2020 foi um bom ano para a Ciência?

O ano se inicia com a COVID-19

Há um ano atrás surgiram as primeiras notícias do surgimento de um novo tipo de vírus, do tipo coronavírus, na China. As autoridades sanitárias e cientistas da China rapidamente o identificaram, e foi batizado de SARS-CoV-2, causador de doença respiratória denominada COVID-19. Talvez o mundo não imaginasse que em um ano esse vírus contaminaria quase 80 milhões de pessoas, causando mais de 1,4 milhões de mortes.

No Brasil estima-se que o vírus tenha chegado em 26 de janeiro, pouco antes do carnaval, trazido da Europa, provavelmente da Itália. Rapidamente se disseminou, muito provavelmente devido à lentidão para que medidas sanitárias eficazes fossem implementadas.
O mais impressionante da incompetência em se enfrentar rapidamente o problema é que há 100 anos atrás o mundo enfrentou a pandemia da gripe espanhola que dizimou 50 milhões de vidas. Publicado em 1919 na revista Science, artigo pelo Major George A. Soper relata as lições trazidas pela pandemia de gripe espanhola, e finaliza seu artigo listando medidas eficazes para conter a disseminação da mesma.

  1. Evite aglomerações desnecessárias – a gripe é uma doença das multidões.
  2. Sufoque a tosse e os espirros – os outros não querem os seus germes.
  3. Seu nariz, não sua boca, foi feito para respirar – adquira esse hábito.
  4. Lembre-se dos três C’s – uma boca limpa, pele limpa e roupas limpas.
  5. Tente manter a calma ao caminhar e aquecido ao andar de bicicleta e dormir.
  6. Abra as janelas – sempre em casa à noite; no escritório, quando praticável.
  7. A comida vencerá a guerra se você der uma chance – escolha e mastigue bem a comida.
  8. O seu destino pode estar nas suas próprias mãos, lave as mãos antes de comer.
  9. Não deixe os resíduos da digestão se acumularem – beba um ou dois copos de água ao se levantar.
    10 Não use guardanapo, toalha, colher, garfo, copo ou copo que tenha sido usado por outra pessoa e não tenha sido lavado.
  10. Evite roupas apertadas, sapatos apertados, luvas apertadas – procure fazer da natureza sua aliada, não sua prisioneira.
  11. Quando o ar é puro, respire todo ele, você pode respirar profundamente.

Os conselhos de Soper parecem inocentes, mas alguns foram repetidos ad nauseam durante este ano.
Mesmo tendo enfrentado a gripe espanhola, tendo passado pela revolta da vacina em 1904, tendo sido descobertas vacinas para tratar 26 doenças, a importância da vacinação ser inquestionável para se prevenir inúmeras doenças, os governos de alguns países decidiram voltar ao século 19.

De minha parte, posso dizer que tive MUITA SORTE em não ter sido contaminado. Estava em viagem pelos EUA, mais precisamente em San Francisco, quando a COVID-19 já estava circulando pela California. Visitei San Francisco entre 10 e 17 de fevereiro, Vancouver (Canadá) entre 17 e 23 de fevereiro, e participei da Gordon Research Conference on Marine Natural Products (GRC-MNP) entre 23 e 28 de fevereiro. Na GRC-MNP estavam pesquisadores do mundo todo: Itália, Japão, Coréia do Sul, Espanha, Alemanha, Brasil, Canadá e vários outros. Pelo que eu soube, ninguém se contaminou. Minha viagem de volta, em 28 de fevereiro, teve como ponto de partida o aeroporto de Los Angeles, com parada no aeroporto de Montreal, e chegada em São Paulo no dia 29 de fevereiro, quando o vírus já estava circulando no Brasil.

A COVID-19 e a ciência

Considerada pelo governo como uma “gripezinha”, desde o início o governo recomendou tratamento ineficaz com hidroxicloroquina. Diversos outros medicamentos foram sugeridos para tratar a COVID-19 sem que nenhum apresentasse real eficácia para a sua cura. De imediato as empresas farmacêuticas se lançaram à busca de uma vacina que pudesse ser utilizada contra a infecção viral. No atual momento, pelo menos 4 vacinas já estão sendo utilizadas em diferentes países. No Brasil, espera-se que a Coronavac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac Biotech e pelo Instituto Butantan, possa ser brevemente utilizada na vacinação da população. O desenvolvimento de vacinas contra a COVID-19 é um recorde histórico no desenvolvimento de medicamentos, que na sua maioria demoram de 10 a 15 anos desde a sua descoberta e chegam a custar quase US$ 2 bilhões até chegar no mercado.

A pandemia da COVID-19 definitivamente colocou o debate sobre a importância da ciência em nível muito acima do que até então. Ao longo deste ano as discussões sobre a importância da ciência proliferaram vertiginosamente, e continuam na ordem do dia, fazendo parte do discurso de autoridades políticas para sustentar suas ações de enfrentamento da pandemia.

Vários debatedores e analistas elaboraram argumentos diversos sobre as consequências da valorização da ciência, os quais muitas vezes se mostraram como “wishful thinking”. Talvez a elaboração de argumentos pressupostamente otimistas tenha ajudado a olhar para um futuro um pouco mais promissor. Mas infelizmente tal olhar não colabora no enfrentamento dos problemas.

No Brasil, em particular, é necessário se levar em conta possibilidades as mais realistas possíveis, considerando-se as inúmeras dificuldades atuais e futuras.

Independentemente das análises, mais ou menos otimistas (ou pessimistas), é necessário muito melhor se compreender a ciência para melhor se conhecer a sua importância.

A ciência e as artes são duas das maiores realizações da humanidade. O “espírito científico” faz parte da natureza humana assim como sua expressão artística. De acordo com Brito Cruz e Chaimovich,

A final note is in order here to address a question that comes up frequently in political circles in Brazil, namely, ‘Why should taxpayer money pay for R&D?’ As a tentative answer, we would say that there are at least two equally valid justifications for this. One is that contributing to the universal pool of knowledge makes Brazilians more capable of determining their own destiny. Like people everywhere, Brazilians ask themselves, ‘How did the Universe begin?’ ‘How does it work?’ ‘Why does society behave the way it does?’
‘What drives human beings towards good or evil?’ Understanding the classics of literature and appreciating nature and art are part of what makes us human. Studying these and an infinite number of other questions enriches us. This alone would be reason enough to use taxpayer money to find science-based answers – even incomplete ones – to fundamental questions and thereby improve our knowledge of the Universe and humankind.”

Mas, como definir a ciência? O que seria, exatamente, a ciência? Algumas definições mais clássicas afirmam que ‘a ciência é o domínio do homem sobre o ambiente’, ou que ‘ciência é a investigação do mundo material (físico)’, ‘ciência é o método experimental’, ‘ciência chega à verdade através de inferências lógicas a partir de observações empíricas’.

Ume definição bastante ousada, e ao mesmo tempo simples, é que ciência é conhecimento público, uma vez que a ciência existe somente pelo conhecimento publicado e disseminado. Já o conhecimento científico é aquele que sobrevive à sua análise e escrutínio críticos durante muitas décadas, tornando-se persuasivo e universalmente aceito. O conhecimento científico é, assim, estabelecido em consenso e, como tal, aceito.

Partindo-se de tais premissas, e voltando-se ao enfrentamento da COVID-19, cabe perguntar: o que faltou para enfrentarmos a pandemia de maneira muito mais eficaz? Faltou, justamente, um melhor entendimento sobre a ciência e sobre o consenso científico. Faltou este entendimento tácito por parte de políticos, gestores, e até mesmo por parte de médicos e cientistas. Sem este entendimento, é muito difícil se enfrentar de maneira eficaz um problema de natureza essencialmente científica. As consequências são evidentes, e não necessitam ser enfatizadas.

Afinal, 2020 foi um bom ano para a ciência?

Talvez a importância da ciência em tempos recentes não tenha sido tão ressaltada quanto em 2020. Ao mesmo tempo, incompreensivelmente políticas nacionais e estaduais parecem ignorar a importância essencial da ciência para o enfrentamento da pandemia de COVID-19 e de muitos outros problemas. De qualquer forma, foi importante esse debate ter sido aberto e exposto para a sociedade, que além de financiar boa parte da pesquisa e do conhecimento científico adquirido, também é a maior beneficiária do desenvolvimento da ciência. Porém, isso não é evidente para a maior parte da sociedade, simplesmente pelo fato de não saber o que é ciência e conhecimento científico.

Estudo recente mostra que a percepção da sociedade sobre a ciência e os cientistas é bastante indefinida. Cabe, então, aos pesquisadores, cientistas e gestores de instituições científico-acadêmicas trabalhar continuamente para demonstrar a importância da ciência para a sociedade. Somente assim será possível garantir a permanência da ciência como uma das maiores realizações da humanidade. E também enfatizar que problemas aparentemente insolúveis, ou muito difíceis de serem enfrentados, necessitam de mais ciência para sua resolução. Não de menos.

Atualização em 26/12/2020: um de meus leitores me sugeriu um post de Tyler Cowen no site da Bloomberg, que faz uma análise que 2020 foi um ano realmente bom para a ciência. Para além das vacinas obtidas em tempo recorde, e em particular com o sucesso da tecnologia de mRNA inicialmente proposta pela pesquisadora húngara Katalin Karikó, Tyler menciona: a) uma vacina para o tratamento da malária cujo avanço se encontra adiantado; b) novas abordagens de edição genética que fazem uso de CRISPR; c) avanços também na pesquisa com inteligência artificial, em especial na edição de textos, em bioquímica e química medicinal; d) avanços na computação quântica, que inclusive determinaram o sucesso da vacina da COVID-19 da empresa Moderna; e) avanços também na tecnologia de transportes sem condutores; f) os progressos fantásticos da SpaceX de Elon Musk; g) igualmente na direção da sustentabilidade, com o aprimoramento de tecnologias de captação de energia solar; h) o sucesso das reuniões em modo remoto (mas não sei se deixará saudade entre aqueles que podem se reunir presencialmente).

 

Autor: Roberto G. S. Berlinck

Professor do Instituto de Química de São Carlos, USP