Para onde vamos?

Ao longo da história, mais de uma vez a humanidade se meteu em enrascadas ou se confrontou com problemas realmente sérios. Alguns exemplos recentes, de cerca de 100 anos ou menos, foram as Guerras Mundiais.

Em sua obra de 1955 Edward M. Burns discute os eventos que levaram à 1ª Guerra Mundial com base em sentimentos nacionalistas bastante radicais. Burns ressalta dois aspectos importantes a serem considerados para entender a 1ª Guerra Mundial, os imediatos e os subjacentes. Dentre os subjacentes, destaca a competição econômica entre a Inglaterra e França com a Alemanha, esta última sendo então uma potência industrial. Inglaterra e França se encontravam profundamente incomodadas com o desenvolvimento alemão. Razões geopolíticas envolvendo a Rússia, Áustria, Sérvia, Romênia, Bulgária e Grécia também são consideradas relevantes pelo autor que, todavia, assinala que questões de rivalidade econômica foram menos importantes do que questões políticas diretamente relacionadas ao forte sentimento nacionalista de várias nações.

Barraclough e Parker (1993) não apresentam uma interpretação das razões subjacentes que levaram à 1ª Guerra Mundial, a não ser por detalhes não mencionados por Burns. Por exemplo, o não-apoio da Rússia e do Império Austro-Húngaro à França, que estaria relacionado a manifestações proletárias no país francófono. A entrada dos EUA no conflito em 6 de abril de 1917 foi determinante para a vitória dos aliados contra a Alemanha, Áustria e outros países como Turquia e Bulgária, que levou ao fim do Império Austro-Húngaro, do Império Otomano e, por outro lado, aos movimentos revolucionários na Rússia.

Burns, assim como Barraclough e Parker, consideram o fim da 1ª Guerra como a entrada na era moderna. Poincaré era presidente da França, o primeiro-ministro inglês era David Lloyd George, o presidente dos EUA Woodrow Wilson e Wilhelm II imperador da Alemanha, que abdicou. Vladimir Ilyich Ulianov (Lênin) assumiu o poder da Rússia em 1917. Em 1919 Wilson recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Paz que, infelizmente, não durou muito. Foi preciso uma 2ª Guerra Mundial para que os ânimos se arrefecessem um pouco mais na Europa.

No fim da 1ª Guerra Mundial o mundo também teve que enfrentar a pandemia de gripe espanhola que, estima-se, tenha infectado 500 milhões de pessoas das quais entre 17 e 100 milhões morreram. Uma das hipóteses para se explicar o fim da gripe espanhola é que o vírus tenha sofrido uma mutação com significativa perda de letalidade. A varíola era outra doença de origem viral ainda muito presente no fim do século 19 e que só foi completamente erradicada em 1980.

Segundo o Professor Hernan Chaimovich da USP, guerras e pandemias apresentam suas similaridades, com uma diferença: nas pandemias virais os humanos têm como inimigo um vírus que mata indiscriminadamente. Pode-se acrescentar que, embora guerras permitam diferentes interpretações históricas, pandemias virais apresentam um padrão científico mais preciso em termos de natureza, infecção, disseminação e tratamento, mesmo que essas características sejam difíceis de serem conhecidas. O entendimento e interpretação de fatos históricos por vezes e por certo podem variar, dentro dos limites aceitos pela ciência; no caso de infecções virais, variações podem ocorrer mas serão cada vez melhor compreendidas com o tempo. Foi justamente isso que possibilitou a erradicação da varíola e outras viroses severas, como a poliomielite, a catapora (varicela), caxumba, coqueluche, meningite, sarampo, e outras.

O tratamento de doenças virais com vacinas é um dos triunfos do desenvolvimento das ciências médicas nos últimos mais de 100 anos, que fez com que a expectativa de vida média dos humanos passasse de menos de 50 anos no final do século 19 para quase 80 anos atualmente. Se o líder de uma nação sofresse uma facada no final do século 19 como Bolsonaro sofreu durante a campanha presidencial de 2018, seu destino estaria rápida e definitivamente determinado, pois ainda não existiam antibióticos, as técnicas cirúrgicas ainda eram primitivas, hábitos de higiene estavam começando a se consolidar e o número de medicamentos era limitado.

Guerras e pandemias têm outra característica comum para serem enfrentadas: é preciso lideranças capazes com um exército de profissionais competente e inteligente, em todos os níveis hierárquicos. Não bastam destemidos e bem armados soldados se seus superiores não conseguem lhes coordenar de forma a enfrentar o(s) inimigo(s) na guerra. Também não bastam generais e coronéis muito bem capacitados se seus subordinados são mal preparados e não entendem as ordens superiores. O enfrentamento de pandemias igualmente necessita de profissionais competentes em todos os níveis.

Ambas situações têm um objetivo comum: proteger a população. Para tal, tanto em uma situação quanto em outra a população deve ser bem instruída como proceder diante de situações mais ou menos críticas quando em guerra ou sob uma pandemia. De outra forma, a guerra contra o inimigo será infrutífera, pois a população se torna seu próprio adversário.

O Professor Chaimovich menciona que o inimigo pode estar entre nós, se os responsáveis por enfrentar inimigos externos nas guerras e pandemias não têm capacidade para fazê-lo. O pior são governos que confundem a própria população, e a tornam incapaz de entender quais são os verdadeiros oponentes, se vírus ou ignorância.

Para além de guerras e pandemias, deveríamos refletir seriamente sobre o que nos reserva o futuro. Lideranças muito bem preparadas, profissionais competentes em todos os níveis, e uma população esclarecida, bem educada e socialmente muito bem estruturada são os fundamentos de democracias de sucesso. Democracias estas que conseguem enfrentar e resolver seus problemas, por mais complexos e diversos que sejam.

Mais do que nunca o Brasil precisa se conhecer muito melhor, amadurecer e se inserir no século 21 como nação. Para isso não bastam cartas de intenções, manifestos e reuniões de notoriedades, ainda que com os melhores propósitos. Embora um problema específico exija resolução imediata – a COVID-19 – problemas maiores só poderão ser enfrentados com tempo. Para tanto, mais do que nunca é necessário que se construa um projeto de país. Não é uma tarefa simples. Mas a realidade atual demonstrou mais do que nunca que, sem um projeto de país, não será possível o Brasil enfrentar seus muitos problemas.

Cabe então a reflexão: a quem de direito, construir esse projeto? Somente políticos e empresários? Não seria necessário engajar outros vários atores neste propósito tendo em vista que políticos e empresários representam uma fração ínfima da sociedade?

Se por um lado a pandemia evidenciou que a ciência é imprescindível para seu enfrentamento, ainda não ficou claro para a sociedade o poder do conhecimento para entender e enfrentar outros problemas igualmente complexos, que estão presentes. Tendo em vista a urgência em se resolver questões que podem necessitar mais ou menos tempo, é importante que a construção de um projeto de nação inclua diferentes setores da sociedade, especialmente “minorias” que, na verdade, muitas vezes são maiorias.

Definir minorias como tal depende de quem as define. Além do mais, o termo traz consigo certa conotação de desimportância. Porém, existem minorias que o são, de fato, minorias, mas nem por isso menos importantes, muito pelo contrário. Por exemplo, professores e pesquisadores.

Desnecessário discutir a importância de professores, sendo este um assunto tão presente na realidade calamitosa da educação brasileira.

Sobre a importância de pesquisadores seria necessário escrever outro artigo. Contudo, basta mencionar o planejamento de investimento em ciência para 2021 e além de governos de diversos países: Reino Unido, França, EUA, países escandinavos, Japão, Argentina, África do Sul, Países Baixos, Alemanha, e outros. O aumento de orçamento de países desenvolvidos para as atividades de pesquisa mais do que evidencia o novo status que a pesquisa científica atingiu no período da pandemia. Seria bom se também fosse verdade no Brasil.

Não é mais possível ter um país tão fragmentado, pois essa divisão impede o país de avançar e se inserir no século 21. Em uma verdadeira democracia sociedade e governantes devem estar abertos ao diálogo, construir pontes e não muros. Para isso, trazer para o debate aqueles que se debruçam sobre a resolução de problemas como a principal atividade de suas vidas – professores e pesquisadores – é absolutamente necessário. Somente uma construção de projeto de país verdadeiramente colaborativa poderá responder à pergunta: para onde vamos?

Biblio

Burns, E. M. Western Civilizations: their history & their culture, 1955.

Barraclough, G. & Parker, G. The Times Atlas of World History, 1993.

The Hill We Climb – Amanda Gorman

When day comes we ask ourselves,
where can we find light in this never-ending shade?
The loss we carry,
a sea we must wade
We’ve braved the belly of the beast
We’ve learned that quiet isn’t always peace
And the norms and notions
of what just is
Isn’t always just-ice
And yet the dawn is ours
before we knew it
Somehow we do it
Somehow we’ve weathered and witnessed
a nation that isn’t broken
but simply unfinished
We the successors of a country and a time
Where a skinny Black girl
descended from slaves and raised by a single mother
can dream of becoming president
only to find herself reciting for one
And yes we are far from polished
far from pristine
but that doesn’t mean we are
striving to form a union that is perfect
We are striving to forge a union with purpose
To compose a country committed to all cultures, colors, characters and
conditions of man
And so we lift our gazes not to what stands between us
but what stands before us
We close the divide because we know, to put our future first,
we must first put our differences aside
We lay down our arms
so we can reach out our arms
to one another
We seek harm to none and harmony for all
Let the globe, if nothing else, say this is true:
That even as we grieved, we grew
That even as we hurt, we hoped
That even as we tired, we tried
That we’ll forever be tied together, victorious
Not because we will never again know defeat
but because we will never again sow division
Scripture tells us to envision
that everyone shall sit under their own vine and fig tree
And no one shall make them afraid
If we’re to live up to our own time
Then victory won’t lie in the blade
But in all the bridges we’ve made
That is the promise to glade
The hill we climb
If only we dare
It’s because being American is more than a pride we inherit,
it’s the past we step into
and how we repair it
We’ve seen a force that would shatter our nation
rather than share it
Would destroy our country if it meant delaying democracy
And this effort very nearly succeeded
But while democracy can be periodically delayed
it can never be permanently defeated
In this truth
in this faith we trust
For while we have our eyes on the future
history has its eyes on us
This is the era of just redemption
We feared at its inception
We did not feel prepared to be the heirs
of such a terrifying hour
but within it we found the power
to author a new chapter
To offer hope and laughter to ourselves
So while once we asked,
how could we possibly prevail over catastrophe?
Now we assert
How could catastrophe possibly prevail over us?
We will not march back to what was
but move to what shall be
A country that is bruised but whole,
benevolent but bold,
fierce and free
We will not be turned around
or interrupted by intimidation
because we know our inaction and inertia
will be the inheritance of the next generation
Our blunders become their burdens
But one thing is certain:
If we merge mercy with might,
and might with right,
then love becomes our legacy
and change our children’s birthright
So let us leave behind a country
better than the one we were left with
Every breath from my bronze-pounded chest,
we will raise this wounded world into a wondrous one
We will rise from the gold-limbed hills of the west,
we will rise from the windswept northeast
where our forefathers first realized revolution
We will rise from the lake-rimmed cities of the midwestern states,
we will rise from the sunbaked south
We will rebuild, reconcile and recover
and every known nook of our nation and
every corner called our country,
our people diverse and beautiful will emerge,
battered and beautiful
When day comes we step out of the shade,
aflame and unafraid
The new dawn blooms as we free it
For there is always light,
if only we’re brave enough to see it
If only we’re brave enough to be it

2020 foi um bom ano para a Ciência?

O ano se inicia com a COVID-19

Há um ano atrás surgiram as primeiras notícias do surgimento de um novo tipo de vírus, do tipo coronavírus, na China. As autoridades sanitárias e cientistas da China rapidamente o identificaram, e foi batizado de SARS-CoV-2, causador de doença respiratória denominada COVID-19. Talvez o mundo não imaginasse que em um ano esse vírus contaminaria quase 80 milhões de pessoas, causando mais de 1,4 milhões de mortes.

No Brasil estima-se que o vírus tenha chegado em 26 de janeiro, pouco antes do carnaval, trazido da Europa, provavelmente da Itália. Rapidamente se disseminou, muito provavelmente devido à lentidão para que medidas sanitárias eficazes fossem implementadas.
O mais impressionante da incompetência em se enfrentar rapidamente o problema é que há 100 anos atrás o mundo enfrentou a pandemia da gripe espanhola que dizimou 50 milhões de vidas. Publicado em 1919 na revista Science, artigo pelo Major George A. Soper relata as lições trazidas pela pandemia de gripe espanhola, e finaliza seu artigo listando medidas eficazes para conter a disseminação da mesma.

  1. Evite aglomerações desnecessárias – a gripe é uma doença das multidões.
  2. Sufoque a tosse e os espirros – os outros não querem os seus germes.
  3. Seu nariz, não sua boca, foi feito para respirar – adquira esse hábito.
  4. Lembre-se dos três C’s – uma boca limpa, pele limpa e roupas limpas.
  5. Tente manter a calma ao caminhar e aquecido ao andar de bicicleta e dormir.
  6. Abra as janelas – sempre em casa à noite; no escritório, quando praticável.
  7. A comida vencerá a guerra se você der uma chance – escolha e mastigue bem a comida.
  8. O seu destino pode estar nas suas próprias mãos, lave as mãos antes de comer.
  9. Não deixe os resíduos da digestão se acumularem – beba um ou dois copos de água ao se levantar.
    10 Não use guardanapo, toalha, colher, garfo, copo ou copo que tenha sido usado por outra pessoa e não tenha sido lavado.
  10. Evite roupas apertadas, sapatos apertados, luvas apertadas – procure fazer da natureza sua aliada, não sua prisioneira.
  11. Quando o ar é puro, respire todo ele, você pode respirar profundamente.

Os conselhos de Soper parecem inocentes, mas alguns foram repetidos ad nauseam durante este ano.
Mesmo tendo enfrentado a gripe espanhola, tendo passado pela revolta da vacina em 1904, tendo sido descobertas vacinas para tratar 26 doenças, a importância da vacinação ser inquestionável para se prevenir inúmeras doenças, os governos de alguns países decidiram voltar ao século 19.

De minha parte, posso dizer que tive MUITA SORTE em não ter sido contaminado. Estava em viagem pelos EUA, mais precisamente em San Francisco, quando a COVID-19 já estava circulando pela California. Visitei San Francisco entre 10 e 17 de fevereiro, Vancouver (Canadá) entre 17 e 23 de fevereiro, e participei da Gordon Research Conference on Marine Natural Products (GRC-MNP) entre 23 e 28 de fevereiro. Na GRC-MNP estavam pesquisadores do mundo todo: Itália, Japão, Coréia do Sul, Espanha, Alemanha, Brasil, Canadá e vários outros. Pelo que eu soube, ninguém se contaminou. Minha viagem de volta, em 28 de fevereiro, teve como ponto de partida o aeroporto de Los Angeles, com parada no aeroporto de Montreal, e chegada em São Paulo no dia 29 de fevereiro, quando o vírus já estava circulando no Brasil.

A COVID-19 e a ciência

Considerada pelo governo como uma “gripezinha”, desde o início o governo recomendou tratamento ineficaz com hidroxicloroquina. Diversos outros medicamentos foram sugeridos para tratar a COVID-19 sem que nenhum apresentasse real eficácia para a sua cura. De imediato as empresas farmacêuticas se lançaram à busca de uma vacina que pudesse ser utilizada contra a infecção viral. No atual momento, pelo menos 4 vacinas já estão sendo utilizadas em diferentes países. No Brasil, espera-se que a Coronavac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac Biotech e pelo Instituto Butantan, possa ser brevemente utilizada na vacinação da população. O desenvolvimento de vacinas contra a COVID-19 é um recorde histórico no desenvolvimento de medicamentos, que na sua maioria demoram de 10 a 15 anos desde a sua descoberta e chegam a custar quase US$ 2 bilhões até chegar no mercado.

A pandemia da COVID-19 definitivamente colocou o debate sobre a importância da ciência em nível muito acima do que até então. Ao longo deste ano as discussões sobre a importância da ciência proliferaram vertiginosamente, e continuam na ordem do dia, fazendo parte do discurso de autoridades políticas para sustentar suas ações de enfrentamento da pandemia.

Vários debatedores e analistas elaboraram argumentos diversos sobre as consequências da valorização da ciência, os quais muitas vezes se mostraram como “wishful thinking”. Talvez a elaboração de argumentos pressupostamente otimistas tenha ajudado a olhar para um futuro um pouco mais promissor. Mas infelizmente tal olhar não colabora no enfrentamento dos problemas.

No Brasil, em particular, é necessário se levar em conta possibilidades as mais realistas possíveis, considerando-se as inúmeras dificuldades atuais e futuras.

Independentemente das análises, mais ou menos otimistas (ou pessimistas), é necessário muito melhor se compreender a ciência para melhor se conhecer a sua importância.

A ciência e as artes são duas das maiores realizações da humanidade. O “espírito científico” faz parte da natureza humana assim como sua expressão artística. De acordo com Brito Cruz e Chaimovich,

A final note is in order here to address a question that comes up frequently in political circles in Brazil, namely, ‘Why should taxpayer money pay for R&D?’ As a tentative answer, we would say that there are at least two equally valid justifications for this. One is that contributing to the universal pool of knowledge makes Brazilians more capable of determining their own destiny. Like people everywhere, Brazilians ask themselves, ‘How did the Universe begin?’ ‘How does it work?’ ‘Why does society behave the way it does?’
‘What drives human beings towards good or evil?’ Understanding the classics of literature and appreciating nature and art are part of what makes us human. Studying these and an infinite number of other questions enriches us. This alone would be reason enough to use taxpayer money to find science-based answers – even incomplete ones – to fundamental questions and thereby improve our knowledge of the Universe and humankind.”

Mas, como definir a ciência? O que seria, exatamente, a ciência? Algumas definições mais clássicas afirmam que ‘a ciência é o domínio do homem sobre o ambiente’, ou que ‘ciência é a investigação do mundo material (físico)’, ‘ciência é o método experimental’, ‘ciência chega à verdade através de inferências lógicas a partir de observações empíricas’.

Ume definição bastante ousada, e ao mesmo tempo simples, é que ciência é conhecimento público, uma vez que a ciência existe somente pelo conhecimento publicado e disseminado. Já o conhecimento científico é aquele que sobrevive à sua análise e escrutínio críticos durante muitas décadas, tornando-se persuasivo e universalmente aceito. O conhecimento científico é, assim, estabelecido em consenso e, como tal, aceito.

Partindo-se de tais premissas, e voltando-se ao enfrentamento da COVID-19, cabe perguntar: o que faltou para enfrentarmos a pandemia de maneira muito mais eficaz? Faltou, justamente, um melhor entendimento sobre a ciência e sobre o consenso científico. Faltou este entendimento tácito por parte de políticos, gestores, e até mesmo por parte de médicos e cientistas. Sem este entendimento, é muito difícil se enfrentar de maneira eficaz um problema de natureza essencialmente científica. As consequências são evidentes, e não necessitam ser enfatizadas.

Afinal, 2020 foi um bom ano para a ciência?

Talvez a importância da ciência em tempos recentes não tenha sido tão ressaltada quanto em 2020. Ao mesmo tempo, incompreensivelmente políticas nacionais e estaduais parecem ignorar a importância essencial da ciência para o enfrentamento da pandemia de COVID-19 e de muitos outros problemas. De qualquer forma, foi importante esse debate ter sido aberto e exposto para a sociedade, que além de financiar boa parte da pesquisa e do conhecimento científico adquirido, também é a maior beneficiária do desenvolvimento da ciência. Porém, isso não é evidente para a maior parte da sociedade, simplesmente pelo fato de não saber o que é ciência e conhecimento científico.

Estudo recente mostra que a percepção da sociedade sobre a ciência e os cientistas é bastante indefinida. Cabe, então, aos pesquisadores, cientistas e gestores de instituições científico-acadêmicas trabalhar continuamente para demonstrar a importância da ciência para a sociedade. Somente assim será possível garantir a permanência da ciência como uma das maiores realizações da humanidade. E também enfatizar que problemas aparentemente insolúveis, ou muito difíceis de serem enfrentados, necessitam de mais ciência para sua resolução. Não de menos.

Atualização em 26/12/2020: um de meus leitores me sugeriu um post de Tyler Cowen no site da Bloomberg, que faz uma análise que 2020 foi um ano realmente bom para a ciência. Para além das vacinas obtidas em tempo recorde, e em particular com o sucesso da tecnologia de mRNA inicialmente proposta pela pesquisadora húngara Katalin Karikó, Tyler menciona: a) uma vacina para o tratamento da malária cujo avanço se encontra adiantado; b) novas abordagens de edição genética que fazem uso de CRISPR; c) avanços também na pesquisa com inteligência artificial, em especial na edição de textos, em bioquímica e química medicinal; d) avanços na computação quântica, que inclusive determinaram o sucesso da vacina da COVID-19 da empresa Moderna; e) avanços também na tecnologia de transportes sem condutores; f) os progressos fantásticos da SpaceX de Elon Musk; g) igualmente na direção da sustentabilidade, com o aprimoramento de tecnologias de captação de energia solar; h) o sucesso das reuniões em modo remoto (mas não sei se deixará saudade entre aqueles que podem se reunir presencialmente).

 

Ataques à ciência dão errado

A ciência é um conjunto institucionalizado de práticas de conhecimento, não um sistema filosófico.

O texto a seguir é uma tradução do texto “What Attacks on Science Get Wrong – Science is an institutionalized set of knowledge practices, not a philosophical system” publicado no The Chronicle of Higher Education em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrew Jewett.

Andrew Jewett é autor de Science, Democracy, and the American University: From the Civil War to the Cold War (Cambridge University Press, 2012). Estudou em Harvard, Yale, New York University, Vanderbilt, e no Boston College. Teve bolsas de estudos do National Humanities Center, do Cornell Society for the Humanities, do National Academy of Education, e do American Academy of Arts and Sciences. Esse texto é adaptado do último livro de Jewett, Science under Fire: Challenges to Scientific Authority in Modern America (Harvard University Press).

Em 2013, eclodiu outra longa linha de disputas sobre o cientificismo. Leon Wieseltier, editor literário do The New Republic, disse aos formandos em humanidades em uma cerimônia de formatura da Universidade Brandeis que eles representavam “a resistência” em uma sociedade dominada pelos “imperialismos gêmeos da ciência e da tecnologia”. Wieseltier mencionou os temas familiares de ataque à ciência – a escravidão dos seres humanos às máquinas, a tirania dos números, as depredações do “tecnologismo”, o domínio incontestável da “utilidade, velocidade, eficiência e conveniência” na cultura moderna. O antídoto, afirmou ele, são as humanidades.

O psicólogo evolucionista Steven Pinker respondeu. Humanistas petulantes, acusou ele, dão boas-vindas à ciência quando ela cura doenças, mas não quando ela atinge seu feudo profissional. A marcha da ciência e do Iluminismo melhorou imensamente a condição humana. Apenas a ciência, insistiu Pinker, poderia abordar “as questões mais profundas sobre quem somos, de onde viemos e como definimos o significado e o propósito de nossas vidas”. Os estudiosos das ciências humanas permaneceriam irrelevantes até que adotassem o humanitarismo cientificamente informado que constituía a “moralidade de fato” do mundo moderno. A controvérsia que se seguiu se estendeu por aquele verão e outono.

Hoje, uma pandemia global atinge o mundo. As sociedades enfrentam questões imediatas, práticas, de vida ou morte, sobre como incorporar ciência e perícia em suas decisões coletivas. E, no entanto, os velhos refrões ainda podem ser ouvidos. O comentarista conservador Sohrab Ahmari argumentou que “a ideologia do cientificismo” mergulhou o mundo em “um funk meio-milênio”. Diante de um vírus mortal, escreveu Ahmari, os modernos não entendem por que “vale a pena viver e passar adiante”; eles não podem nem mesmo afirmar que “ser é preferível a não ser”. Pinker voltou a entrar na conversa, argumentando que as decisões políticas que favorecem o bem-estar econômico em vez da saúde física refletem a “ilusão maligna” da “crença na vida após a morte” dos evangélicos, que “desvaloriza vidas reais”.

E assim este padrão cansativo de décadas de disputas continua. Amargas controvérsias públicas giram em torno de mudanças climáticas, design inteligente, alimentos geneticamente modificados, vacinas, mineração de dados e dezenas de outras questões. Em resposta, os críticos culturais reiteram suas posições familiares – geralmente o lamento de que uma ciência sem alma domina a vida moderna ou o medo de que uma onda crescente de irracionalidade faça com que a humanidade retorne à idade das trevas. As abstrações proliferam, à medida que comentaristas invocam a ciência, o cientificismo, o racionalismo, o Iluminismo, as humanidades, o humanismo, a religião, a fé, a irracionalidade, o Ocidente e a modernidade.

Essas abstrações em grande escala provaram ser extremamente inúteis. Cada um dos problemas que enfrentamos tem seus próprios contornos distintos, suas próprias inter-relações complexas entre ciência e normas sociais, práticas e instituições. Apesar das declarações inflamadas dos combatentes e das preocupações dos espectadores, o empreendimento científico como um todo não está em jogo nos debates sobre vacinação, engenharia genética ou mudança climática. Em vez disso, essas controvérsias envolvem descobertas científicas específicas, teorias, técnicas, dispositivos e práticas, conforme se relacionam com valores profundamente arraigados (e muitas vezes diretamente conflitantes) de muitos grupos diferentes.

Teremos dificuldade para abordar as questões incômodas do século 21 se continuarmos a usar as ferramentas interpretativas dos séculos 19 e 20. Essas ferramentas foram forjadas na polêmica entre as elites culturais conflitantes sobre a extensão da ciência a novos domínios – primeiro na história da vida na Terra e depois nas relações humanas – e seu lugar em escolas e faculdades. As injunções gerais para colocar nossa confiança na ciência, ou religião, ou humanidades, ou qualquer outra estrutura ampla, oferecem pouca orientação sobre como responder às possibilidades sociais levantadas por inovações científicas específicas.

Em meados do século 20, uma grande variedade de líderes religiosos, juntamente com estudiosos das humanidades, conservadores políticos, muitos cientistas e grupos de cientistas sociais dissidentes e progressistas seculares, atribuíram os problemas do mundo moderno a uma difamação moral generalizada. Atribuíram esse problema, por sua vez, a tentativas equivocadas de aplicar métodos científicos ao domínio moralmente carregado da ação humana. As imagens resultantes da ciência como uma força eticamente impotente e culturalmente ameaçadora influenciaram as revoltas da década de 1960, que reforçaram poderosamente a associação da ciência com uma forma tecnocrática de liberalismo. Embora os contornos dessas imagens tenham mudado desde então, elas ajudam a explicar por que muitos americanos vêem a ciência moderna como uma presença cultural estranha, apesar de suas associações igualmente fortes com o progresso tecnológico e o crescimento econômico.

Os desafios à autoridade científica que circularam nos Estados Unidos desde os anos 1920 não estão todos errados. A ciência é um empreendimento confuso e totalmente humano, que não aborda e não pode abordar muitas das questões sociais e morais que enfrentamos. Mas muitos críticos vincularam esse ceticismo apropriado a afirmações extravagantes sobre as ambições dos cientistas para o futuro e a influência no presente.

Apesar de todos os seus insights, a ‘esquerda acadêmica’ de hoje também herda muitos desses maus hábitos interpretativos. Na década de 1980, os pós-estruturalistas argumentaram que a mudança social exigiria o desmantelamento não apenas da visão de mundo predominante, mas também do sentimento subjacente de que uma visão de mundo funcionaria para todos. Não houve respostas finais, apenas pessoas em conflito, travando suas lutas em domínios que iam desde os mais altos níveis de abstração filosófica até as formas mais básicas e mundanas de atividade diária.

Os ataques pós-estruturais aos valores universais propostos pela geração do pós-guerra ampliaram-se para uma crítica à ideia de universalidade. As reivindicações de universalidade eram consideradas meramente como representações de exercícios de poder. A campanha contra o universalismo identificou a ciência como uma espécie de metáfora, uma arma excepcionalmente potente para desarmar aqueles que resistiriam a outras operações de poder. Isso influenciou muito a maneira como os estudiosos pensavam sobre a ciência e seus significados sociais no final do século XX. As concepções foucaultianas de “poder / conhecimento”, a rejeição do essencialismo e universalismo e as afirmações do pós-estruturalismo sobre a centralidade do conflito convergiram em um desafio total à compreensão convencional da ciência.

Esses compromissos moldaram a ‘esquerda acadêmica’ à medida que sua influência cresceu nas décadas de 1980 e 1990. Novos estilos de crítica se juntaram aos antigos, e os pós-estruturalistas negaram que qualquer um pudesse alcançar o que o filósofo Thomas Nagel chamou de “visão de lugar nenhum” e a estudiosa feminista Donna Haraway chamou de “truque de deus”. Mesmo as formas de objetividade de baixo para cima adotadas por muitos marxistas e feministas na veia de Sandra Harding entraram em conflito com essa crítica. Haraway procurou fundamentar a capacidade de um insight genuíno em pontos de vista autoconscientemente parciais. Sem uma estrutura única e libertadora disponível, argumentou ela, uma série de “conhecimentos situados” ofereceu a única alternativa para a falsa objetividade da ciência dominante.

À medida que a presunção de universalidade – e, portanto, de uma estrutura moral comum – desapareceu, uma nova ênfase na diferença prevaleceu na ‘esquerda acadêmica’. “A cosmovisão pós-moderna acarreta a dissipação da objetividade”, escreveu Zygmunt Bauman, com “a lenta erosão do domínio outrora desfrutado pela ciência sobre todo o campo do conhecimento (legítimo)”, levando ao surgimento de múltiplos sistemas de verdade concorrentes.

Há muito a ser dito sobre esses relatos. Como tantos críticos antes deles, no entanto, os teóricos pós-estruturais muitas vezes vincularam os argumentos do senso comum sobre o caráter e os limites do conhecimento científico a retratos abrangentes e redutivos de sua influência hegemônica no mundo moderno. Eles afirmaram que a ciência como um todo reivindica a capacidade de responder a todas as perguntas e resolver todos os problemas. Eles também afirmaram que a ciência reina suprema nas sociedades modernas, determinando os contornos básicos de nosso pensamento. Finalmente, eles atribuíram uma série de problemas sociais específicos à influência cultural da ciência. Ao fazer isso, eles ecoaram gerações de críticos religiosos, humanistas e conservadores com visões sociais muito diferentes das suas.

A segunda dessas suposições – que a ciência dá o tom da cultura moderna – ancora o resto do argumento e merece um exame especial. Se a ciência não é culturalmente dominante, então ela não pode ter causado a ladainha de males atribuídos à ela. A ciência é realmente tão influente? Ou devemos culpá-la instintivamente? O que, exatamente, é científico sobre o nosso mundo?

Nos Estados Unidos, a ciência desempenha funções públicas importantes. Biólogos e físicos exercem formas de autoridade em tribunais que líderes religiosos e críticos literários não possuem. O Federal Reserve baseia-se em especialistas econômicos, não na Bíblia ou em Melville. A Agência de Proteção Ambiental segue sugestões das ciências naturais, o Departamento de Educação das ciências sociais. As escolas públicas de ensino médio podem ensinar darwinismo, mas não criacionismo ou design inteligente. Olhando para esses casos, podemos concluir que a ciência desfruta de uma posição privilegiada única na cultura pública americana.

No entanto, outros especialistas também compartilham desses privilégios. Contamos constantemente com o conhecimento de historiadores, jornalistas, juristas e testemunhas oculares, entre outros, embora não consideremos seu trabalho científico. A posição elevada da ciência acaba sendo em parte uma questão de exclusão seletiva: de acordo com a Primeira Emenda, as instituições públicas nos Estados Unidos se abstêm – com ou sem razão, de forma consistente ou inconsistente – de tratar os princípios teológicos como verdades estabelecidas. Enquanto isso, mesmo os mais fervorosos defensores da literatura e das artes raramente afirmam que oferecem formas de conhecimento que devem ser usadas em tribunais ou em decisões políticas.

Ironicamente, o distanciamento das instituições públicas das religiosas tornou muito mais fácil para os críticos religiosos e humanistas se posicionar contra a ciência, embora esse posicionamento às vezes tenha prejudicado a capacidade de encontrar uma audiência. À medida que as comunidades religiosas se tornavam mais tolerantes umas com as outras, o inimigo comum – antigamente paganismo, agora materialismo, naturalismo ou secularismo – apresentava um alvo óbvio. Certamente, continua o pensamento, as instituições seculares resultam de filosofias seculares, e certamente a ciência produz essas filosofias. À medida que os cientistas aumentavam suas afirmações de neutralidade de valor, mais e mais críticos traçavam uma conexão causal. A ciência, eles argumentaram, trouxe à tona um mundo dominado por valores superficiais e materialistas, por uma mentalidade puramente instrumental que obscurece a própria existência de valores, ou talvez pelos valores de um grupo social hegemônico, pintado com o pincel da neutralidade.

É realmente verdade, entretanto, que as instituições e práticas seculares refletem o domínio cultural da ciência? Alguns países testemunharam a imposição ativa de visões de mundo “científicas” por regimes militantes seculares. No entanto, mesmo em tais casos, o conjunto institucionalizado de práticas de conhecimento que constituem a ciência não se alinhava necessariamente com as filosofias que marchavam sob sua bandeira. Nos Estados Unidos, as relações entre ciência, filosofia e secularização têm sido especialmente complexas e indiretas. É uma simplificação grosseira afirmar, como disse o estudioso de estudos religiosos Huston Smith, que a ciência “criou nosso mundo”. Ou ainda, como manifestou Alasdair MacIntyre, que a vida social contemporânea é em grande parte “a reencenação concreta e dramática da filosofia do século 18. ”

Muitas características do mundo moderno são seculares, mas não científicas. Direito, burocracia, capitalismo, consumismo, jornalismo, educação, esportes: essas esferas, como muitas outras, refletem em parte o declínio do controle das instituições religiosas. Mas eles não compartilham um único fundamento filosófico comum com a ciência. Como todas as formações sociais, cada uma toma muito de sua forma a partir de traços humanos antigos e de conflitos entre grupos específicos. E cada um, por sua vez, gera um conjunto distinto de suposições, valores e comportamentos culturais.

Isso não quer dizer que as pressuposições fundamentais sejam irrelevantes. A maioria das práticas e instituições no Ocidente moderno parecem inúteis ou mesmo prejudiciais para aqueles que presumem que uma divindade determina nossa sorte mundana, que nossas ações terrenas importam principalmente em relação ao nosso destino de outro mundo, ou ambos. Os padrões típicos de esforço nas sociedades modernas se encaixam muito melhor com a visão de que o bem-estar terreno de uma pessoa reflete em grande parte as ações terrenas de uma pessoa, e que essas ações importam principalmente por esse motivo.

Embora a difusão dessa ênfase no aqui e agora tenha tido grandes consequências, ela não é secular nem científica em si. Claro, isso é típico entre não teístas, embora alguns considerem a ação humana essencialmente sem sentido. Mas também se adapta a uma ampla gama de entendimentos religiosos, mesmo quando entra em conflito com outros. Na verdade, um dos pontos de discórdia em muitos debates em torno da ciência e da modernidade é a legitimidade dessas formas comparativamente mundanas de religião.

Existem questões importantes em jogo aqui, com consequências reais. Existe um Deus que intervém em nossos assuntos? Nosso sistema educacional deve enfatizar a biologia, a literatura ou a Bíblia? As respostas são muito importantes. Mas a forma como estruturamos nossos argumentos também é importante. É injusto e socialmente prejudicial empurrar todos os resultados da fragilidade humana para os livros de nossos oponentes. Essa abordagem gera ressentimento e desconfiança, incluindo ceticismo em relação aos nossos próprios programas culturais quando fica claro que exageramos os efeitos do mundo real das perspectivas concorrentes – e que a nossa perspectiva também não é a cura para as fraquezas humanas.

Enquanto isso, procurar enxergar os problemas sociais até as divergências filosóficas nos deixa incapazes de abordar esses problemas por conta própria, tanto por representar erroneamente suas causas principais quanto por nos convencer de que devemos confrontar nossos conflitos intelectuais antes de podermos tomar medidas significativas. Sem exagerar o grau de terreno compartilhado, devemos trabalhar para construir coalizões onde for possível, mesmo se acreditarmos que nossas próprias opiniões irão brilhar no final. Muitas das ideias que moldam profundamente o comportamento social – ideias sobre igualdade racial, por exemplo, ou a necessidade de regulamentação econômica – ultrapassam as perspectivas religiosas e seculares. Nossos padrões concorrentes de apologética não devem impedir a ação coletiva nessas áreas.

Os apologetas da ciência, como seus críticos, muitas vezes foram a extremos absurdos para desacreditar as visões de mundo que consideravam prejudiciais. Mas aqui é importante distinguir entre a ciência como um conjunto de práticas e instituições e as filosofias que vieram com seu nome. Os críticos da ciência costumam dar o passo salutar de diferenciar a ciência das filosofias do materialismo, naturalismo, positivismo e assim por diante. Mas fazem isso de uma maneira que coloca práticas científicas altamente valorizadas em seu próprio lado da linha filosófica e culpa os males do mundo em perspectivas orientadas para a ciência. Seria sensato adotar uma abordagem mais justa.

Tal abordagem insistiria em níveis diferenciados de análise. Há três histórias distintas a serem contadas: uma sobre os papéis sociais das práticas e descobertas científicas, uma segunda sobre as trajetórias e emaranhados de filosofias inspiradas na ciência e uma terceira sobre o desenvolvimento de padrões e instituições seculares. Insistir nessa diferenciação não é afirmar que a ciência é intrinsecamente pura, operando em glorioso isolamento do mundo humano. No entanto, distinguir entre ciência, filosofia e o secular, em vez de confundi-los, nos permitiria entender seus emaranhados históricos mais claramente – e lidar com mais eficácia com as implicações da pesquisa empírica em nossos dias.

Com o tempo, uma avaliação mais generosa e matizada da ciência pode nos ajudar a libertar os pesquisadores das afirmações extravagantes de desinteresse que envolvem seu trabalho. Não são apenas suas reivindicações, mas também os argumentos e ações de muitos outros grupos que aprisionaram os cientistas na jaula da absoluta neutralidade de valor. Os críticos frequentemente declaram que a ciência evita considerações de valor, a fim de culpá-la por isso. Alguns até afirmam que a ciência genuína fornece conhecimento absolutamente certo – não modelos, nem probabilidades, nem cálculos de risco – e deve fazê-lo antes de agirmos sobre ela. A maioria de nós é cúmplice de uma versão disso: quando confrontados com pesquisas de que não gostamos, exigimos que os pesquisadores em questão demonstrem seu completo desinteresse antes de levá-los a sério.

Esse ciclo deve ser quebrado se quisermos reconhecer a ciência pelo que ela realmente é: uma prática inteiramente humana como qualquer outra, mas que produz resultados notáveis. Em vez de argumentar que a validade da ciência depende da neutralidade pessoal de pesquisadores individuais, poderíamos aprender a valorizar as descobertas científicas por sua confiabilidade. Na verdade, poderíamos melhorar os procedimentos científicos adicionando novos recursos, como a participação do cidadão, para ajudar a garantir a confiabilidade dos resultados. Isso pode ser impossível se os críticos continuarem a ver a ciência como uma presença cultural monstruosa e culpá-la pelas falhas da humanidade, em vez de simplesmente avaliar seus pontos fortes e fracos. É hora de superar a polêmica, reconhecer que a ciência é uma característica central de nosso mundo e decidir o que faremos com ela.
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Veja o que dizem pesquisadores da NASA sobre a possível capacidade da ciência de entender tudo.

 

O Financiamento da FAPESP e o combate à pandemia da COVID-19

A importância da ciência para o combate à COVID-19 é fruto de uma das maiores realizações da humanidade: a construção do conhecimento. Essa construção foi possível pelo trabalho conjunto de cientistas e pelo apoio da sociedade, principal beneficiária dos avanços científicos.

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) foi estabelecida com as mesmas premissas, de fomentar o desenvolvimento científico, em prol da sociedade paulista. Prevista na Constituição de 1947 do Estado, foi criada em 1960 e estabelecida em 1962. Desde seu início, a FAPESP objetiva apoiar a pesquisa científica e tecnológica através de auxílios à pesquisa e bolsas de estudo.

O bom gerenciamento de recursos pela FAPESP permite financiar projetos com pesquisadores brasileiros de diferentes áreas atuando na fronteira do conhecimento. A constituição do Estado de São Paulo de 1989 determinou 1 % da receita tributária como orçamento anual da FAPESP. Deste montante, a Fundação destina somente 5% do orçamento para despesas de administração. Em 2019, 35,5% dos dispêndios da Fundação foram destinados a projetos que originam novas ideias e contribuem para o progresso científico. Pesquisas com potencial para inovação de produtos e processos e aumento da competividade econômica foram 57,7% dos dispêndios. Vários projetos financiados pela FAPESP resultam em impacto social, pois contribuem para o bem-estar e a qualidade de vida da população, para diminuir as desigualdades e colaborar no estabelecimento de políticas públicas.

Em 1997, o projeto Genoma FAPESP levou só dois anos para concluir o sequenciamento genético da bactéria Xyllela fastidiosa, responsável pela doença “amarelinho” que ataca a citricultura brasileira. Cientistas brasileiros assimilaram a expertise para sequenciamento genético, com protagonismo no diagnóstico de doenças raras. O genoma do vírus SARS-CoV-2, causador da COVID-19, foi sequenciado em tempo recorde por pesquisadores apoiados pela FAPESP. Pesquisadores do estado de São Paulo, financiados pela FAPESP, participam de estudos de fase clínica 3 de vacinas para a COVID-19, em parceria com instituições do exterior. Outros projetos objetivam prevenção, diagnóstico e tratamento da COVID-19. Respiradores e Tomógrafos de impedância elétrica resultam de financiamentos do programa FAPESP de apoio à Pesquisa Inovadora em Pequenas Empresas (PIPE), já sendo utilizados em diversos países para a recuperação e monitoramento pulmonar contínuo em pacientes graves por método não-invasivo.

O Programa BIOEN, para pesquisa de biocombustíveis, realizou o mapeamento de 99% do genoma da cana-de-açúcar em 2019 participando de consorcio internacional, com financiamento da FAPESP. Os resultados viabilizam processos biotecnológicos de melhoramento genético para incrementar a produção de açúcar, etanol e de insumos químicos de fonte renovável. O programa BIOTA, de pesquisas relacionadas à biodiversidade, levou ao estabelecimento de diversas políticas públicas que subsidiaram a legislação atual do estado para conservação da biodiversidade. Programas em áreas estratégicas mais recentes são o de eScience e DataScience e o de Mudanças Climáticas.

Programas de pesquisa com empresas, como os de Pesquisa Inovadora em Pequenas Empresas (PIPE), Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE) e os Centros de Pesquisa em Engenharia/Centros de Pesquisa Aplicada (CPE/CPA), são de interesse para o setor industrial. Vários desses projetos são realizados com empresas do setor automotivo, farmacêutico, petrolífero, de cosméticos, agronômico, sucro-alcooleiro, de informática e de inteligência artificial.

Grande parte dos pesquisadores diretamente envolvidos nos projetos financiados pela FAPESP são estudantes de graduação, pós-graduação e pesquisadores de pós-doutorado. A FAPESP financia bolsas de estudo para a formação desses pesquisadores, que serão profissionais altamente capacitados para o setor produtivo e acadêmico. Em 2019, a FAPESP investiu 30% de seu orçamento em bolsas de estudo, atribuídas em processo de rigorosa seleção. Tanto para bolsas de estudo como para auxílios à pesquisa o compromisso financeiro é integral. Uma vez aprovado o projeto, a FAPESP cumpre seu financiamento, baseado em relatórios anuais de desempenho. Projetos de sucesso têm compromissos de 1 a 11 anos, o que garante a realização de pesquisa ousada, bem estruturada e conduzida, que traz resultados relevantes para a ciência, para a economia e para a sociedade.

Próxima a completar seus 60 anos, a FAPESP demonstra ser possível o financiamento de pesquisas que trazem inúmeros benefícios, não somente para São Paulo, mas para todo o Brasil e outros países. Um eventual corte de 30% do orçamento da FAPESP para 2021, previsto no PL-627, anexo IX, página 395, comprometeria quase que irreversivelmente o apoio futuro da FAPESP a projetos científicos, tecnológicos, em parceria com empresas, muitos dos quais voltados para a saúde pública, já em andamento. A sociedade que contribui de maneira decisiva para o funcionamento da FAPESP é diretamente beneficiária dos resultados dos projetos financiados. E a sociedade espera que problemas difíceis de serem solucionados, como o da COVID-19, possam ser cada vez melhor enfrentados e solucionados, com o preparo e o conhecimento dos pesquisadores de São Paulo. A não-aprovação da emenda do PL-627, que leva ao confisco de 30% da receita da FAPESP para 2021, constitui comprometimento da Assembleia Legislativa em manter os recursos da FAPESP, agência de fomento imprescindível para o desenvolvimento do estado de São Paulo e do Brasil.

O USP Talk dos Profs. Glaucius Oliva e Carlos Henrique de Brito Cruz

Em 1 de setembro de 2020, o USP Talks promoveu debate com os Professores Glaucius Oliva e Carlos Henrique de Brito Cruz. Mediado pelo jornalista Herton Escobar, o debate intitulado O futuro da ciência no Brasil – desafio e oportunidades, tem até agora mais de 3.500 visualizações no YouTube. Herton Escobar mencionou a grande participação da comunidade acadêmica durante o debate, o que mostra o interesse e a preocupação sobre o assunto.

O debate – de excelente qualidade – trouxe vários elementos à discussão, como a priorização da pesquisa, a importância do financiamento e da organização das atividades de pesquisa no Brasil e o engajamento dos pesquisadores na defesa da ciência.

Penso que o debate entre os Professores Glaucius e Brito Cruz é, não apenas, importante em si. O tema e questões levantadas também deveriam ser discutidos pela comunidade acadêmica, pois traz muitos pontos importantes. Por exemplo, sobre o financiamento da ciência, que no Brasil atual passa por um momento extremamente crítico. Infelizmente, vários pesquisadores argumentam que as universidades e a pesquisa deveriam ser principalmente financiadas por doações e pela iniciativa privada. Mesmo sabendo que em todos os países com um sistema de ciência minimamente bem estruturado, a maior parte do financiamento da pesquisa científica é feita pelo Estado.

De minha parte, aqui faço minha contribuição em 3 pontos.

Primeiro, a motivação do desenvolvimento da ciência no século 20, principalmente após a 2ª guerra mundial. De fato, a guerra teve sua importância como elemento impulsionador, principalmente pelas inúmeras inovações durante a guerra e delas decorrentes. Mas deve-se atentar que a parte mais importante do desenvolvimento científico do século 20 teve seu estímulo mais importante no século 19, decorrente da teoria da evolução de Darwin (1809-1882), dos avanços da química e física e das descobertas da medicina em conjunto com as descobertas microbiológicas de Pasteur (1822-1895).

A teoria da evolução abriu um universo de questionamentos sobre os processos de hereditariedade e adaptação, que levaram Mendel a propor suas ideias, ainda que reconhecidas tardiamente. O maior entendimento do processo de hereditariedade decorrente da teoria de Darwin levou a uma das maiores descobertas do século 20, que foi da estrutura do DNA. E todas as implicações desta descoberta.

No que se refere à física e à química, os avanços das indústrias de metalurgia e química no século 19, com uma demanda de produtos cada vez maior, fez com que os pesquisadores buscassem entender cada vez melhor a estrutura da matéria, de conhecimento ainda muito escasso no século 19. A conceituação da estrutura do átomo de Dalton (1766-1844) e Thomson (1856-1940) estava longe de ser satisfatória, e não explicava o comportamento das conexões entre os átomos, as ligações químicas. Havia uma grande necessidade de melhor se compreender a estrutura da matéria para que os processos de manufatura química pudessem ser mais bem controlados, incluindo a manipulação de vários materiais, síntese orgânica e os processos bioquímicos (vários relacionados às doenças). A proposta do átomo de Rutherford (1871-1937) e a descoberta da emissão radioativa por Marie Curie (1867-1934) representaram um novo ponto de partida, sobre o qual a teoria quântica se fundamentou. Max Planck (1858-1947), Albert Einstein (1879-1955), Lise Meitner (1878-1968), Niels Bohr (1885-1962), Erwin Shrondinger (1887-1961), Max Born (1882-1970), Louis de Broglie (1892-1987), Wolfgang Pauli (1900-1958), Werner Heisenberg (1901-1976), Paul Dirac (1902-1984) e John von Neumann (1903-1957) são os principais nomes daqueles que elaboraram um novo modelo para o entendimento das menores partículas da matéria. A teoria quântica praticamente se consolidou com bastante antecedência à 2ª Guerra, permitindo a Linus Pauling (1901-1994) propor o modelo atual de ligações químicas em 1931, em seu livro “The Nature of the Chemical Bond”. A grande maioria das maiores descobertas científicas posteriores foi essencialmente fundamentada levando-se em conta a estrutura dos átomos e das moléculas, exceção feita à economia, à qual também é concedido prêmio Nobel.

Fotografia de participantes da 1a Conferência Solvay, considerada o primeiro encontro científico formal da história. De pé, da esquerda para a direita: Robert Goldschmidt, Max Planck, Heinrich Rubens, Arnold Sommerfeld, Frederick Lindemann, Maurice de Broglie, Martin Knudsen, Friedrich Hasenöhrl,  Georges Hostelet, Edouard Herzen, James Hopwood Jeans, Ernest Rutherford, Heike Kamerlingh Onnes, Albert Einstein, Paul Langevin. Sentados, da esquerda para a direita: Walther Nernst, Marcel Brillouin, Ernest Solvay, Hendrik Lorentz, Emil Warburg, Jean Baptiste Perrin, Wilhelm Wien, Marie Curie, Henri Poincaré.

Segundo, ao contrário do senso comum vigente no meio acadêmico, o progresso da ciência só foi possível em decorrência de mudanças sociais significativas. Se tomarmos como ponto de partida a época do Renascimento, o surgimento de mecenas em vários países como a Itália, França, Alemanha, Holanda e Portugal possibilitou a inventores trazerem suas ideias para a sociedade, a começar pelas naus que permitiram viajar pelo mundo e descobrir outros países. Acrescente-se instrumentos para medição do tempo e distância, lentes, máquinas de guerra (algumas já conhecidas na China), os primeiros tratados de anatomia e fisiologia e os primeiros experimentos de física. Sem o financiamento de mecenas, tais invenções não teriam sido possíveis, inclusive as de Leonardo da Vinci, que, ironicamente, nunca saíram do papel. Tal situação perdurou desde o século 16 até praticamente o século 19, e durante este período de mais de 300 anos o avanço da ciência foi lento, muito lento.

Ganhou um pouco mais de impulso com os iluministas no fim do século 18 e com o surgimento dos primeiros governos democráticos, primeiramente nos EUA e depois na Europa.

A grande maioria dos inventores e pesquisadores entre os séculos 16 e 19 eram pessoas de famílias abastadas, que podiam se permitir dedicar-se à pesquisa e às suas invenções. Para citar apenas alguns dos mais famosos dos séculos 17 e 18, o químico Robert Boyle (1627-1691), o biólogo Marcello Malpighi (1628-1694), o biólogo John Ray (1628-1705), o matemático e astrônomo Christiaan Huygens (1629-1695), o físico Issac Newton (1642-1727) e o matemático Gottfried Leibniz (1646-1716) eram de famílias ricas. A maioria dos membros das sociedades científicas não era de cientistas, e sim de aristocratas que buscavam prestígio social. Assim foi o caso quando da criação da Royal Society of London (1662), fundada não por um cientista, mas pelo monarca Carlos II. A Académie des Sciences (1666) era frequentada por Luis XIV e membros da monarquia com assiduidade, nenhum dos quais era cientista. Os filósofos naturais mais conhecidos do século 18 não chegavam a 25, incluindo Benjamin Franklin (1706-1790), Carolus Linnaeus (1707-1778), Erasmus Darwin (1731-1802), avô de Charles Darwin, Cavendish (1731-1810), Priestley (1733-1804), Coulomb (1736-1806) e Lavoisier (1743-1794).

Até cerca de meados do século 20 muita pouca gente tinha acesso à educação formal. O amadurecimento dos sistemas de governo e de contrato social foram aos poucos se aprimorando e oferecendo melhores oportunidades de ensino e educação para parcelas da população menos rica. Este também foi um processo muito lento, mas que, uma vez estabelecido por demanda da sociedade, permitiu a expansão do conhecimento em suas várias esferas. Sendo assim, na verdade, um dos principais fatores que permitiu o avanço do conhecimento e da ciência foi o estabelecimento de sistemas políticos e sociais cada vez melhores, que permitiram melhores condições de vida e educação, ampliando o acesso da sociedade aos sistemas de educação e formação profissional. E não o contrário.

Finalmente, a grande questão do momento, sobre estabelecer prioridades para o financiamento da pesquisa, é uma questão complexa, bem complexa. Existe um grande volume de literatura sobre esse assunto, que mereceria ser mais bem conhecida de maneira a melhor fundamentar esse debate tão necessário.

O debate promovido pelo USP Talks entre os Professores Glaucius Oliva e Brito Cruz deveria ser apenas o ponto de partida para uma reflexão mais ampla e profunda por parte dos acadêmicos e suas instituições, além da sociedade como um todo, sobre um assunto essencial: afinal, qual é o valor que a ciência tem no mundo de hoje?

Beethoven 250 – Part 1

(source: https://www.classicfm.com/composers/beethoven/guides/beethoven-20-facts-about-great-composer/young-beethoven-deaf/)

This year the world was going to celebrate Beethoven’s 250 birth anniversary. Poor Beethoven. His birth anniversary was almost completely forgotten because of the terrible COVID-19 pandemia, what is understandable, though.

As a classic music amateur, specially of Beethoven’s music, I would like to share a series of posts on Beethoven’s life and work. Ludwig van Beethoven is considered one of the most important classical music composers, ever. For example, the BBC music magazine website classical-music.com considers Beethoven as the 3rd most important composer, after Johann Sebastian Bach and Igor Stravinsky.

The information that will be shared in the posts about Beethoven was collected from different books, cited at the end. The posts will be divided by different periods of Beethoven’s life.

One really interesting book is John Stanley’s “Classical Music”, that discusses the birth of music, music styles, musical instruments, cultural influences on music and presents a historical contextualization for each music period. It is very well written for those who don’t know much about classical music and want to learn more about it.

Ludwig van Beethoven was born on December 16, 1770 in Bonn Germany. His grandfather, Lodewijk van Beethoven, settled in Bonn as a musician. Ludwig’s father, Jan van Beethoven, married Maria Magdalena Keverich. Of the couple’s seven children, only three will survive to the adult age: ​​Ludwig, Karl and Johann.

Like his grandfather and father, Ludwig was doomed from an early age to become a musician. However his early musical education was unfocused, hard and slow because of his father’s character, and because Ludwig’s formal education was very poor. From the age of eleven he dropped from all schooling. Two fortunate meetings will help him find his way. The first with Christian Gottlob Neefe, who became his teacher in 1782 and gave him the book of J. S. Bach’s Well-Tempered Clavier. In 1782, Ludwig at eleven years old published his first work, the nine variations for keyboard on a Dressler step.

The second meeting was with Franz Gerhard Wegeler, a medical student who became Ludwig’s close friend. Wegeler introduced Beethoven to the family von Breuning, in a very cultivated and liberal environment. Beethoven then learned about the German writers of the Auflckirung and the Sturm and Drang, in particular Klopstock, Goethe and Schiller. He shared pre-revolutionary aspirations which were embraced by the most progressive intelectuals of the German bourgeoisie.

Beethoven was awarded with the title of second organist of the court when he was thirteen years old. He became assistant organist, repetitor (clavicembalist) at the theater and orchestral musician. Since he was the first-born among his brothers, he became rather serious, very introspective, focused and concentrated, with mood swings and with a tendency to melancholy.

In 1874 the new prince-archbishop Archduke Maximilian Franz arrived in Bonn. The archduke soon perceived young Beethoven’s gifts, took him under his protection and sent him to Vienna for a study trip in 1787, expecting him to become a Mozart’s pupil. However, the meeting of Beethoven and Mozart was not very pleasant. Mozart did not gave him much attention, even though he recognized Beethoven’s talent. Beethoven was back to Bonn after less than two weeks in Vienna because of his mother’s death, when he developed a disposition to melancholy.

Beethoven continued to his efforts on his education and became enrolled in literature courses at the University of Bonn in 1789. He approached Schubert, Schumann, Haydn and Mozart, with literary interests that included German-speaking writers, such as Goethe and Schiller, as well as Plutarque, Shakespeare and mystics of India.

Beethoven adopted the name of Tondichter (poet of sounds), aiming to establish a connection between the poets of speech and his romantic conception, reflecting in a music expressing verbal poetry of feelings. Beethoven’s efforts were to create a music which as not an end in itself, but with a meaning to reveal the human intense expressions. Such intense feelings also resulted of his engagement in music as a revolutionary expression. One of his professors, Euloge Schneider, was a supporter of the French Revolution. Beethoven became committed to the revolutionary soul that shaked the old world. He remained with such ideals for the rest of his life.

Beethoven was still a beginner composer when at twenty years old, with a strong character and personality that lead him to develop a unique originality. He composed a funeral cantata on the death of Joseph II in 1790. In 1792 Joseph Haydn became aware of one of Beethoven’s cantatas and encouraged him to strength his studies. In November 1792 Beethoven left Bonn to Vienna, where he will remain until his death.

To be continued…

Bibliography

Menuhin, Y. and David, C. W., “A música do homem”, Martins Fontes, 1990. This is a portuguese translation of “The Music of Man”, by the same authors, published by Methuen Publications, Agincourt, Canada, in 1979. The Brazilian Portuguese technical revision of this book was by Isaac Karabtschevsky, who was artistic director of the Brazilian Symphony Orchestra between 1969 and 1994.

Robertson, A. (editor), “Chamber Music”, Penguin Books, 1957.

Rushton, J., “Classical Music”, Thames and Hudson, 1986.

Mellers, W., “Man and His Music, Vol. III – The Sonata Principle”, Barrie & Jenkins, 1988.

Belgodere-Johannès, V. “Histoire de la Musique”, Librairie Renouard, Henri Laurens, ed., 1947.

Stanley, J., “Classical Music”, Reader’s Digest, The Reader’s Digest Association, Inc, 1994.

Various newspapers articles collected during over 30 years, unfortunatelly unclassified.

The Lessons of the Pandemic

A colleague and friend of mine, Professor Mariana Cabral de Oliveira (Biology Institute, Universidade de São Paulo), shared with me the article by Major George A. Soper, “The Lessons of the Pandemic”, published in Science magazine 100 years ago.

It is quite impressive to read the paper by Major Soper, in special the conclusions.

Some highlights of the paper.

The pandemic which has just swept round the earth has been without precedent. There have been more deadly epidemics, but they have been more circumscribed; there have been epidemics almost as widespread, but they have been less deadly. Floods, famines, earthquakes and volcanic eruptions have all written their stories in terms of human destruction almost too terrible for comprehension, yet never before has there been a catastrophe at once so sudden, so devastating and so universal.

The most astonishing thing about the pandemic was the complete mystery which surrounded it. Nobody seemed to know what the disease was, where it came from or how to stop it. Anxious minds are inquiring to-day whether another wave of it will come again.

The fact is that although influenza is one of the oldest known of the epidemic diseases, it is the least understood. Science, which by patient and painstaking labor has done so much to drive other plagues to the point of extinction has thus far stood powerless before it. There is doubt about the causative agent and the predisposing and aggravating factors. There has been a good deal of theorizing about these matters, and some good research, but no common agreement has been reached with respect to them.

The measures which were introduced for the control of the pandemic were based upon the slenderest of theories. It was assumed that the influenza could be stopped by the employment of methods which it was assumed would stop the other respiratory diseases. This double assumption proved to be a weak reed to lean upon. The respiratory diseases as a class are not under control. They constitute the most frequent cause of death, yet it is not known how they can be prevented.

Three main factors stand in the way of prevention: First, public indifference. […]

The second factor which stands in the way of prevention is the personal character of the measures which must be employed. […]

Third, the highly infectious nature of the respiratory infections adds to the difficulty of their control. […]

The conclusions by Soper:

It is worth while to give more attention to the avoidance of unnecessary personal risks and to the promotion of better personal health. Books have been written on the subject. The writer’s idea of the most essential things to remember are embodied in the following twelve condensed rules which were prepared in September, recommended by the Surgeon-General of the Army and published by order of the Secretary of War to be given all possible publicity:

1. Avoid needless crowding-influenza is a crowd disease.

2. Smother your coughs and sneezes-others do not want the germs which you would throw away.

3. Your nose, not your mouth was made to breathe through-get the habit.

4. Remember the three C’s-a clean mouth, clean skin, and clean clothes.

5. Try to keep cool when you walk and warm when you ride and sleep.

6. Open the windows-always at home at night; at the office when practicable.

7. Food will win the war if you give it a chance-help by choosing and chewing your food well.

8. Your fate may be in your own handswash your hands before eating.

9. Don’t let the waste products of digestion accumulate-drink a glass or two of water on getting up.

10 Don’t use a napkin, towel, spoon, fork, glass or cup which has been used by another person and not washed.

11. Avoid tight clothes, tight shoes, tight gloves-seek to make nature your ally not your prisoner.

12. When the air is pure breathe all of it you can-breathe deeply.

The article by George A. Soper can be read here, if you have access to Science magazine.

Ref: Soper, G. A. Lessons of the Pandemic. Science,  30 May 1919, Vol. 49, Issue 1274, pp. 501-506. DOI: 10.1126/science.49.1274.501

A Tribute to Italia

Italia is, together with Greece, the cradle of western civilization, although such assumption cannot be considered as definitive. Western civilization has been strongly influenced by Eastern Mediterranean countries, and those by Asian nations.

Historians, however, consider Italia as one of the most influential countries on human culture. It is not necessary to make a long description of Italia’s cultural importance. Along with Greece, Italian philosophy has been very influential since ancient times, thanks to work of many thinkers such as Seneca, Epictetus, Thomas Aquinas, Machiavelli, Giordano Bruno, Galileo Galilei, Antonio Gramsci, just to mention the perhaps some of the most well-known. Italian writers produced some of the finest examples of literary works, including those of Dante Alighieri, Dino Buzzati, Italo Calvino, Umberto Eco, Dario Fo, Giacomo Leopardi, Primo Levi, Alberto Moravia, Luigi Pirandello, Giuseppe T. di Lampedusa and many others.

 

Leonardo da Vinci and his painting La Belle Ferronnière, c. 1495

Italian painters achieved perhaps the most significant works ever, considering the genius of Leonardo da Vinci, but also of Sandro Botticelli, Michelangelo, Raphael, Caravaggio and Modigliani.

The Italian science has always been very strong and at the frontier of knowledge. Some of the best known Italian scientists are Leonardo da Vinci, Galileo Galilei, Evangelista Torricelli (who invented the barometer), Marcello Malpighi (who was one of the first to develop microscopy and histology), Francesco Redi (who, before Louis Pasteur, proved that spontaneous generation was a wrong conception), Maria Gaetana Agnesi (the first highly-reputed female mathematician), Lazzaro Spallanzani (the father of artificial insemination), Luigi Galvani (the discoverer of “animal electricity”), Alessandro Volta (the inventor of battery), Stanislao Cannizzaro (a chemist who started to organize the elements in a rational way), Enrico Fermi (a highly influential physicist contemporary of Albert Einstein), Maria Montessori (an innovative educator, whose ideas are now adopted in more than 20.000 schools worldwide).

Maria Gaetana Agnesi (1718-1799)

The Italian cinema transformed many times the movie culture, because of its impressive diversity and creativity. Most recognized Italian film directors are Michelangelo Antonioni, Bernardo Bertolucci, Vittorio de Sica, Federico Fellini, Vittorio Gassman, Sergio Leone, Pier Paolo Pasolini, Roberto Rossellini, Luchino Visconti, Franco Zeffirelli, among many others. The Italian visual arts also has numerous awarded artists, too numerous to be mentioned.

The Italian history and culture is rich, very rich. Italia is a small country with an enormous soul, generous, funny, thoughtful, gorgeous, bold, ahead of time.

Try some Italian music. Puccini’s arias and Vivaldi’s The Four Seasons are two of the most played classical music compositions ever. But Italian classical music has a much more diverse collection of compositions, by more than 400 composers over time.

In this tribute to Italy, I selected 13 classical music pieces here. This very short selection includes 193 minutes of Italian music. Or a little more than 3 h. It is not much. I think that today Italy deserves much more than 3 h of our time.

Arcangelo Corelli Concerto Grosso Nr.8 op. 6 (13:34 minutes)

Corelli was born in 1653 in the small town of Fusignano. Corelli composed 48 trio sonatas, 12 violin and continuo sonatas, and 12 concerti grossi.

Tomaso Albinoni – Adagio for Organ and Strings (9:11 minutes)

Albinoni was born in Venice in 1671. His instrumental music (99 sonatas, 59 concerti and 9 sinfonie) is significant, among other works.

Antonio Vivaldi Concerto L´Amoroso RV 271 in E Major (10:43 minutes)

Vivaldi was an extremly prolific composer. Born in Venice in 1678, Vivaldi wrote more than 500 concertos for solo instrument and strings, 230 for violin, for bassoon, cello, oboe, flute, viola d’amore, recorder, lute, or mandolin. About forty concertos are for two instruments and strings, and about thirty are for three or more instruments and strings. He also composed 46 operas, sacred choral music, simphonies, 90 sonatas and chamber music.

Domenico Scarlatti – Sonata in B minor, K. 27 (4:17 minutes) – you will need to clic the link inside the Youtube picture to listen the sonata.

Scarlatti was born in Naples in 1685. Son of another outstanding composer, Alessandro Scarlatti, he is mainly known for his 555 keyboard sonatas.

Leonardo da Vinci: Canto di lanzi sonatori di rubechine (4:06 minutes)

Did you know that Leonardo da Vinci was also a music composer?

Giuseppe Tartini: Devil’s Trill Sonata (15:55 minutes)

Tartini was born in Piran (1692). Tartini’s works include violin concerti (at least 135), violin sonatas, sacred works, a Stabat Mater, trio sonatas and a symphony.

Giovanni Battisti Pergolesi׃ Stabat mater, for soprano & alto (43:54 minutes)

Giovanni Battista Pergolesi was born in Jesi (1710). We was one of the first composers of the opera bufa (comic opera). He wrote several operas and also sacred works, numerous instrumental works, including a violin sonata and a violin concerto.

Luigi Boccherini – Guitar quintet Nr. 9 C-Dur, G 453 “La ritirata di Madrid” (32:08 minutes)

Boccherini was born in Lucca (1743). He composed the largest collection of cello works, and also keyboard pieces, violin solo pieces and duets, string trios, piano trios, trio sonatas, string quartets, piano quartets, flute quartets, wind quartets, string quintets, piano quintets, flute quintets, guitar quintets, sextets, octets, cello concertos, symphonies, music for theatre and vocal works.

Niccolò Paganini – La Campanella (7:00 minutes)

Paganini is considered the most achieved violin composer ever. Many of his violin works are extremely difficult to play. He also composed for guitar and orchestra.

Gioachino Antonio Rossini, La gazza ladra (overture) (9:35 minutes)

Gioachino Antonio Rossini was born in Pesaro (1792). Rossini was another very prolific composer, who wrote several cantatas, pieces of instrumental music, sonatas, sacred music and secular vocal music. His operas are considered among the most appreciated by the public, such as Il Barbiere di Siviglia.

Mario Castelnuovo-Tedesco – Guitar Concerto Op.99 (21:41 minutes)

Mario Castelnuovo-Tedesco was born in Florence (1895). He was another hardworker: his list of compositions is almost endless.

Ottorino Respighi – Fontane di Roma (17:33 minutes)

Respighi was born in 1879 in Bologne. He composed music for operas, ballets, vocal and coral music, orchestral music and chamber music.

Luciano Berio – Ritirata notturna di Madrid de Boccherini (7:34 minutes)

Berio was born in Oneglia (1925). His music is considered as seminal in the 20th century. He composed music for piano, orchestra, several solo instruments, and also vocal music.

If you appreciated this small selection of Italian classical music, just share it. While listening to it, think of Italian people. Or about all of us.

Complexidade irredutível e o “argumento do design”

O texto a seguir foi originalmente publicado no blog “Química de Produtos Naturais” em 3 de junho de 2010.

O termo “complexidade irredutível” foi criado por Michael Behe (Behe, 1996) para designar estruturas ou sistemas biológicos formados por componentes essenciais para o funcionamento íntegro destas estruturas ou sistemas. A ausência de um único componente destes não permitiria que estes fossem operacionais. Como exemplos, Behe indica o flagelo bacteriano, os ciclos bioquímicos (o Ciclo de Krebs, o Ciclo de Calvin, etc.), o olho, o DNA e o cérebro. Segundos Behe, tais estruturas ou sistemas não poderiam ter surgido gradualmente, como indica a teoria da evolução, através de mudanças gradativas. Logo, seriam objeto de um “design”.

De acordo com a proposta do Movimento do Design Inteligente (MDI), um “designer inteligente” teria criado milhões de linhagens de bactérias com flagelos, de uma só vez. Todavia, estudos genéticos, fisiológicos e anatômicos indicam que os flagelos surgiram ao longo da evolução a partir de um ancestral comum. Para muitos tipos de bactérias a função primária dos flagelos é a excreção, e não propulsão. Para outras bactérias, o flagelo é utilizado para que a bactéria possa aderir a uma superfície, ou a outras bactérias (Aizawa, 2001). Flagelos foram tornando-se cada vez mais complexos ao longo da evolução. Por exemplo, em Archea (bactérias primitivas) 18 a 20 genes são necessários para o desenvolvimento de um flagelo de 2 partes, utilizado principalmente para excreção e adesão. Na bactéria Campylobacter jejuni são necessários 27 genes para a formação de um flagelo já envolvido em atividades motoras. Na bactéria Escherichia coli são necessário 44 genes para a formação de um flagelo que atua para o movimento coordenado da bactéria. Ou seja, o processo evolutivo é claro. Não há design inteligente (http://www.newscientist.com/article/dn13663-evolution-myths-the-bacterial-flagellum-is-irreducibly-complex.html ). Ver também Liu e Ochman (2007).

Apesar disso, Behe, em seu recente “The Edge of Evolution”, insiste que um “designer inteligente” interveio no processo evolutivo de maneira a produzir as formas de vida que se conhece, que não podem ser fruto do acaso ou de mutações aleatórias (Behe, The Edge of Evolution). Entretanto, Behe não faz juz ao conceito de forma correta, pois a diversidade de formas não é gerada por mutações aleatórias e sim pelo processo de seleção natural. Muito embora mutações genéticas sejam aleatórias, a seleção natural não o é. Resulta da interação dos indivíduos de uma espécie com outras espécies e com o ambiente natural.

William Dembski então argumenta que, na improbabilidade da ação do acaso, a ação do “design” seria a única forma do aparecimento da diversidade biológica. Dembski não consegue fazer a distinção entre puro acaso e processos contingentes da evolução. Ao ilustrar a Teoria da Evolução de maneira reducionista e mecânica, tanto Behe quanto Dembski alegam que a evolução orgânica dependeria de puro acaso, o que seria totalmente implausível. Com isso, só um “design inteligente” justificaria o aparecimento de estruturas e sistemas biológicos “irredutivelmente complexos”. De acordo com Dembski, “O que as leis físicas não conseguem explicar é como produzir contingência (…). Se esta não surge como resultado das leis naturais, então como surge a contingência? Somente duas respostas são possíveis: ou a contingência é cega e sem propósitos, e resulta do puro acaso, ou é um processo guiado, com um propósito, fruto de uma causa inteligente (Dembski, Intelligent Design, 165). O que Dembski faz questão de não mencionar é que a contingência opera ao longo de processos estabelecidos do ponto de vista histórico e estrutural.

A abordagem de Behe e Dembski é fundamentalmente reducionista e mecânica, e não leva em consideração o desenvolvimento dinâmico e as interações que ocorrem na natureza. Desta forma, estruturas e sistemas que superficialmente podem parecer “irredutivelmente complexos” são, na verdade, fruto de um processo extremamente complexo de interações. Os primeiros estágios do surgimento de tais estruturas e sistemas é o ponto chave para o entendimento de como se desenvolvem de formas menos complexas para mais complexas. Como o processo de seleção natural não tem um propósito ou destino, pois não existe um objetivo evolutivo, o processo da seleção natural apenas preserva as mutações aleatórias que promovem vantagens adaptativas.

O desenvolvimento do olho é um bom exemplo de como isso ocorreu. Olhos primitivos ainda existem, hoje, em vermes, que detectam apenas variações de intensidade de luz e se orientam de acordo com estas variações. Ora, se, por um acaso, uma mutação faz com que indivíduos que detectam apenas intensidade de luz passem a detectar movimento, ou uma gradação de cores, terão adquirido uma ligeira vantagem adaptativa sobre aqueles indivíduos que não têm esta capacidade. Assim, 1% de visão é melhor que a cegueira total, e 6% é melhor do que 5%, e 10% é melhor do que 6%. O desenvolvimento do olho, de maneira gradual, não somente é perfeitamente plausível como foi verificada pela análise filogenética molecular. Os genes que codificam para a formação e o funcionamento dos olhos de humanos, polvos, sapos, insetos e crustáceos são essencialmente os mesmos, tendo surgido há aproximadamente 600 milhões de anos (Carl Zimmer, Evolution, Harper Collins Publishers, New York, 2008, p. 128).

Uma explicação diferente para o surgimento de estruturas e sistemas aparentemente “irredutivelmente complexos” foi fornecida pelo falecido biólogo Stephen Jay Gould. De acordo com Gould, quando se originaram, tais estruturas e sistemas não teriam uma função definida. A função seria definida ao longo da história evolutiva à qual tais estruturas e sistemas fossem submetidos. Gould argumenta que os organismos vivos não são apenas resultado de influências do ambiente, mas também de sua integridade estrutural, que limita e direciona a variação através da qual opera a seleção natural (Gould, 2002). Desta forma, a evolução não seria isotrópica, igual em todas as direções. Embora mutações produzam variação genética de maneira aleatória, sem necessariamente promover vantagens adaptativas, tal processo não estabelece que as variações na forma (fenotípicas) não possam ter uma direção preferencial. O desenvolvimento estrutural de um organismo ao longo de sua vida limita a variação fenotípica que será possível apresentar, pois mudanças surgidas em um determinado estágio determinarão as mudanças possíveis em um estágio posterior. Assim, mudanças estruturais em determinadas características de um organismo irão influenciar na estrutura e funcionamento do organismo como um todo. Tais informações são transmitidas geneticamente de geração para geração, e não permitem modificações por demais significativas. Ou seja, o processo evolutivo resulta de um processo dialético entre “o interno” (que seriam restrições estruturais herdadas geneticamente) e “o externo” (pressões seletivas ambientais), de maneira análoga à ontogenia (desenvolvimento ao longo da vida) dos indivíduos, que resultam de interações dialéticas entre seus genes e o ambiente. Gould define um organismo vivo como sendo “uma entidade integrada exercendo restrições sobre sua história, ao mesmo tempo em que se situa em um ambiente específico” (Gould, 1980).

Gould confessa que esta idéia foi exposta por Darwin. Naturalistas do século XIX adotaram duas possíveis abordagens para explicar a evolução: funcionalista (Darwin, Lamarck e Cuvier) e formalista, ou estruturalista (Saint-Hilaire, Owen e Goethe). Os funcionalistas diziam que as características dos organismos existiam por razões de utilidade; já os formalistas enfatizavam a unidade estrutural comum entre organismos aparentados. Os formalistas negavam a possibilidade da evolução, pois acreditavam que somente modificações superficiais eram possíveis. Membros do MDI como Benjamin Wiker e Jonathan Witt tomaram emprestados os argumentos dos formalistas para justificar a ação de um “designer”.

No entanto, os argumentos dos formalistas foram postos por terra por Darwin e outros, que comprovaram que estruturas biológicas também estão sujeitas ao processo evolutivo, embora de forma limitada devido às suas características inerentes. Sendo assim, Darwin promoveu uma quebra do paradigma no debate funcionalista-formalista, adicionando uma nova dimensão: o fator histórico. Contudo, os membros do MDI não perceberam (ou não quiseram perceber) tal mudança neste debate, e se ativeram aos argumentos formalistas.

Um outro conceito introduzido por Gould (e Elisabeth S. Vrba) é o conceito de exaptação. Exaptação é a utilização de uma característica existente para um novo propósito funcional (Gould e Vrba, 1982). Tal característica pode tanto se originar através da seleção natural para propósitos adaptativos, na qual a derivação para um novo propósito representa uma variação funcional, ou tal característica pode ser um spandrel (termo definido como uma característica fenotípica que é um produto secundário da evolução de outra característica, em vez de ser um produto direto da seleção adaptativa) que não teria surgido através da adaptação, mas como um efeito estrutural co-lateral. Artigo recentemente divulgado pelo Boletim da Agência FAPESP traz um exemplo de exaptação: a dormência de sementes de determinadas árvores não teria surgido para superar uma deterioração fisiológica das mesmas, mas adquiriu esta função ao longo do tempo (Fabio de Castro, “Esperteza vegetal”, Boletim Agência FAPESP, 19/4/2010).

A mente humana seria um exemplo contundente de exaptação, e não de “complexidade irredutível”, pois claramente é produto de um longo processo evolutivo, no qual aqueles indivíduos que tiveram suas capacidades mentais aguçadas adquiriram vantagens adaptativas e deram origem ao Homo sapiens. A capacidade de ler, de escrever, de apresentar conceitos matemáticos extremamente complexos e criar obras de arte não teve papel na origem da mente. Estruturas complexas, como a mente, são inerentemente cheias de potencial e apresentam inúmeras propriedades emergentes. Tais estruturas frequentemente podem assumir funções outras do que aquelas para as quais a seleção natural as fez prevalecer. Quando compreendemos tais explicações, e podemos apreciar o significado dos “spandrels” e da exaptação, os argumentos do design inteligente se desintegram e a origem física da vida se torna aparente. Edward O. Wilson considera que até mesmo a cultura seja um produto de seleção natural (E. O. Wilson, Consciliência, p. 119-130).

Uma vez proposto o conceito de exaptação por Gould, este também pôde ser utilizado para explicar a evolução do flagelo bacteriano (Pallen e Mtazke, 2006). Como mencionado na postagem anterior sobre este assunto, flagelos de diferentes linhagens bacterianas exerceram funções diferentes. Assim, uma explicação meramente funcionalista e teleológica, que visa justificar o flagelo como um órgão responsável pelo movimento de bactérias, não se sustenta. Os elementos chave para a formação do flagelo resultam da exaptação de “formas flagelares” que surgiram (através da evolução) por outras razões.

Na natureza existem muitas estruturas que podem dar origem a sistemas ordenados e complexos através da seleção natural. O surgimento de tais estruturas são direcionadas por princípios físicos, químicos e matemáticos. D’Arcy Wentworth Thompson foi um dos biólogos pioneiros a argumentar sobre a ocorrência repetitiva de formas ordenadas, como espirais (em conchas e chifres de carneiros, por exemplo) e hexágonos (colméias de abelhas e estruturas de corais). Biólogos aceitam que a forma esférica das células, por exemplo, não seja resultante de uma informação genética e sim tenha origem em forças puramente físicas. Stuart Kauffman argumenta que o que se considera “ordem” na natureza surge naturalmente através da emergência de sistemas complexos (Kauffman, 1993). Kauffman sugere que a diversidade das células presentes nos organismos vivos não resulta somente de um processo histórico, mas seria resultante de princípios auto-organizacionais de sistemas dinâmicos. Tal ordenação seria produzida através de um processo completamente natural através da interação de várias forças e processos que originam uma estrutura emergente. A organização cria um potencial para a emergência de novas formas de organização, novas formas de vida, novas funções e comportamentos, impossíveis em formas menos organizadas. A ordem espontânea que emerge em sistemas complexos pode prover estruturas iniciais de formas orgânicas sobre as quais atua a seleção natural.

A tradição estruturalista (formalista) da Biologia explica a emergência de características altamente complexas, que podem parecer “irredutivelmente complexas” à primeira vista. A combinação do estruturalismo com a dialética é a chave para entender o processo evolutivo e o desenvolvimento das formas biológicas que conhecemos. As leis naturais e as contingências históricas explicam a complexidade na natureza, deixando completamente de lado a necessidade de um “designer”.

Bibliografia consultada

Andrew J. Petto and Laurie R. Godfrey, Scientists Confront Creationism – Intelligent Design and Beyond, W. W. Norton & Co., 2007.

E. O. Wilson, Consciliência, Editora Campus, 1998.

J. B. Foster, B. Clark, R. York, Critique of Intelligent Design, Monthly Review Press, New York, 2008.

Lynn Margulis and Dorion Sagan, What is Life?, University of California Press, Berkeley and Los Angeles, 2000.

M. Behe, Darwin’s Black Box, Free Press, New York, 1996.

Mark J. Pallen & Nicholas J. Matzke, From The Origin of Species to the origin of bacterial flagella, Nature Reviews Microbiology 2006, 4, 784-790).

Michael Shermer, Why Darwin Matters, Owl Books, , New York, 2006.

Niall Shanks, God, the Devil and Darwin, Oxford University Press, 2006.

R. Liu e H. Ochman, Stepwise formation of the bacterial flagellar system, Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, volume 104, páginas 7116-7121, 2007.

S. A. Kauffman, The Origins of Order: Self-organization and Selection in Evolution, Oxford University Press, New York, 1993).

S. I. Aizawa, Bacterial flagella and Type-III secretion systems, FEMS Microbiology Letters, volume 202, páginas 157-164, 2001)

S. J. Gould, E. S. Vrba, Exaptation – A Missing Therm in The Science of Form, Paleobiology, 1982, 8, 4-15)

S. J. Gould, Is a New and General Theory of Evolution Emerging?”, Paleobiology, 1980, 6, 119-130).

Stephen J. Gould, The structure of evolutionary theory, Belknap Press – Harvard University Press, Cambridge, Massachussets, 2002.