticas seculares refletem o domínio cultural da ciência? Alguns países testemunharam a imposição ativa de visões de mundo “científicas” por regimes militantes seculares. No entanto, mesmo em tais casos, o conjunto institucionalizado de práticas de conhecimento que constituem a ciência não se alinhava necessariamente com as filosofias que marchavam sob sua bandeira. Nos Estados Unidos, as relações entre ciência, filosofia e secularização têm sido especialmente complexas e indiretas. É uma simplificação grosseira afirmar, como disse o estudioso de estudos religiosos Huston Smith, que a ciência “criou nosso mundo”. Ou ainda, como manifestou Alasdair MacIntyre, que a vida social contemporânea é em grande parte “a reencenação concreta e dramática da filosofia do século 18. ”

Muitas características do mundo moderno são seculares, mas não científicas. Direito, burocracia, capitalismo, consumismo, jornalismo, educação, esportes: essas esferas, como muitas outras, refletem em parte o declínio do controle das instituições religiosas. Mas eles não compartilham um único fundamento filosófico comum com a ciência. Como todas as formações sociais, cada uma toma muito de sua forma a partir de traços humanos antigos e de conflitos entre grupos específicos. E cada um, por sua vez, gera um conjunto distinto de suposições, valores e comportamentos culturais.

Isso não quer dizer que as pressuposições fundamentais sejam irrelevantes. A maioria das práticas e instituições no Ocidente moderno parecem inúteis ou mesmo prejudiciais para aqueles que presumem que uma divindade determina nossa sorte mundana, que nossas ações terrenas importam principalmente em relação ao nosso destino de outro mundo, ou ambos. Os padrões típicos de esforço nas sociedades modernas se encaixam muito melhor com a visão de que o bem-estar terreno de uma pessoa reflete em grande parte as ações terrenas de uma pessoa, e que essas ações importam principalmente por esse motivo.

Embora a difusão dessa ênfase no aqui e agora tenha tido grandes consequências, ela não é secular nem científica em si. Claro, isso é típico entre não teístas, embora alguns considerem a ação humana essencialmente sem sentido. Mas também se adapta a uma ampla gama de entendimentos religiosos, mesmo quando entra em conflito com outros. Na verdade, um dos pontos de discórdia em muitos debates em torno da ciência e da modernidade é a legitimidade dessas formas comparativamente mundanas de religião.

Existem questões importantes em jogo aqui, com consequências reais. Existe um Deus que intervém em nossos assuntos? Nosso sistema educacional deve enfatizar a biologia, a literatura ou a Bíblia? As respostas são muito importantes. Mas a forma como estruturamos nossos argumentos também é importante. É injusto e socialmente prejudicial empurrar todos os resultados da fragilidade humana para os livros de nossos oponentes. Essa abordagem gera ressentimento e desconfiança, incluindo ceticismo em relação aos nossos próprios programas culturais quando fica claro que exageramos os efeitos do mundo real das perspectivas concorrentes – e que a nossa perspectiva também não é a cura para as fraquezas humanas.

Enquanto isso, procurar enxergar os problemas sociais até as divergências filosóficas nos deixa incapazes de abordar esses problemas por conta própria, tanto por representar erroneamente suas causas principais quanto por nos convencer de que devemos confrontar nossos conflitos intelectuais antes de podermos tomar medidas significativas. Sem exagerar o grau de terreno compartilhado, devemos trabalhar para construir coalizões onde for possível, mesmo se acreditarmos que nossas próprias opiniões irão brilhar no final. Muitas das ideias que moldam profundamente o comportamento social – ideias sobre igualdade racial, por exemplo, ou a necessidade de regulamentação econômica – ultrapassam as perspectivas religiosas e seculares. Nossos padrões concorrentes de apologética não devem impedir a ação coletiva nessas áreas.

Os apologetas da ciência, como seus críticos, muitas vezes foram a extremos absurdos para desacreditar as visões de mundo que consideravam prejudiciais. Mas aqui é importante distinguir entre a ciência como um conjunto de práticas e instituições e as filosofias que vieram com seu nome. Os críticos da ciência costumam dar o passo salutar de diferenciar a ciência das filosofias do materialismo, naturalismo, positivismo e assim por diante. Mas fazem isso de uma maneira que coloca práticas científicas altamente valorizadas em seu próprio lado da linha filosófica e culpa os males do mundo em perspectivas orientadas para a ciência. Seria sensato adotar uma abordagem mais justa.

Tal abordagem insistiria em níveis diferenciados de análise. Há três histórias distintas a serem contadas: uma sobre os papéis sociais das práticas e descobertas científicas, uma segunda sobre as trajetórias e emaranhados de filosofias inspiradas na ciência e uma terceira sobre o desenvolvimento de padrões e instituições seculares. Insistir nessa diferenciação não é afirmar que a ciência é intrinsecamente pura, operando em glorioso isolamento do mundo humano. No entanto, distinguir entre ciência, filosofia e o secular, em vez de confundi-los, nos permitiria entender seus emaranhados históricos mais claramente – e lidar com mais eficácia com as implicações da pesquisa empírica em nossos dias.

Com o tempo, uma avaliação mais generosa e matizada da ciência pode nos ajudar a libertar os pesquisadores das afirmações extravagantes de desinteresse que envolvem seu trabalho. Não são apenas suas reivindicações, mas também os argumentos e ações de muitos outros grupos que aprisionaram os cientistas na jaula da absoluta neutralidade de valor. Os críticos frequentemente declaram que a ciência evita considerações de valor, a fim de culpá-la por isso. Alguns até afirmam que a ciência genuína fornece conhecimento absolutamente certo – não modelos, nem probabilidades, nem cálculos de risco – e deve fazê-lo antes de agirmos sobre ela. A maioria de nós é cúmplice de uma versão disso: quando confrontados com pesquisas de que não gostamos, exigimos que os pesquisadores em questão demonstrem seu completo desinteresse antes de levá-los a sério.

Esse ciclo deve ser quebrado se quisermos reconhecer a ciência pelo que ela realmente é: uma prática inteiramente humana como qualquer outra, mas que produz resultados notáveis. Em vez de argumentar que a validade da ciência depende da neutralidade pessoal de pesquisadores individuais, poderíamos aprender a valorizar as descobertas científicas por sua confiabilidade. Na verdade, poderíamos melhorar os procedimentos científicos adicionando novos recursos, como a participação do cidadão, para ajudar a garantir a confiabilidade dos resultados. Isso pode ser impossível se os críticos continuarem a ver a ciência como uma presença cultural monstruosa e culpá-la pelas falhas da humanidade, em vez de simplesmente avaliar seus pontos fortes e fracos. É hora de superar a polêmica, reconhecer que a ciência é uma característica central de nosso mundo e decidir o que faremos com ela.
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Veja o que dizem pesquisadores da NASA sobre a possível capacidade da ciência de entender tudo.