A Política Cultural de Adolf Hitler

Durante seu governo, Adolf Hitler objetivou não somente realizar seu projeto político, mas também cultural. Já em 1933 os líderes nazistas empreenderam a sincronização (Gleichschaltung) das organizações profissionais e sociais de ideologia e política nazistas. Joseph Goebbels, ministro do Iluminismo Popular e Propaganda, foi quem coordenou o “alinhamento” do meio artístico e cultural à ideologia nazista, que incluiu o expurgo de judeus e outras pessoas consideradas indesejadas.

Também em 1933 os nazistas e a Associação de Estudantes Nacional-Socialistas Alemães (Nationalsozialistischer Deutscher Studentenbund, or NSDStB) organizaram queimas de livros considerados não-alemães. Obras de Bertolt Brecht, Thomas Mann, Erich Maria Remarque, Franz Werfel, Lion Feuchtwanger e Heinrich Heine, alguns dos autores mais ilustres, foram levadas às chamas.

Ainda em 1933, a Câmara Cultural do Reich (Reichskulturkammer)—que incluía cinema, música, teatro, imprensa, literatura, artes em geral e difusão radiofônica— foi estabelecida para regular todas atividades culturais alemãs. A cultura nazista adotou estilo de realismo clássico, enaltecendo a vida no campo, a família e as comunidades locais, bem como o heroísmo em campo de batalha, a valorização da indústria alemã e a raça ariana. Este conjunto de valores esteve intimamente associado à propaganda nazista, em franca oposição aos movimentos de modernização cultural dos anos 1920-1930.

Em 1937 foi realizada a Exibição da Grande Arte Alemã em Munique, organizada pelo governo. Exibição vizinha também foi organizada, sobre a Arte Degenerada (Entartete Kunst), para mostrar ao povo as “influências nefastas” da arte moderna. O governo alemão incluiu na exposição Arte Degenerada obras de Max Ernst, Franz Marc, Marc Chagall, Paul Klee e Wassily Kandinsky. Ao mesmo tempo, Goebbels ordenou o confisco das obras de autores considerados não-alemães de todos os museus. Muitas obras foram destruídas.

Marc Chagall – The walk

Obras literárias promovidas pelo governo nazista tinham claro conteúdo propagandístico, valorizando a vida no campo e a atuação na guerra. Por outro lado, a Câmara Literária criou listas negras para a eliminação de livros de autores indesejados de todas as bibliotecas públicas. A arte cinematográfica e teatral foi igualmente propagandística por um lado, e por outro destruidora da diversidade cultural, com foco principalmente na eliminação de autores da comunidade judaica. Na música o governo também promoveu a desvalorização de compositores considerados não-alemães, como Felix Mendelssohn e Gustav Mahler. Além disso, foram proibidas apresentações musicais que tivessem distância da cultura nazista, como o jazz.

Os nazistas objetivaram regular, dirigir e censurar manifestações artísticas e culturais que não correspondessem diretamente a seus ideais, de maneira a “formatar” uma nova cultura alemã, que influísse diretamente nas atividades diárias da população. A forma de realização do governo alemão foi através de uma política de terror e convencimento sobre a sociedade.

Os resultados não demoraram a surgir.

Entre janeiro de 1933 e dezembro de 1941, mais de 104.000 refugiados da Alemanha e da Áustria emigraram para os EUA. Nesse contingente, mais de 9.000 eram pesquisadores científicos, artistas jornalistas e intelectuais. Outros emigraram para os Países Baixos, Inglaterra e França. Dentre outros, Max Ernst, Otto Freundlich e Gert Wollheim foram para Paris. Para Amsterdam, Max Beckmann, Eugen Spiro e Heinrich Campendonck. Para Londres, John Heartfield, Kurt Schwitters, Ludwig Meidner e Oskar Kokoschka. Formaram o Coletivo de Artistas Alemães (Paris) e em Londres a Liga de Cultura Alemã. Na Alemanha, artistas como Otto Dix, Willi Baumeister e Oskar Schlemmer realizaram um auto-exílio, isolando-se dos círculos culturais.

Na Inglaterra foi instituído o Britain the Academic Assistance Council, que promoveu o emprego de 524 pesquisadores em cargos acadêmicos em 36 países, 161 dos quais nos EUA. Os Estados Unidos foram os maiores beneficiários do “brain drain” oriundo da Alemanha nazista. Até 1940, somente o periódico Zentralblatt für Mathematik und ihre Grenzgebiete era considerado de bom nível para a publicação de artigos em matemática. Com a tomada do governo pelos nazistas, artigos de pesquisadores judeus passaram a não ser mais referenciados. Com isso, matemáticos americanos criaram a revista Mathematical Reviews, até hoje publicada pela American Mathematical Society. Também, 113 pesquisadores experientes em biologia e 107 em física emigraram para os EUA, e influenciaram diretamente no resultado da II Guerra Mundial.

Foram criadas diversas iniciativas para o apoio financeiro de pesquisadores, escritores, artistas e jornalistas refugiados e/ou judeus. Estas incluíram a Emergency Society of German Scholars Abroad, a Fundação Rockefeller levantou fundos para apoiar intelectuais alemães refugiados, o Emergency Rescue Committee foi estabelecido pela organização American Friends of German Freedom. Grupos de refugiados tiveram o apoio da então primeira dama dos EUA Eleanor Roosevelt.

Apesar do movimento nazista, Pablo Picasso, Henri Matisse, Marc Chagall, Jacques Lipchitz, Amedeo Modigliani, Pablo Casals, André Gide e André Malraux permaneceram em seus países de origem. Artistas que tiveram que fugir clandestinamente para Portugal através dos Pireneus foram André Breton, Marc Chagall, Max Ernst, Lion Feuchtwanger, Konrad Heiden, Heinrich Mann, Alma Mahler-Werfel, André Masson, Franz Werfel e Wilfredo Lam. De Portugal emigraram para os EUA.

Alvin Johnson, professor na New School for Social Research in New York, levou para os EUA Hannah Arendt, Erich Fromm, Otto Klemperer, Claude Lévi-Strauss, Erwin Piscator e Wilhelm Reich. Vários destes editaram a Encyclopedia of the Social Sciences. Laszlo Moholy-Nagy criou uma ramificação da escola de artes Bauhaus em Chicago. Foram criados o Frankfurt Institute na Colombia University e o Erwin Panofsky’s Institute of Fine Arts na New York University, com cargos sendo preenchidos por intelectuais emigrados para os EUA.

Hannah Arendt

Um dos maiores presentes de Hitler para os EUA foi o compositor Arnold Schoenberg, que viveu em Los Angeles até o seu falecimento em 1951. Schoenberg foi professor na University of Southern California e depois na University of California em Los Angeles. Outros compositores como Paul Hindemith, Béla Bartók, Darius Milhaud e Igor Stravinsky também emigraram, além dos músicos Artur Rubinstein, Hans von Bülow, Fritz Kreisler, Efrem Zimbalist e Mischa Elman. Também para Los Angeles ou cercanias foram Thomas Mann, Bertolt Brecht, Lion Feuchtwanger, Theodor Adorno, Max Horkheimer, Otto Klemperer, Fritz Lang, Artur Rubinstein, Franz e Alma Werfel, Bruno Walter, Peter Lorre, Sergei Rachmaninoff, Heinrich Mann, Igor Stravinsky, Man Ray e Jean Renoir.

A política cultural de Hitler e Goebbels promoveu um desastre na Alemanha da guerra e pós-guerra, inclusive contribuindo para sua própria derrota. Cientistas emigrados da Alemanha e outros países para os EUA trabalharam e contribuíram definitivamente no projeto Manhattan e no posterior desenvolvimento científico norte-americano.

Nota: Durante uma inspeção pelo exército alemão no apartamento de Picasso em Paris, um dos soldados teria visto a obra Guernica, do pintor catalão, e perguntado:

– Você fez isso?

Ao que Picasso respondeu:

– Vocês fizeram.

Guernica, de Pablo Picasso

Fonte: Peter Watson, The Modern Mind, Perennial, 2000.

Autor: Roberto G. S. Berlinck

Professor do Instituto de Química de São Carlos, USP