Ciência, Tecnologia e a Sociedade Industrial

Durante a pré-história duas grandes revoluções tecnológicas transformaram totalmente a existência humana: as revoluções do Neolítico e da Idade do Bronze Urbano – as transições da coleta de alimentos para a produção de alimentos e depois para sociedades complexas que começaram há cerca de 12.000 e 6.000 anos, respectivamente. Uma terceira grande revolução tecnológica – a Revolução Industrial e o surgimento da civilização industrial – ocorreu apenas nos últimos trezentos anos, um piscar de olhos. O resultado foi mais uma transformação histórica mundial, à medida em que a industrialização alterou irreversivelmente o curso da história e remodelou fundamentalmente as sociedades humanas. As consequências sociais e econômicas da industrialização foram tão amplas quanto as das primeiras revoluções Neolítica e Urbana. A Revolução Industrial foi uma transformação tecnológica e sociocultural que começou discretamente na Inglaterra no século XVIII. Em essência, a industrialização implicou uma mudança da agricultura como o objeto principal do trabalho humano e o principal meio de criação de riqueza para a mecanização da produção de bens nas fábricas. Como resultado, um novo modo de existência humana começou a tomar forma, a civilização industrial, e com a civilização industrial a espécie humana entrou em uma nova era histórica. Hoje, cultivamos nossos alimentos, criamos nossos filhos, organizamos nossas economias e planejamos nossas atividades como indivíduos e como sociedades de maneiras que são muito diferentes da vida anterior ao início da Revolução Industrial na Inglaterra do século XVIII. Uma lista dessas diferenças não é difícil de compilar: a produção tornou-se mecanizada e movida por motores que utilizam combustíveis fósseis; a industrialização revolucionou a agricultura em muitas regiões; uma reestruturação completa das sociedades nos trouxe novas classes inteiras de proprietários, trabalhadores, patrões, líderes políticos e consumidores. A industrialização abriu as portas para um admirável mundo novo que ainda não dominamos por completo.

Paralelamente aos desenvolvimentos no domínio da tecnologia, mudanças intelectuais e sociais dramáticas ocorreram no mundo da ciência e da filosofia natural desde o século XVII. De Newton a Einstein e além, de Darwin ao DNA e além, a lista de grandes cientistas e grandes realizações científicas cresceu exponencialmente; hoje conhecemos o mundo de maneiras diferentes e muito mais sofisticadas do que nunca. Na época de Newton, o empreendimento científico não era organizacionalmente diferente do que tinha sido na Alexandria antiga. Hoje, apoiado de forma sem precedentes por governos e por um novo elemento no cenário histórico – a indústria de alta tecnologia – o empreendimento da ciência mudou da periferia da sociedade para o próprio coração das economias e prioridades das sociedades industriais e em industrialização de hoje.

Como parte dessa dramática revolução socio-tecnológica, a ciência e a tecnologia criaram novas conexões; sua fusão total na era moderna representa outro elemento definidor da civilização industrial contemporânea. Historicamente a ciência e a tecnologia foram empreendimentos totalmente separados ao longo do século XVIII. Somente nos séculos XIX e XX, e apenas lenta e relutantemente, governos e um número crescente de indústrias passaram a reconhecer as possibilidades plenas de aplicação da pesquisa teórica em ciência à tecnologia e à indústria. Liderado por indústrias-chave baseadas na ciência, o resultado foi uma expansão dramática nas aplicações da ciência à tecnologia. Em suma, de suas origens separadas e contato historicamente ocasional, pensamento e fabricação de ferramentas – ciência e tecnologia combinaram-se para nos dar o mundo que conhecemos hoje.

A industrialização trouxe uma combinação potente de novas tecnologias na produção de energia, transporte, equipamento militar, comunicação e entretenimento, que espalhou tentáculos por todo o mundo, substituiu muitas tecnologias tradicionais e apagou muitas das barreiras que separavam as nações e os povos do mundo. A ciência moderna, particularmente no século XX e cada vez mais no XXI, deixou de ser uma instituição estreitamente europeia e “ocidental” para se tornar um elemento dinâmico e definidor da cultura mundial. Ao contrário de outras tradições culturais, a ciência hoje é totalmente ecumênica, uma parte preciosa do patrimônio da civilização mundial e um grande testemunho da realização da humanidade como um todo. Dessa maneira, a ciência e a tecnologia desempenharam papéis essenciais nas transformações históricas que estão sob a rubrica de globalização.

in James E. McClellan III and Harold Dorn, Science and Technology in World History – An Introduction, Johns Hopkins University Press, 2006, pp. 255-256. (tradução livre)

Autor: Roberto G. S. Berlinck

Professor do Instituto de Química de São Carlos, USP