A Política Cultural de Adolf Hitler

Durante seu governo, Adolf Hitler objetivou não somente realizar seu projeto político, mas também cultural. Já em 1933 os líderes nazistas empreenderam a sincronização (Gleichschaltung) das organizações profissionais e sociais de ideologia e política nazistas. Joseph Goebbels, ministro do Iluminismo Popular e Propaganda, foi quem coordenou o “alinhamento” do meio artístico e cultural à ideologia nazista, que incluiu o expurgo de judeus e outras pessoas consideradas indesejadas.

Também em 1933 os nazistas e a Associação de Estudantes Nacional-Socialistas Alemães (Nationalsozialistischer Deutscher Studentenbund, or NSDStB) organizaram queimas de livros considerados não-alemães. Obras de Bertolt Brecht, Thomas Mann, Erich Maria Remarque, Franz Werfel, Lion Feuchtwanger e Heinrich Heine, alguns dos autores mais ilustres, foram levadas às chamas.

Ainda em 1933, a Câmara Cultural do Reich (Reichskulturkammer)—que incluía cinema, música, teatro, imprensa, literatura, artes em geral e difusão radiofônica— foi estabelecida para regular todas atividades culturais alemãs. A cultura nazista adotou estilo de realismo clássico, enaltecendo a vida no campo, a família e as comunidades locais, bem como o heroísmo em campo de batalha, a valorização da indústria alemã e a raça ariana. Este conjunto de valores esteve intimamente associado à propaganda nazista, em franca oposição aos movimentos de modernização cultural dos anos 1920-1930.

Em 1937 foi realizada a Exibição da Grande Arte Alemã em Munique, organizada pelo governo. Exibição vizinha também foi organizada, sobre a Arte Degenerada (Entartete Kunst), para mostrar ao povo as “influências nefastas” da arte moderna. O governo alemão incluiu na exposição Arte Degenerada obras de Max Ernst, Franz Marc, Marc Chagall, Paul Klee e Wassily Kandinsky. Ao mesmo tempo, Goebbels ordenou o confisco das obras de autores considerados não-alemães de todos os museus. Muitas obras foram destruídas.

Marc Chagall – The walk

Obras literárias promovidas pelo governo nazista tinham claro conteúdo propagandístico, valorizando a vida no campo e a atuação na guerra. Por outro lado, a Câmara Literária criou listas negras para a eliminação de livros de autores indesejados de todas as bibliotecas públicas. A arte cinematográfica e teatral foi igualmente propagandística por um lado, e por outro destruidora da diversidade cultural, com foco principalmente na eliminação de autores da comunidade judaica. Na música o governo também promoveu a desvalorização de compositores considerados não-alemães, como Felix Mendelssohn e Gustav Mahler. Além disso, foram proibidas apresentações musicais que tivessem distância da cultura nazista, como o jazz.

Os nazistas objetivaram regular, dirigir e censurar manifestações artísticas e culturais que não correspondessem diretamente a seus ideais, de maneira a “formatar” uma nova cultura alemã, que influísse diretamente nas atividades diárias da população. A forma de realização do governo alemão foi através de uma política de terror e convencimento sobre a sociedade.

Os resultados não demoraram a surgir.

Entre janeiro de 1933 e dezembro de 1941, mais de 104.000 refugiados da Alemanha e da Áustria emigraram para os EUA. Nesse contingente, mais de 9.000 eram pesquisadores científicos, artistas jornalistas e intelectuais. Outros emigraram para os Países Baixos, Inglaterra e França. Dentre outros, Max Ernst, Otto Freundlich e Gert Wollheim foram para Paris. Para Amsterdam, Max Beckmann, Eugen Spiro e Heinrich Campendonck. Para Londres, John Heartfield, Kurt Schwitters, Ludwig Meidner e Oskar Kokoschka. Formaram o Coletivo de Artistas Alemães (Paris) e em Londres a Liga de Cultura Alemã. Na Alemanha, artistas como Otto Dix, Willi Baumeister e Oskar Schlemmer realizaram um auto-exílio, isolando-se dos círculos culturais.

Na Inglaterra foi instituído o Britain the Academic Assistance Council, que promoveu o emprego de 524 pesquisadores em cargos acadêmicos em 36 países, 161 dos quais nos EUA. Os Estados Unidos foram os maiores beneficiários do “brain drain” oriundo da Alemanha nazista. Até 1940, somente o periódico Zentralblatt für Mathematik und ihre Grenzgebiete era considerado de bom nível para a publicação de artigos em matemática. Com a tomada do governo pelos nazistas, artigos de pesquisadores judeus passaram a não ser mais referenciados. Com isso, matemáticos americanos criaram a revista Mathematical Reviews, até hoje publicada pela American Mathematical Society. Também, 113 pesquisadores experientes em biologia e 107 em física emigraram para os EUA, e influenciaram diretamente no resultado da II Guerra Mundial.

Foram criadas diversas iniciativas para o apoio financeiro de pesquisadores, escritores, artistas e jornalistas refugiados e/ou judeus. Estas incluíram a Emergency Society of German Scholars Abroad, a Fundação Rockefeller levantou fundos para apoiar intelectuais alemães refugiados, o Emergency Rescue Committee foi estabelecido pela organização American Friends of German Freedom. Grupos de refugiados tiveram o apoio da então primeira dama dos EUA Eleanor Roosevelt.

Apesar do movimento nazista, Pablo Picasso, Henri Matisse, Marc Chagall, Jacques Lipchitz, Amedeo Modigliani, Pablo Casals, André Gide e André Malraux permaneceram em seus países de origem. Artistas que tiveram que fugir clandestinamente para Portugal através dos Pireneus foram André Breton, Marc Chagall, Max Ernst, Lion Feuchtwanger, Konrad Heiden, Heinrich Mann, Alma Mahler-Werfel, André Masson, Franz Werfel e Wilfredo Lam. De Portugal emigraram para os EUA.

Alvin Johnson, professor na New School for Social Research in New York, levou para os EUA Hannah Arendt, Erich Fromm, Otto Klemperer, Claude Lévi-Strauss, Erwin Piscator e Wilhelm Reich. Vários destes editaram a Encyclopedia of the Social Sciences. Laszlo Moholy-Nagy criou uma ramificação da escola de artes Bauhaus em Chicago. Foram criados o Frankfurt Institute na Colombia University e o Erwin Panofsky’s Institute of Fine Arts na New York University, com cargos sendo preenchidos por intelectuais emigrados para os EUA.

Hannah Arendt

Um dos maiores presentes de Hitler para os EUA foi o compositor Arnold Schoenberg, que viveu em Los Angeles até o seu falecimento em 1951. Schoenberg foi professor na University of Southern California e depois na University of California em Los Angeles. Outros compositores como Paul Hindemith, Béla Bartók, Darius Milhaud e Igor Stravinsky também emigraram, além dos músicos Artur Rubinstein, Hans von Bülow, Fritz Kreisler, Efrem Zimbalist e Mischa Elman. Também para Los Angeles ou cercanias foram Thomas Mann, Bertolt Brecht, Lion Feuchtwanger, Theodor Adorno, Max Horkheimer, Otto Klemperer, Fritz Lang, Artur Rubinstein, Franz e Alma Werfel, Bruno Walter, Peter Lorre, Sergei Rachmaninoff, Heinrich Mann, Igor Stravinsky, Man Ray e Jean Renoir.

A política cultural de Hitler e Goebbels promoveu um desastre na Alemanha da guerra e pós-guerra, inclusive contribuindo para sua própria derrota. Cientistas emigrados da Alemanha e outros países para os EUA trabalharam e contribuíram definitivamente no projeto Manhattan e no posterior desenvolvimento científico norte-americano.

Nota: Durante uma inspeção pelo exército alemão no apartamento de Picasso em Paris, um dos soldados teria visto a obra Guernica, do pintor catalão, e perguntado:

– Você fez isso?

Ao que Picasso respondeu:

– Vocês fizeram.

Guernica, de Pablo Picasso

Fonte: Peter Watson, The Modern Mind, Perennial, 2000.

Evolucionismo versus DI: réplica a Eberlin – Ser ou Não Ser: Eis a Questão

O texto a seguir foi publicado no Blog UNESP Ciência, à ocasião sob a organização de Maurício Tuffani. Como o Blog UNESP Ciência foi desativado, a reprodução desse texto encontra-se na página do Facebook da Sociedade Racionalista. Neste sábado 8/2/2020 a Folha de São Paulo publicou na seção Tendências e Debates opiniões opostas sobre o Design Inteligente, uma do Professsor de Biologia da USP Diogo Meyer, e outra de Marcos Eberlin do Mackenzie.

Aproveito a ocasião para aqui republicar meu texto de 2013.

Ser ou não ser: eis a questão

O texto “O Design Inteligente e a volta à causa certa“, publicado pelo professor Marcos Nogueira Eberlin no Blog Unesp Ciência, ilustra muito bem como o argumento dos membros do movimento do Design Inteligente se constrói não em cima de argumentação lógica, mas sobre falácias extremamente enviesadas.

“Seguir os dados aonde quer que nos levem”, como diz o professor, é uma premissa básica para o entendimento dos processos naturais. Porém, dados, por si só, não dizem nada. Em primeiro lugar, dados [experimentais] são coletados e organizados. E, por isso, já sofrem interferência durante esse processo. Dados brutos podem até ser obtidos, mas na grande maioria das vezes são refinados, pois de outra forma dificilmente se tornam compreensíveis. E, para serem compreendidos, precisam ser analisados e interpretados.

Como especialista em espectrometria de massas, Eberlin sabe muito bem o que está sendo dito aqui. Não é possível interpretar dados de espectros de massas sem levar em conta a teoria da mecânica quântica, que explica o comportamento dos átomos e das moléculas. Também não é possível interpretar espectros de massas de amostras de má qualidade, mal preparadas ou mal coletadas. Esse tipo de análise requer muitos cuidados e manipulação, ajustes de equipamento, zelo na manipulação de amostras, para que se obtenham dados que possam ser interpretados e fornecer informações que “digam algo”. As premissas científicas para a análise de espectros de massas são exatamente as mesmas para a análise dos fatos que explicam a evolução biológica.

Sendo assim, quando Eberlin afirma que devemos “interpretar dados livres de qualquer amarra, pré-conceito ou predefinição, livres do ‘pacto’ pós-medieval iluminista que fizeram com o materialismo científico e que nos constrange quanto ao que devemos ou não concluir”, está ele, sim, se divertindo com um exercício de retórica absolutamente vazia e desprovida de qualquer sentido, pois ele próprio, Eberlin, faz uso de todas as premissas científicas em seu trabalho que diz que devemos negar para entendermos o Design Inteligente, em detrimento da evolução biológica.

A ciência se construiu em cima de fundamentos, e não por um viés particular. Não fosse assim, a mesma ciência que explica a fragmentação de moléculas em espectrometria de massas não explicaria o comportamento das moléculas em reações químicas, ou ainda nas células de organismos vivos. O fundamento científico é o mesmo para a física, biologia e para a química. Os princípios que regem o comportamento das moléculas nas reações químicas in vitro são exatamente os mesmos que regem o comportamento de moléculas in vivo.

Por isso, causa espanto o juízo de valor negativo implícito na afirmação de Eberlin de que a ciência e o método científico são fruto de um pacto, uma vez que, de fato, a ciência se constrói sobre entendimentos que podem nem sempre ser consensuais, mas que, no entanto, pressupõem um consenso metodológico em torno da experimentação, reprodutibilidade e falseabilidade.

Contudo, uma teoria construída por sobre fatos, passados e presentes, que interpreta os fatos e provê uma explicação para os mesmos, se mostrará válida até que outra, melhor, a substitua. E Eberlin também sabe disso, particularmente no que se refere à história da química, na qual teorias sucederam-se umas às outras, mas somente a partir dos momentos em que as inválidas, ou parcialmente válidas, não puderam explicar senão particularidades, e não generalidades.

O problema do Design Inteligente é não explicar generalidades e tentar explicar apenas particularidades. Ao se justificar em cima de flagelos, olhos e ratoeiras, o DI mostra sua limitação conceitual, que não se sustenta como arcabouço teórico. Logo, não é teoria. Como são detectados “sinais claros de inteligência no universo e na vida”? Partindo de premissas falsas, como a “complexidade irredutível” e a “informação complexa especificada”, termos criados para explicar os mesmos flagelos, olhos e ratoeiras, mas deixando de lado a mensurabilidade da escala do tempo, das taxas de variações (ou mutações), a ocorrência de mudanças ambientais significativas e a filogenia dos seres vivos, amplamente demonstrada pelas técnicas de biologia molecular? O que é, afinal de contas, o “design”? E, no contexto deste, o que seria exatamente um “design inteligente”? Tais definições seriam muito bem-vindas, já que o DI busca explicar apenas o que parece ser visível, mas não as verdadeiras razões pelas quais se mostra o que é visível.

Ao afirmar sobre a impossibilidade da evolução química, Eberlin tenta fazer uso de premissas científicas, e se contradiz por querer, como diz anteriormente, utilizar tais premissas sem amarras. Porém, Eberlin confunde evolução com seleção natural, pois evolução implica em variação, mudança e adaptação, tendo por base a seleção natural. Substâncias podem sofrer evolução se estiverem em organismos vivos. A presença, ou ausência, de determinados compostos químicos em certos indivíduos irá favorecer (ou não) indivíduos de uma população que, frente a determinadas condições ambientais, serão mais ou menos aptos a gerarem prole melhor adaptada, e essa população será favorecida ou não. Logo, a evolução química é possível porque ela faz parte dos indivíduos de populações que transmitem os sistemas bioquímicos gerações após gerações. Sendo assim, os sistemas químicos de seres vivos também são passíveis de sofrer evolução, não por si só, mas como componentes de um sistema vivo.

Portanto, ao afirmar

“É porque sei que a evolução química é impossível que eu a refuto”,

Eberlin, na verdade, demonstra não ter compreendido os princípios básicos do processo da evolução biológica. Também ao afirmar que “evolucionistas (…) assumem que tudo é matéria e energia e, assim, guiados por este pré-conceito, necessariamente concluem o inevitável: a evolução ocorreu”, Eberlin se esquece que a teoria da evolução prescinde de tais “pré-conceitos”. Isso porque a teoria da evolução se fundamenta em observações e fatos, e não em uma premissa de que tudo é matéria e energia. Não somente os achados de Darwin, mas toda a pesquisa em biologia evolutiva feita ao longo de 150 anos, se fundamenta em observações e fatos. O mecanismo da evolução ainda é tema de debates, assim como muitos mecanismos de reações orgânicas, como Eberlin bem sabe. E nem por isso se questiona a validade das teorias que explicam o comportamento dos átomos e das moléculas, como Eberlin também está ciente. A ciência que explica as moléculas, os átomos, as reações químicas, é a mesma ciência que explica a teoria da evolução.

Ironizar o arcabouço teórico da ciência como “pré-conceito chique e perfumado” é o mesmo que cuspir no prato em que Eberlin come todos os dias, sobre o qual construiu seu Currículo Lattes. Como o internauta Gato Pré-cambriano bem disse, infelizmente moléculas não falam. Se falassem, nossa vida de químicos seria bem mais fácil, porém muito mais sem graça. Basicamente, não teríamos mais trabalho, pois as moléculas nos explicariam tudo. E, no entanto, os químicos ainda aí estão, trabalhando arduamente para compreender processos químicos, sejam em sistemas vivos ou não. Quer queiramos ou não, as “explicações filtradas pelo materialismo filosófico” são as que melhor descrevem o mundo à nossa volta. Afinal, porque exatamente o Design Inteligente tem a resposta correta?

Se, como o próprio Eberlin diz,

“Vamos seguir os dados onde quer que nos levem! E vamos interpretá-los, livres de qualquer amarra, pré-conceito ou predefinição”,

isso faz com que os próprios argumentos do Design Inteligente sejam passíveis de escrutínio e análise, questionamento e reflexão. E, como já demonstrado em livros e mais livros, além de artigos científicos, o DI não consegue sustentar suas premissas pelo fato de não serem verificáveis, tampouco falseáveis. Logo, não são científicas. E, consequentemente, não são adequadas para explicar o mundo natural. Embora Karl Popper possa, evidentemente, ser questionado, como já o foi, ainda é seriamente considerado por filósofos da ciência como propositor de uma metodologia moderna de verificação do que pode certamente ser confirmado. Evidentemente que a proposição popperiana pode ser mandada às favas. Nada nos impede. Porém, ao levar em conta as conseqüências de análises e interpretações errôneas dos fatos naturais, é melhor ponderar com cuidado o que significa mandar a proposição de Popper às favas. Afinal, explicar para um doente que sua doença é “fruto de um Design Inteligente”, e não de uma causa genética, pode não ser mais satisfatório nos dias atuais. Ao advogar que somente o Design Inteligente possui a resposta certa, Eberlin confirma, de maneira enfática, no que constitui o arcabouço ideológico do DI: o dogma. Não há questionamento, não há discussão.

O Design Inteligente é um fracasso científico porque não conseguiu explicar nada de maneira definitivamente convincente, com experimentos verificáveis e falseáveis. Também é um fracasso científico porque se fundamenta na premissa teleológica. Ou seja, a de que estruturas “irredutivelmente complexas” só poderiam ter surgido como fruto de um planejamento e, desta forma, com um propósito definido. Como bem se sabe, flagelos, olhos, DNA, e outras estruturas “irredutivelmente complexas” não são fruto de um planejamento inteligente, e sim da evolução biológica que faz com que flagelos sirvam a múltiplas funções, que faz com que existam cegos, míopes, hipermétropes, sofredores de glaucoma e catarata, e que existam tantos defeitos no DNA, que faz com que a principal doença causa de morte de humanos no mundo seja decorrente de defeitos do DNA: o câncer.

Tentar explicar a origem da vida pelo Design Inteligente é apelar para a ignorância e para a preguiça, a entrega ao inevitável desígnio do sobrenatural, que “consegue explicar o que ainda não conseguimos”. É muito cômodo. É muito pouco. Se códigos (genéticos, do DNA) fossem imutáveis, não existiriam as mutações genéticas. Sorry, Eberlin, mas sua retórica estacionou no século 19. Ao afirmar que o Design Inteligente quer “soltar a perna da ciência”, Eberlin é redundante, pois o DI nunca esteve preso à ciência, mas sim à ideologia teleológica de orientação teísta, que não explica nem justifica nada, apenas joga um pano preto por sobre as evidências.

Como Eberlin bem sabe, os cientistas não necessitam do Design Inteligente para rever seus pressupostos e ser um pouco mais autocríticos. Afinal, fazemos isso todos os dias, ao discutirmos com colegas, na sala de aula, na orientação de alunos de pós-graduação, ao ler artigos e livros científicos que apresentam novas formas de enxergar as informações que coletamos. O que seria da espectrometria de massas se estivéssemos ainda utilizando somente ionização por impacto de elétrons? Graças à ciência e ao método científico, hoje entendemos mais, e cada vez melhor, o mundo à nossa volta.

A “lógica” do “argumento do design”, segundo o Movimento do Design Inteligente

A postagem a seguir foi originalmente escrita no blog “Química de Produtos Naturais” em 15 de maio de 2010.

A “lógica” do argumento do “design inteligente” é muito clara. Em vez de buscar um conjunto de respostas com base no método científico, busca somente em promover a “inferência do design”: que tudo é projetado (“designed”) por um projetista (“designer”).

Michael Behe, um dos proponentes do Movimento do Design Inteligente (MDI), explica o “argumento do design” dizendo que “Se o designer é realmente Deus, logo existe uma boa razão para supor que os mecanismos do design irão para sempre permanecer desconhecidos” (M. Behe, Reply to my critics, Biology and Philosophy, 2001, vol. 16, 698). Esta é uma argumentação digna de encerrar qualquer discussão sobre este assunto, uma vez que parte da premissa que as razões para o design não podem ser conhecidas. Logo, não podem ser questionadas. Segundo William Dembski, outro membro do MDI, “(…) o design se manifesta como uma metáfora vazia (…) um princípio inquestionável desprovido de significado empírico”. (W. Dembski, Intelligent Design, páginas 78-79 e 187-210).

Proponentes do MDI argumentam que várias estruturas biológicas são complexas demais para terem origem em causas naturais, principalmente algumas sub-estruturas celulares, como o flagelo. Stephen Mayer, por exemplo, diz que o DNA se parece com um software de computador, ou com uma “forma avançada de nanotecnologia”, que deve ter tido um programador ou “designer”. Afirma que “sabemos, de acordo com nossas experiências, que sistemas que apresentam tais características invariavelmente têm origem em causas inteligentes”. Afirma ainda, segundo ele cientificamente, que “o design inteligente, o qual está além de qualquer explicação, justifica a origem de máquinas moleculares nas células”. Desta forma, conclui: “organismos vivos parecem projetados (“designed”) porque foram realmente projetados por um projetista (“designer”)” (Stephen C. Mayer, Not by chance, National Post, 1º de dezembro de 2005).

É desta forma que os membros do MDI apresentam sua tese para responder a questões científicas. O cerne ideológico do design inteligente jaz, assim, fora de qualquer questionamento científico, uma vez que não pode ser avaliado por evidências empíricas. Como afirma David Hume (1975), argumentar de tal forma é como “abraçar um princípio, o qual é incerto e sem propósito. É incerto porque o assunto permanece totalmente além da experiência humana. É sem propósito por que nosso conhecimento desta causa [o design], originária diretamente da natureza, não pode jamais, de acordo com o raciocínio lógico, voltar à esta causa com qualquer nova inferência”.

De acordo com Behe, evidências de “design inteligente” em sistemas biológicos são óbvias pelo fato de muitos componentes destes sistemas apresentarem o que chama de “complexidade irredutível”. Por “complexidade irredutível” Behe entende como sendo “sistemas biológicos constituídos por partes integradas que contribuem para o funcionamento destes sistemas como um todo”. Assim, “sistemas irredutivelmente complexos não podem se originar de modificações sucessivas de um sistema precursor, menos complexo, pois, se qualquer das partes [que formam o sistema] estiver faltando, estes não funcionarão. Sendo assim”, conclui, “é necessário um design inteligente para criar sistemas biológicos irredutivelmente complexos, e que sejam funcionais” (M. Behe, Darwin’s Black Box, página 39). Segundo Behe, exemplos de estruturas irredutivelmente complexas seriam o flagelo bacteriano, o olho humano, o cérebro humano e o DNA.

Para dar uma apelo científico à sua proposta, os membros do MDI não negam a teoria da evolução como um todo. Procuram apenas tentar enfraquecer a mesma, tentando ilustrar com alguns “exemplos irrefutáveis” de complexidade irredutível que, aparentemente, a teoria da evolução não pode explicar. Desta forma, cientistas são forçados a tentar encontrar explicações para tais “lacunas da teoria da evolução”. Se não podem explicar, a teoria da evolução está falha.

Dois pontos devem ser aqui ressaltados. Em primeiro lugar, nenhuma evidência empírica foi fornecida pelos proponentes do design inteligente que demonstre experimentalmente a “complexidade irredutível”. Logo, se esta não pode ser comprovada, não pode ser aceita como forma de refutar a teoria da evolução. Em segundo lugar, o fato de determinados fenômenos não poderem ser explicados não quer dizer, em absoluto, que necessitam de uma explicação sobrenatural (o “design” de um” designer”). A história comprova que este argumento é uma grande falácia. Por exemplo, durante a Idade Média, a Igreja Católica adotou a visão de Ptolomeu que a Terra era o centro do universo, uma vez que a própria Igreja não dispunha de outro argumento. Até que Galileu demonstrou que a Terra gira em torno do Sol (embora tenha sido condenado pela Igreja por afirmar isso). Até a época de Cristóvão Colombo se acreditava que a Terra era plana. Newton demonstrou leis de mecânica clássica que explicam o movimento dos corpos, de forma alheia a qualquer “vontade”. Porém, Newton achava que deus era necessário para manter os planetas em suas órbitas. Laplace mais tarde mostrou que mecanismos puramente naturais fariam este trabalho, utilizando deduções lógicas e matemáticas a partir das teorias do próprio Newton.

A estrutura da matéria por séculos permaneceu desconhecida e, por isso, seria de atributo divino. Até que cientistas como Lavoisier, John Dalton, Avogadro, Gay-Lussac, Berzelius, Cannizaro, Berthelot, Kekulé, Mendeleev, Boltzmann, Le Bel, Van’t Hoff, Thomson, Planck, Rutherford, Bohr, Schrödinger, de Broglie e Heisenberg mostraram que a estrutura da matéria não tem nada de divino. A utilização de “evidências sobrenaturais” para explicar o que não pode ser explicado faz parte de uma estratégia denominada de utilização do conceito de um “deus das lacunas”: se não existe explicação, a única explicação possível é sobrenatural.

Porém, Behe admitiu sua falha de argumentação lógica sobre o conceito de complexidade irredutível, explicando-a como sendo uma “assimetria” de seu argumento, que falha ao se ater a uma inferência primária: que a evolução não pode originar instâncias de “complexidade irredutível” (Behe, Reply to my critics, Biology and Philosophy, 2001, 16, 695). Em seu último livro, “The Edge of Evolution”, Behe abandonou o conceito de “complexidade irredutível” em favor de questionar a natureza aleatória das mutações que dão origem a mudanças no código genético, sujeitas à pressão seletiva que levam à seleção natural. Behe argumenta que tal variação aleatória não fornece variação suficiente para originar mudanças evolutivas significativas (mas justificariam apenas pequenas mudanças). Assim, seria necessário um projetista (“designer”) não especificado, atuando como um profissional de engenharia genética, que seria o orquestrador de tal processo que origina novas espécies. Todavia, tal argumento já foi colocado por terra há um bom tempo atrás após a realização de trabalhos de geneticistas matemáticos (como J. B. S. Haldane e Richard Lewontin), que estabeleceram que a taxa de mutações de ocorrência natural excede, em muito, a taxa necessária para que os processos de seleção natural originem a novas espécies.

Como delineado acima, a “lógica” do “argumento do design” não se sustenta, nem do ponto de vista lógico, nem epistemológico, nem científico.

Bibliografia consultada

Andrew J. Petto and Laurie R. Godfrey, Scientists Confront Creationism – Intelligent Design and Beyond, W. W. Norton & Co., 2007.

D. Hume, Enquiries Concerning Human Understanding and Concerning the Principles of Morals, Oxford University Press, 1975, página 142.

Dembski, Intelligent Design: The Bridge Between Science and Theology, Downers Grove, Illinois: InterVarsity press, 1999.

Ernst Mayr, What Evolution Is, Basic Books, New York, 2001.

J. B. Foster, B. Clark, R. York, Critique of Intelligent Design, Monthly Review Press, New York, 2008.

John A. Paulos, Irreligion, Hill and Wang, New York, 2008.

Lynn Margulis and Dorion Sagan, What is Life?, University of California Press, Berkeley and Los Angeles, 2000.

M. Behe, Darwin’s Black Box, Free Press, New York, 1996.

Michael Shermer, Why Darwin Matters, Owl Books, , New York, 2006.

Niall Shanks, God, the Devil and Darwin, Oxford University Press, 2006.

Philip E. Johnson, “The Wedge of Truth: Splitting the Foundations of Naturalism, Downers Growe, Illinois, Intervarsity Press, 2000.

O que é o Movimento do Design Inteligente

Nesta semana o Movimento do Design Inteligente (MDI) foi pela primeira vez mencionado publicamente na esfera administrativa do governo federal. Segundo reportagem do jornal Folha de São Paulo, Benedito Guimarães Aguiar Neto, ex-reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e agora Presidente da CAPES, estabeleceu novo centro de estudos no Mackenzie voltado para a disseminação do Movimento do Design Inteligente.

Há exatos 10 anos eu postei em antigo blog, chamado “Química de Produtos Naturais”, uma série de textos sobre o MDI. Aproveitando a atualidade do tema, os textos do antigo blog, e outros, serão aqui reproduzidos de maneira a estarem novamente disponíveis para esclarecer leitores interessados.

Esta postagem foi do dia 10 de maio de 2010.

O Movimento do Design Inteligente (MDI) é um movimento de ideologia criacionista, que nasceu nos EUA na década de 80, depois que a limitação do ensino da teoria da evolução nas escolas foi finalmente abolida pelo congresso norte-americano. Esta limitação surgiu em 1920, depois do julgamento de Scopes, quando um professor de ciências foi condenado por ensinar a teoria da evolução em sala de aula. Ao longo de 40 anos o ensino da teoria da evolução foi abandonado nos EUA, até que, quando do lançamento da nave Sputnik pela União Soviética em 1957, a sociedade americana “acordou” e percebeu que um eventual atraso do desenvolvimento da ciência poderia ser desastroso para o país. O ensino da teoria da evolução foi re-introduzido, e o ensino do criacionismo foi banido em 1983.

Com a proibição do ensino do criacionismo em aulas de ciências, setores extremamente conservadores dos EUA se organizaram e criaram o Discovery Institute em Seattle (estado de Washington), de onde surgiu o Centro para a Renovação da Ciência e Cultura. Este deu origem ao MDI, cujo objetivo é questionar e atacar a filosofia naturalista sobre a qual se fundamenta a ciência, a filosofia, a cultura e a política atuais, para substituí-la por uma ideologia cristã fundamentalista. De acordo com William A. Dembski, um dos proponentes do MDI, “Naturalismo é doença. Projeto Inteligente é a cura.” (Dembski, Intelligent Design, página 120).

O Movimento do Design Inteligente (MDI) surgiu de um encontro realizado na Southern Methodist University em 1992. A este encontro compareceram aqueles que fundariam o movimento: Phillip E. Johnson, Michael Behe, Stephen Meyer e William Dembski. Behe apresentou ao grupo a idéia que seria a semente original da ideologia do MDI: seu conceito de complexidade irredutível.

No verão de 1995, o grupo realizou a conferência “The Death of Materialism and the Renewal of Culture,” (“A Morte do Materialismo e a Renovação da Cultura”), que serviu de base para a fundação do Centro para a Renovação da Ciência e Cultura no ano seguinte. Johnson publicou outro livro, “Reason in the Balance: The Case Against Naturalism in Science, Law and Education (A Razão em Avaliação: O Caso contra o Naturalismo na Ciência, Direito e Educação), no qual se posicionou claramente contra o naturalismo metodológico. O Centro para a Renovação da Ciência e Cultura (CRSC, Centre for Renewal of Science and Culture) se deu com a formação do “núcleo duro” do Movimento do Design Inteligente: Stephen Meyer, John G. West, Jr., William Dembski, Michael Behe, Jonathan Wells, Paul Nelson e Phillip Johnson.

Em 1996, Michael Behe publicou seu livro “A Caixa Preta de Darwin”, em que apresenta seu argumento em favor do design inteligente: determinadas estruturas celulares ou processos bioquímicos seriam por demais complexos para serem resultado da evolução através da seleção natural. Tais estruturas, ou processos, são por Behe designados como “irredutivelmente complexos” e, por isso, devem ser “fruto de um design inteligente”.

Neste mesmo ano (1996) foi realizada a conferência “Mera Criação”, organizada por este grupo, na Biola University (California), com o apoio dos Ministérios dos Líderes Cristãos. O encontro reuniu um grupo de pessoas que rejeitam o naturalismo científico e promulgam uma ideologia fundamentada no criacionismo, denominada de “Intelligent Design” (Projeto Inteligente, ou Desenho Inteligente, ou Design Inteligente).

Subsequentemente foi lançado o periódico “Origins & Design”, editado por Paul Nelson. Em fevereiro de 1997, realizou-se a conferência “Naturalism, Theism, and the Scientific Enterprise” na Universidade do Texas. Como resultado, William Dembski editou o livro “Mere Creation: Science, Faith and Intelligent Design (“Mera Criação: Ciência, Fé e Projeto Inteligente”), contendo as apresentações do evento. No mesmo ano, Johnson, em seu novo livro, “Defeating Darwinism by Opening Minds” (“Aniquiliando o Darwinismo pela Abertura de Mentes”) expõe abertamente a estratégia estabelecida pelo MDI: A Cunha (The Wedge). O capítulo 6 deste livro, “The Wedge: A Strategy for Truth” (A Cunha: Uma Estratégia para a Verdade), apresenta tal estratégia como sendo uma maneira de enfiar uma cunha em uma tora de árvore:

“We call our strategy ‘the wedge.’ A log is a seeming solid object, but a wedge can eventually split it by penetrating a crack and gradually widening the split. In this case the ideology of scientific materialism is the apparently solid log.” (“Denominamos nossa estratégia de ‘a cunha’. Uma tora de madeira é um objeto que parece ser muito sólido, mas uma cunha pode eventualmente ser enfiada na tora através de uma fenda e aumentando o tamanho desta. Neste caso, a ideologia do materialismo científico seria a tora de madeira aparentemente sólida”).

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A forma de execução da “estratégia da cunha” (“The Wedge”) caiu na internet em 1999 (em inglês, veja aqui).

O objetivo do MDI é estabelecer um movimento anti-evolucionário unificado, através da manipulação da opinião pública. O MDI não é um movimento “inocente”: recebeu apoio de pessoas como os ex-presidentes dos EUA Ronald Reagan e George W. Bush. A criação do Discovery Institute teve apoio de Reagan. Hoje o CRSC é conhecido como Centre for Science and Culture (Centro para a Ciência e Cultura), que instiga o setor conservador da sociedade americana a questionar a teoria da evolução e o ensino desta.

De acordo com a estratégia “a cunha”, o ataque à Teoria da Evolução é apenas a ponta fina da cunha. O lado maior da cunha representa um objetivo extremamente ambicioso, de sobrepujar completamente a concepção naturalista em que a sociedade contemporânea se baseia, e começou a adotar há cerca de 500 anos durante o Renascimento. O documento “The Wedge” deixa claro quais são as intenções e objetivos do MDI: “estabelecer a ‘teoria do design’ na vida religiosa, cultural, moral e política, de tal forma a substituir a filosofia vigente da cultura moderna pela nova ‘filosofia do design inteligente’” (Philip E. Johnson, “The Wedge of Truth”, página 13). O que pode parecer um documento feito por adolescentes como uma brincadeira de mau gosto é algo muito sério: o documento “The Wedge” apresenta sua estratégia a longo prazo, mostrando seus objetivos a serem conquistados em qüinqüênios, com claras indicações que a intenção é impingir preceitos teológicos, culturais e morais na sociedade atual, muito mais do que apenas discutir conceitos científicos.

O Movimento do Design Inteligente objetiva atacar o naturalismo, primeiramente com relação à ciência, mas tendo por fim atingir toda a cultura atual. Segundo William Dembski, “embora as escrituras pareçam ter sido questionadas pelos fatos revelados pela ciência naturalista, aqueles que adotam o princípio da ‘visão de deus’ terão, por vezes, que se confrontar com a ‘perplexidade’. Esta se baseia em reconhecer nossas limitações de entendimento, e faz com que possamos nos prevenir de assumir que as escrituras estavam erradas”. Segundo suas próprias palavras “The choice is then up to us, which perspective we are going to trust” (“A escolha é de cada um de nós, de qual perspectiva iremos confiar”). (W. A. Dembski, The problem of error in Scripture, in Dembski and Richards Eds., Unapologetic Apologetics, página 94). O objetivo final do MDI através da “Estratégia da Cunha”, não é apenas dominar as ciências naturais, e sim dominar a ciência social, a cultura, a filosofia, a moralidade e a vida pública.

Bibliografia consultada

Barbara Forrest, The Wedge at Work: How Intelligent Design Creationism Is Wedging Its Way into the Cultural and Academic Mainstream, in Intelligent Design Creationism and Its Critics, R. T. Pennock, ed., MIT Press, 2001, capítulo 1.

Barbara Forrest and Paul R. Gross, Creationism’s Trojan Horse: The Wedge of Intelligent Design, Oxford University Press, New York, 2004.

Dembski, Intelligent Design: The Bridge Between Science and Theology, Downers Grove, Illinois: InterVarsity press, 1999.

Eugenie C. Scott and Glenn Branch, Not in Our Classrooms, Beacon Press, Boston, 2006.

J. B. Foster, B. Clark, R. York, Critique of Intelligent Design, Monthly Review Press, New York, 2008.

Philip E. Johnson, “The Wedge of Truth: Splitting the Foundations of Naturalism, Downers Growe, Illinois, Intervarsity Press, 2000.

Robert T. Pennock, Creationism and Intelligent Design, Annu. Rev. Genomics Hum. Genet., 2003, 4, 143-63.

Paganini: Violin Concerto No.1

 

Niccolò Paganini (27 October 1782 – 27 May 1840) was an Italian violinist, violist, guitarist, and composer. He was a violin virtuoso and a developer of the modern violin technique.

Niccolo-Paganini

Paganini’s Concerto for Violin and Orchestra No. 1 is a virtuosic tour de force and reveals not only Paganini’s incredible technical ability, but also his melodic sensitivity and skillful exploitation of dramatic structure. Like many of his other works, this concerto takes inspiration from the musical language of Gioachino Rossini’s operas, which were extremely popular at the time. Paganini originally composed the Concerto No. 1 in the unusual key of E flat major, in order to achieve a more brilliant tone for the violin. However, since modern concert pitches are much higher than was the norm in Paganini’s era, the standard modern version of the piece is transposed to the key of D major, which also makes the very thin E string of the violin less susceptible to breakage (Paganini often broke several strings during a single concert performance). By modern standards the technical demands of the concerto are only moderate, but in Paganini’s time they were considered tremendous, and many contemporaries branded the piece “unplayable.” This, of course, served as valuable publicity that helped Paganini become the most popular soloist of his day. The work is indeed a catalog of such flashy techniques as extended arpeggios, left-hand pizzicati, rapid runs in thirds, fifths, and even harmonics. The work is more than a mere virtuoso showpiece, however. Paganini’s concerto is filled with elegant melodic themes, and there are moments of striking beauty. One legend holds that Paganini composed the main theme of the second movement on a one-string violin while languishing in prison under suspicion of a murder he did not commit. Such legends grow up naturally around the dynamic (and, some said, demonic) Paganini, but they also reflect the appeal and mystique of his music. Paganini’s aura of mystery was amplified by his refusal to allow his works to be published during his lifetime, making it impossible for his rivals to study and master his techniques. The Concerto No. 1 was published only after his death, and it soon became a fixture in the repertoire of lesser virtuosos who were as adept, more or less, in the technical department, but not nearly as musically compeling as Paganini. Fortunately, many great twentieth century soloists have concentrated on the musicality of the piece as much as the virtuosity. (source)

Here is the interpretation by Kristóf Baráti, with the NDR Radiophilharmonie orchestra, and Eiji Oue as the conductor.

 

Prefácio de Aldoux Huxley à 2a edição de Admirável Mundo Novo – 1946

Aldous Huxley Foreword to Brave New World, 2nd edition – 1946

Chronic remorse, as all the moralists are agreed, is a most undesirable sentiment. If you have behaved badly, repent, make what amends you can and address yourself to the task of behaving better next time. On no account brood over your wrong-doing. Rolling in the muck is not the best way of getting clean.

Art also has its morality, and many of the rules of this morality are the same as, or at least analogous to, the rules of ordinary ethics. Remorse, for example, is as undesirable in relation to our bad art as it is in relation to our bad behaviour. The badness should be hunted out, acknowledged and, if possible, avoided in the future. To pore over the literary shortcomings of twenty years ago, to attempt to patch a faulty work into the perfection it missed at its first execution, to spend one’s middle age in trying to mend the artistic sins committed and bequeathed by that different person who was oneself in youth — all this is surely vain and futile. And that is why this new Brave New World is the same as the old one. Its defects as a work of art are considerable; but in order to correct them I should have to rewrite the book — and in the process of rewriting, as an older, other person, I should probably get rid not only of some of the faults of the story, but also of such merits as it originally possessed. And so, resisting the temptation to wallow in artistic remorse, I prefer to leave both well and ill alone and to think about something else.

In the meantime, however, it seems worth while at least to mention the most serious defect in the story, which is this. The Savage1 is offered only two alternatives, an insane life in Utopia, or the life of a primitive in an Indian village, a life more human in some respects, but in others hardly less queer and abnormal. At the time the book was written this idea, that human beings are given free will in order to choose between insanity on the one hand and lunacy on the other, was one that I found amusing and regarded as quite possibly true. For the sake, however, of dramatic effect, the Savage is often permitted to speak more rationally than his upbringing among the practitioners of a religion that is half fertility cult and half Penitente ferocity would actually warrant. Even his acquaintance with Shakespeare would not in reality justify such utterances. And at the close, of course, he is made to retreat from sanity; his native Penitente-ism reasserts its authority and he ends in maniacal self-torture and despairing suicide. “And so they died miserably ever after” — much to the reassurance of the amused, Pyrrhonic aesthete who was the author of the fable.

Today I feel no wish to demonstrate that sanity is impossible. On the contrary, though I remain no less sadly certain than in the past that sanity is a rather rare phenomenon, I am convinced that it can be achieved and would like to see more of it. For having said so in several recent books and, above all, for having compiled an anthology of what the sane have said about sanity and the means whereby it can be achieved, I have been told by an eminent academic critic that I am a sad symptom of the failure of an intellectual class in time of crisis. The implication being, I suppose, that the professor and his colleagues are hilarious symptoms of success. The benefactors of humanity deserve due honour and commemoration. Let us build a Pantheon for professors. It should be located among the ruins of one of the gutted cities of Europe or Japan, and over the entrance to the ossuary I would inscribe, in letters six or seven feet high, the simple words: SACRED TO THE MEMORY OF THE WORLD’S EDUCATORS. SI MONUMENTUM REQUIRIS CIRCUMSPICE*.

But to return to the future . . . If I were now to rewrite the book, I would offer the Savage a third alternative. Between the utopian and the primitive horns of his dilemma would lie the possibility of sanity – a possibility already actualized, to some extent, in a community of exiles and refugees from the Brave New World, living within the borders of the Reservation. In this community economics would be decentralist and Henry-Georgian, politics Kropotkinesque cooperative. Science and technology would be used as though, like the Sabbath, they had been made for man, not (as at present and still more so in the Brave New World) as though man were to be adapted and enslaved to them. Religion would be the conscious and intelligent pursuit of man’s Final End, the unitive knowledge of the immanent Tao or Logos, the transcendent Godhead or Brahman. And the prevailing philosophy of life would be a kind of Higher Utilitarianism, in which the Greatest Happiness principle would be secondary to the Final End principle — the first question to be asked and answered in every contingency of life being: “How will this thought or action contribute to, or interfere with, the achievement, by me and the greatest possible number of other individuals, of man’s Final End?”

Brought up among the primitives, the Savage (in this hypothetical new version of the book) would not be transported to Utopia until he had had an opportunity of learning something at first hand about the nature of a society composed of freely co-operating individuals devoted to the pursuit of sanity. Thus altered, Brave New World would possess artistic and (if it is permissible to use so large a word in connection with a work of fiction) a philosophical completeness, which in its present form it evidently lacks.

But Brave New World is a book about the future and, whatever its artistic or philosophical qualities, a book about the future can interest us only if its prophecies look as though they might conceivably come true. From our present vantage point, fifteen years further down the inclined plane of modern history, how plausible do its prognostications seem? What has happened in the painful interval to confirm or invalidate the forecasts of 1931?

One vast and obvious failure of foresight is immediately apparent. Brave New World contains no reference to nuclear fission. That it does not is actually rather odd, for the possibilities of atomic energy had been a popular topic of conversation for years before the book was written. My old friend, Robert Nichols, had even written a successful play about the subject, and I recall that I myself had casually mentioned it in a novel published in the late twenties. So it seems, as I say, very odd that the rockets and helicopters of the seventh century of Our Ford should not have been powered by disintegrating nuclei. The oversight may not be excusable; but at least it can be easily explained. The theme of Brave New World is not the advancement of science as such; it is the advancement of science as it affects human individuals. The triumphs of physics, chemistry and engineering are tacitly taken for granted. The only scientific advances to be specifically described are those involving the application to human beings of the results of future research in biology, physiology and psychology. It is only by means of the sciences of life that the quality of life can be radically changed. The sciences of matter can be applied in such a way that they will destroy life or make the living of it impossibly complex and uncomfortable; but, unless used as instruments by the biologists and psychologists, they can do nothing to modify the natural forms and expressions of life itself. The release of atomic energy marks a great revolution in human history, but not (unless we blow ourselves to bits and so put an end to history) the final and most searching revolution.

This really revolutionary revolution is to be achieved, not in the external world, but in the souls and flesh of human beings. Living as he did in a revolutionary period, the Marquis de Sade very naturally made use of this theory of revolutions in order to rationalize his peculiar brand of insanity. Robespierre had achieved the most superficial kind of revolution, the political. Going a little deeper, Babeuf had attempted the economic revolution. Sade regarded himself as the apostle of the truly revolutionary revolution, beyond mere politics and economics — the revolution in individual men, women and children, whose bodies were henceforward to become the common sexual property of all and whose minds were to be purged of all the natural decencies, all the laboriously acquired inhibitions of traditional civilization. Between sadism and the really revolutionary revolution there is, of course, no necessary or inevitable connection. Sade was a lunatic and the more or less conscious goal of his revolution was universal chaos and destruction. The people who govern the Brave New World may not be sane (in what may be called the absolute sense of the word); but they are not madmen, and their aim is not anarchy but social stability. It is in order to achieve stability that they carry out, by scientific means, the ultimate, personal, really revolutionary revolution. But meanwhile we are in the first phase of what is perhaps the penultimate revolution. Its next phase may be atomic warfare, in which case we do not have to bother with prophecies about the future. But it is conceivable that we may have enough sense, if not to stop fighting altogether, at least to behave as rationally as did our eighteenth-century ancestors. The unimaginable horrors of the Thirty Years War actually taught men a lesson, and for more than a hundred years the politicians and generals of Europe consciously resisted the temptation to use their military resources to the limits of destructiveness or (in the majority of conflicts) to go on fighting until the enemy was totally annihilated. They were aggressors, of course, greedy for profit and glory; but they were also conservatives, determined at all costs to keep their world intact, as a going concern. For the last thirty years there have been no conservatives; there have been only nationalistic radicals of the right and nationalistic radicals of the left. The last conservative statesman was the fifth Marquess of Lansdowne; and when he wrote a letter to the the Times, suggesting that the First World War should be concluded with a compromise, as most of the wars of the eighteenth century had been, the editor of that once conservative journal refused to print it. The nationalistic radicals had their way, with the consequences that we all know –Bolshevism, Fascism, inflation, depression, Hitler, the Second World War, the ruin of Europe and all but universal famine.

Assuming, then, that we are capable of learning as much from Hiroshima as our forefathers learned from Magdeburg, we may look forward to a period, not indeed of peace, but of limited and only partially ruinous warfare. During that period it may be assumed that nuclear energy will be harnessed to industrial uses. The result, pretty obviously, will be a series of economic and social changes unprecedented in rapidity and completeness. All the existing patterns of human life will be disrupted and new patterns will have to be improvised to conform with the nonhuman fact of atomic power. Procrustes in modern dress, the nuclear scientist will prepare the bed on which mankind must lie; and if mankind doesn’t fit — well, that will be just too bad for mankind. There will have to be some stretching and a bit of amputation — the same sort of stretching and amputations as have been going on ever since applied science really got into its stride, only this time they will be a good deal more drastic than in the past. These far from painless operations will be directed by highly centralized totalitarian governments. Inevitably so; for the immediate future is likely to resemble the immediate past, and in the immediate past rapid technological changes, taking place in a mass-producing economy and among a population predominantly propertyless, have always tended to produce economic and social confusion. To deal with confusion, power has been centralized and government control increased. It is probable that all the world’s governments will be more or less completely totalitarian even before the harnessing of atomic energy; that they will be totalitarian during and after the harnessing seems almost certain. Only a large-scale popular movement toward decentralization and self-help can arrest the present tendency toward statism. At present there is no sign that such a movement will take place.

There is, of course, no reason why the new totalitarianisms should resemble the old. Government by clubs and firing squads, by artificial famine, mass imprisonment and mass deportation, is not merely inhumane (nobody cares much about that nowadays), it is demonstrably inefficient and in an age of advanced technology, inefficiency is the sin against the Holy Ghost. A really efficient totalitarian state would be one in which the all-powerful executive of political bosses and their army of managers control a population of slaves who do not have to be coerced, because they love their servitude. To make them love it is the task assigned, in present-day totalitarian states, to ministries of propaganda, news- paper editors and schoolteachers. But their methods are still crude and unscientific. The old Jesuits’ boast that, if they were given the schooling of the child, they could answer for the man’s religious opinions, was a product of wishful thinking. And the modern pedagogue is probably rather less efficient at conditioning his pupils’ reflexes than were the reverend fathers who educated Voltaire. The greatest triumphs of propaganda have been accomplished, not by doing something, but by refraining from doing. Great is truth, but still greater, from a practical point of view, is silence about truth. By simply not mentioning certain subjects, by lowering what Mr. Churchill calls an “iron curtain” between the masses and such facts or arguments as the local political bosses regard as undesirable, totalitarian propagandists have influenced opinion much more effectively than they could have done by the most eloquent denunciations, the most compelling of logical rebuttals. But silence is not enough. If persecution, liquidation and the other symptoms of social friction are to be avoided, the positive sides of propaganda must be made as effective as the negative. The most important Manhattan Projects of the future will be vast government-sponsored enquiries into what the politicians and the participating scientists will call “the problem of happiness” — in other words, the problem of making people love their servitude. Without economic security, the love of servitude cannot possibly come into existence; for the sake of brevity, I assume that the all-powerful executive and its managers will succeed in solving the problem of permanent security. But security tends very quickly to be taken for granted. Its achievement is merely a superficial, external revolution. The love of servitude cannot be established except as the result of a deep, personal revolution in human minds and bodies. To bring about that revolution we require, among others, the following discoveries and inventions.

  • First, a greatly improved technique of suggestion — through infant conditioning and, later, with the aid of drugs, such as scopolamine.
  • Second, a fully developed science of human differences, enabling government managers to assign any given individual to his or her proper place in the social and economic hierarchy. (Round pegs in square holes tend to have dangerous thoughts about the social system and to infect others with their discontents.)
  • Third (since reality, however utopian, is something from which people feel the need of taking pretty frequent holidays), a substitute for alcohol and the other narcotics, something at once less harmful and more pleasure-giving than gin or heroin.
  • And fourth (but this would be a long-term project, which it would take generations of totalitarian control to bring to a successful conclusion), a foolproof system of eugenics, designed to standardize the human product and so to facilitate the task of the managers. In Brave New World this standardization of the human product has been pushed to fantastic, though not perhaps impossible, extremes. Technically and ideologically we are still a long way from bottled babies and Bokanovsky groups of semi-morons. But by A.F. 600, who knows what may not be happening? Meanwhile the other characteristic features of that happier and more stable world — the equivalents of soma and hypnopaedia and the scientific caste system –are probably not more than three or four generations away. Nor does the sexual promiscuity of Brave New World seem so very distant. There are already certain American cities in which the number of divorces is equal to the number of marriages. In a few years, no doubt, marriage licenses will be sold like dog licenses, good for a period of twelve months, with no law against changing dogs or keeping more than one animal at a time. As political and economic freedom diminishes, sexual freedom tends compensatingly to increase. And the dictator (unless he needs cannon fodder and families with which to colonize empty or conquered territories) will do well to encourage that freedom. In conjunction with the freedom to daydream under the influence of dope and movies and the radio, it will help to reconcile his subjects to the servitude which is their fate.

All things considered it looks as though Utopia were far closer to us than anyone, only fifteen years ago, could have imagined. Then, I projected it six hundred years into the future. Today it seems quite possible that the horror may be upon us within a single century. That is, if we refrain from blowing ourselves to smithereens in the interval. Indeed, unless we choose to decentralize and to use applied science, not as the end to which human beings are to be made the means, but as the means to producing a race of free individuals, we have only two alternatives to choose from: either a number of national, militarized totalitarianisms, having as their root the terror of the atomic bomb and as their consequence the destruction of civilization (or, if the warfare is limited, the perpetuation of militarism); or else one supranational totalitarianism, called into existence by the social chaos resulting from rapid technological progress in general and the atomic revolution in particular, and developing, under the need for efficiency and stability, into the welfare-tyranny of Utopia. You pays your money and you takes your choice.

  1. John the Savage – One of the central characters in “Brave New World”.

*”if you seek (his) monument, look around” (“Se (lhe) procuras o monumento, olha em redor.”)

Negação da ciência ganha força em nacionalismo que une esquerda e direita

Texto de autoria do Professor de História, Luiz Cesar Marques Filho, da UNICAMP, publicado na edição de hoje (6 de janeiro de 2019) do jornal Folha de São Paulo, discute implicações ambientais das agendas políticas de partidos de esquerda e de direita, em particular no que se refere aos desdobramentos do aquecimento global pela ação antropogênica.

Luiz Marques é professor de história da Unicamp e autor de “Capitalismo e Colapso Ambiental” (Editora da Unicamp).

Ilustrações de Edson Ikê, designer e ilustrador.

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Em março de 2018, António Guterres, secretário-geral da ONU, declarou: “As manchetes são naturalmente dominadas pela escalada das tensões, de conflitos ou de eventos políticos de alto nível, mas a verdade é que as mudanças climáticas permanecem a mais sistêmica ameaça à humanidade. Informações divulgadas recentemente pela Organização Meteorológica Mundial, pelo Banco Mundial e pela Agência Internacional de Energia mostram sua evolução implacável”.

Meses antes, um discurso proferido em Riad, capital da Arábia Saudita, por Christine Lagarde, diretora do Fundo Monetário Internacional, exibia um teor similar: “Se não fizermos nada a respeito das mudanças climáticas, seremos tostados, assados e grelhados num horizonte de tempo de 50 anos”.

Ambas as advertências reconhecem a extrema gravidade de nossa situação, a respeito da qual o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) é categórico: “O aquecimento do sistema climático é inequívoco. A influência humana sobre o sistema climático é clara. Limitar a mudança climática requer reduções substanciais e contínuas de emissões de gases de efeito estufa”.

Em seus relatórios, o IPCC colige a literatura científica sobre as mudanças climáticas, e suas conclusões são baseadas em unanimidade. Estas foram endossadas, em seguida, por praticamente todas as Academias Nacionais de Ciência e reforçadas ainda pelas mais prestigiosas associações científicas dos EUA: American Geophysical Union; American Chemical Society; American Association for the Advancement of Science; Geological Society of America; National Research Council; American Physical Society; American Meteorological Society.

Em 2014, a Academia Nacional de Ciências dos EUA e a Royal Society do Reino Unido reiteraram mais uma vez esse endosso numa declaração conjunta, intitulada “Mudança Climática. Evidência e Causas”: “A mudança climática é uma das questões definidoras de nosso tempo. É agora mais certo que nunca, baseado em muitas linhas de evidência, que os humanos estão mudando o clima da Terra”.

Malgrado esse acúmulo de saber e essa virtual unanimidade, a ciência do clima pode estar equivocada? Em princípio, sim. Ciência não é dogma, é diminuição da incerteza. Contestar um consenso científico, mesmo o mais sólido, não pode ser objeto de anátema.

Mas quem o põe em dúvida deve apresentar argumentos convergentes e convincentes em sentido contrário. Na ausência destes, contestação torna-se simples denegação irracional, enfraquece o poder persuasivo da evidência, milita em favor da perda da autoridade da ciência na formação de uma visão minimamente racional do mundo e turbina a virulência das redes sociais, dos “fatos alternativos”, da pós-verdade, do fanatismo religioso e das crenças mais estapafúrdias e até há pouco inimagináveis.

O negacionismo climático é só mais uma dessas crenças, ao lado do criacionismo e do terraplanismo, e seu repertório esgrime as mesmas surradas inverdades, mil vezes refutadas: os cientistas estão divididos a respeito da ciência do clima, os modelos climáticos são falhos, maiores concentrações atmosféricas de CO2 são efeito, e não causa, do aquecimento global e são benéficas para a fotossíntese, o próximo mínimo solar anulará o aquecimento global, não se deve temer esse aquecimento, mas a recaída numa nova glaciação etc.

Esse palavreado resulta de esforços deliberados de denegação das evidências. Diretamente ou através da Donors Trust e da Donors Capital Fund, por exemplo, as corporações injetam milhões de dólares em lobbies disseminadores de desinformação sobre as mudanças climáticas.

Mas apenas a abundância dos meios colocados à disposição da desinformação não pode explicar seu relativo sucesso. O que, sobretudo, o explica é o fato de que a mensagem dos negacionistas encontra um terreno fértil onde florescer. Antes de mais nada, a denegação da ciência do clima encontrou e ainda encontra guarida num nacionalismo em que certa esquerda retrógrada e a extrema direita se confundem.

Segundo esse nacionalismo, mudanças climáticas e movimentos ambientalistas em geral seriam uma cortina de fumaça para ocultar os reais desígnios imperialistas de negar aos países pobres seu próprio direito ao desenvolvimento.

Exemplo desse nacionalismo foi a aliança da ex-presidente Dilma Rousseff e Aldo Rebelo, ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, com o agronegócio devastador da Amazônia e do cerrado. Se a Amazônia é nossa, afirma esse néscio nacionalismo, temos o direito de destruí-la em benefício de nossas exportações de soja e carne.

Afinal, os imperialistas já destruíram suas florestas e nós destruímos, desde 1970, apenas cerca de 800 mil km² da floresta amazônica e pouco mais de 1 milhão de km² do cerrado —ou seja, apenas 20% da Amazônia e 50% do cerrado. Definitivamente, ainda temos muito a destruir e não vamos tolerar lições ou injunções imperialistas.

Defesa resoluta dessa devastação encontra-se na pena de Denis Rosenfield, num texto publicado no Instituto Millenium, um think tank brasileiro de extrema direita: “Apesar de sua aura de politicamente corretas, [as ONGs contrárias ao novo código florestal] representam interesses concretos, mormente de países do primeiro mundo que competem com o Brasil e gostariam de ter maior ingerência em nossos assuntos. Agricultura, pecuária, agronegócio e energia ficariam com eles, enquanto nós deveríamos cuidar de nossas florestas”.

Outro exemplo de nacionalismo anticiência é a defesa do “o petróleo é nosso”, como se o combustível nacional aquecesse menos o planeta ou como se houvesse um CO2 “do bem”, já que este se traduziria em desenvolvimento para o país. Como se fosse possível, em pleno 2018, desenvolver-se afundando ainda mais o pé no acelerador do colapso socioambiental a que um próximo aquecimento médio global superior a 2º C nos condenará. A forma mais rápida, à esquerda e à direita, de “resolver” tal contradição nos termos é simplesmente negar ou desconsiderar a ciência.

Malgrado alguma tangência ideológica com certa esquerda, o negacionismo climático e a negação da ciência em geral são fundamentalmente uma bandeira da extrema direita, e é preciso pôr em evidência uma razão maior dessa estreita afinidade. Ela se encontra, a meu ver, numa mutação histórica fundamental do teor do discurso científico.

Das revoluções científicas do século 17 a meados do século 20, a ciência galgou posição de hegemonia, destronando discursos de outra natureza, como o religioso e o artístico, porque foi capaz de oferecer às sociedades vitoriosas mais energia, mais mobilidade, mais bens em geral, mais capacidade de sobrevivência —em suma, mais segurança. Seus benefícios eram indiscutíveis e apenas confirmavam suas promessas, que pareciam ilimitadas.

A partir de 1962, se quisermos uma data, o livro “Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson, punha a nu pela primeira vez o lado sombrio dessas conquistas da ciência: agrotóxicos como o DDT aumentavam, de fato, a produtividade agrícola, mas ao preço de danos tremendos à saúde e à biodiversidade.

Essa primeira dissonância tornou-se muito maior nos anos 1980, quando o aquecimento global resultante das emissões de CO2 pela queima de combustíveis fósseis —justamente os combustíveis aos quais devíamos o essencial de nosso progresso— tornou-se pela primeira vez inequívoco.

A ciência começa, então, a mudar seu discurso. Ela passa a anunciar que havíamos passado da idade das promessas à idade das escolhas, de modo a evitar a idade das consequências. De condutora da humanidade à terra prometida do progresso ilimitado, a ciência começou a se tornar, sobretudo após 1968, com a criação da Union of Concerned Scientists no MIT, um foco de alerta sobre o potencial destrutivo do modo expansivo de funcionamento da sociedade que era em grande parte sua criatura.

Uma brecha começava a se abrir na imagem social da ciência. Enquanto os cientistas diziam o que queríamos ouvir, tudo era defesa e apologia da ciência. A partir do momento em que seu discurso converteu-se em alertas e advertências sobre os riscos crescentes a que começávamos a nos expor, o entusiasmo arrefeceu. A criatura começou a duvidar de sua criadora. E se tudo não passasse de alarmismo? E se a ciência tivesse se colocado, mais ou menos secretamente, a serviço dos descontentes do capitalismo?

Em nosso século, esse novo mal-estar na civilização não cessou de crescer. Ele toma hoje a forma de uma espécie de divisão esquizofrênica da autoimagem de uma sociedade moldada pela ciência.

Quando entramos em um avião, atravessamos uma ponte ou tomamos um remédio, somos gratos às tentativas da ciência de compreender o mundo e traduzi-lo em tecnologia. Mas quando dessa mesma ciência vem o aviso de que é preciso mudar o modo de funcionamento de nossa economia, conter nossa voracidade, diminuir o consumo de carne, restaurar as florestas e redefinir nossa relação com a natureza, sob pena de nos precipitarmos num colapso de insondáveis proporções, a gratidão cede lugar à indiferença, ao descrédito e mesmo à hostilidade.

Ocorre que os fatos se acumulam nos jornais, a confirmar teimosamente os relatórios, os apelos e os alertas sempre mais veementes da comunidade científica. E por mais que nossas sociedades fechem olhos e ouvidos à realidade, esta acaba por se infiltrar, ainda que residualmente, em seu imaginário, suscitando uma angústia difusa, mas fundamentalmente justificada, de que o futuro será pior.

E surge aqui subitamente, numa curva inesperada da história do século 21, a grande e única oportunidade da extrema direita de voltar a ocupar, após os anos 1930, uma posição de relevo no cenário político, pois sua miséria mental e intelectual, feita de horror à liberdade sexual, de defesa do patriarcalismo autoritário, de criacionismo e obscurantismo religioso, torna-se o discurso mais apto a incutir uma ilusão de segurança a uma sociedade cada vez mais temerosa de seu presente e de seu futuro.

A extrema direita viceja à sombra da crescente insegurança material e psicológica das sociedades contemporâneas. Assim, paradoxalmente, quanto maiores forem as evidências de que o futuro se afigura pior, quanto mais devastadores forem os impactos das mudanças climáticas e do declínio da biodiversidade, mais irracionalmente obstinada será a recusa a admitir a causa fundamental desse processo, apontada ao longo de mais de meio século pela ciência: a interferência crescentemente destrutiva de nosso sistema econômico expansionista sobre os equilíbrios do sistema Terra.

A eficiência da agenda negacionista da extrema direita não se explica apenas, portanto, pelo intenso trabalho de desinformação de lobbies e think tanks subvencionados pelo “big oil” e pelo “big food”.

Explica-se também, e talvez sobretudo, pelo fato de que o discurso negacionista nutre-se do medo e do compreensível desejo das pessoas de se apegar cegamente à identidade de tribo, à eliminação da dissonância, à autoridade moral do pater familias, em suma, ao mundo do passado, aquele mundo em que o futuro era, malgrado os “tropeços” da história, uma promessa.

Ironicamente, a denegação da ciência do clima é, em última instância, uma reação psicológica às próprias mudanças climáticas. Os negacionistas são os primeiros a confirmar, de modo involuntário, a realidade do que negam.

Denegar a realidade ou diluí-la em otimismo paternalista para consumo do “grande público” só diminui nossas chances de adaptação ao que o futuro nos reserva —consignado no recente relatório especial do IPCC.

Evitar um aquecimento médio global não superior a 1,5 ºC —evitar, em suma, a catástrofe— requer agora de nossas sociedades esforços sem precedentes. Requer reduzir em menos da metade, a cada década, as emissões globais de gases de efeito estufa, causadas sobretudo pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento e pela agropecuária.

Dos 41 bilhões de toneladas (gigatoneladas ou Gt) de CO2 atuais, devemos passar a emitir apenas 18 GtCO2 em 2030 e enfim zero GtCO2 em 2050 (em emissões líquidas). Em seguida, deveremos sequestrar o CO2 já acumulado na atmosfera, graças a tecnologias ainda indisponíveis na escala requerida.

Não estamos nos preparando para esse esforço de guerra. Estamos, ao contrário, aumentando nossas emissões em pleno 2018, e nenhum estudo projeta redução da queima de combustíveis fósseis e de desmatamento no próximo decênio em escala global. Nada mais, em suma, parece nos afastar da trajetória de um aquecimento médio global superior a 2ºC acima do período pré-industrial já nos próximos decênios e a um aquecimento entre 3,1ºC e 4,8ºC até o final do século, como mostra o primeiro gráfico a seguir.

 

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Num artigo publicado na revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA, Yangyang Xu e Veerabhadran Ramanathan categorizaram os impactos provocados por tais níveis de aquecimento médio global em relação ao período pré-industrial: “Acima de 1,5 ºC = perigoso; acima de 3 ºC = catastrófico; acima de 5 ºC = desconhecido, significando além de catastrófico, o que inclui ameaças existenciais à nossa espécie”.
Os autores afirmam que, mantidos os atuais níveis de emissões de gases de efeito estufa, há uma pequena probabilidade de um aquecimento catastrófico até 2050.

Os que contestam a capacidade dos modelos científicos de predizer quando o aquecimento médio global atingirá níveis catastróficos não percebem o simples fato de que o atual aquecimento médio global, de cerca de 1ºC, já é catastrófico. Basta atentar para a proliferação de ondas mortíferas de calor, as extinções em massa, o aumento da fome, as maiores secas, os furacões e os incêndios florestais que varrem o planeta.

Os dados são acachapantes. Ilustro aqui, por razões de espaço, apenas um aspecto dessa catástrofe: a elevação do nível do mar por expansão térmica dos oceanos e pelo degelo. Essa elevação já se tornou irreversível e está em assombrosa aceleração, passando de uma taxa média anual de 0,6 mm nos decênios 1900-1930 para 4,4 mm em média por ano no período 2010-2015, como mostra o segundo gráfico.

Essa aceleração continuará. Conforme assegura Qin Dahe, codiretor do quinto relatório do IPCC, de 2013, “o nível médio global do mar continuará a se elevar a uma taxa mais rápida que a observada nos últimos 40 anos”. Em 2016, o degelo da Groenlândia prolongou-se por 20 a 40 dias mais que a média do período 1979-2015.

Segundo Robert DeConto e David Pollard, “hoje medimos a elevação do nível do mar em milímetros por ano. Falamos de um potencial para medi-la em centímetros por ano apenas pelo degelo da Antártida”.
As projeções de elevação média do nível do mar entre 1992 e 2100 variam de 50 centímetros a 2,5 metros, segundo a National Oceanic and Atmospheric Administration (2017), dos Estados Unidos. Até 2030, essa elevação média será de 13 a 21 cm em relação ao nível de 2000; até 2040, de 18 a 36 cm (cenários intermediário baixo e alto, respectivamente).

É inimaginável o caos global que isso provocará, levando-se em conta que, em todo o século 20, essa elevação foi de cerca de 20 cm. Mais da metade das metrópoles do mundo encontram-se na linha costeira. Serão frequentemente inundadas. Muitas usinas nucleares estarão ameaçadas, isso sem falar na salinização dos estuários e dos aquíferos costeiros, dos quais depende a segurança alimentar e hídrica de centenas de milhões de pessoas.

É isso que a ciência clama aos quatro ventos, com sempre novos (e piores) dados de realidade, análises e projeções. Pode-se continuar negando a ciência. Ao eleger um presidente hostil ao consenso científico, o segmento mais escolarizado, portanto supostamente mais informado, do eleitorado brasileiro efetivamente a negou.

Primeiras consequências: a ministra da Agricultura é a “musa do veneno”, o ministro das Relações Exteriores considera as mudanças climáticas uma “ideologia” das esquerdas e o ministro do Meio Ambiente, réu em processos ambientais, considera-as uma questão secundária.

Esses eleitores não têm sequer o perdão da ignorância quando acolheram como um bem, ou (o que dá no mesmo) como um mal menor, a negação brutal da ciência e da realidade. Escolheram acreditar que a realidade não existe. Só que, como bem lembra Philip K. Dick, “a realidade é isto que não vai embora quando você para de acreditar nela”.

Sobre esses eleitores recairá o desprezo das crianças e adolescentes de hoje, que não poderão pagar a conta do colapso ambiental que seus pais lhes deixaram.

Na mira de Bolsonaro, obra de Paulo Freire é pilar de escolas de elite

Notícia publicada na edição de hoje, 6 de janeiro de 2019, trata do possível abandono de abordagens pedagógicas desenvolvidas pelo educador Paulo Freire pelas escolas brasileiras durante o atual governo. Leia a reportagem completa.

Entre os poucos detalhes conhecidos sobre os planos para a educação do novo governo, chama a atenção no programa de Jair Bolsonaro (PSL) a citação ao nome de um educador. O presidente quer expurgar Paulo Freire das escolas brasileiras.

Não há detalhes sobre o significado prático disso, mas a ideia é criticada por educadores. Seu método e filosofia exercem forte influência em algumas das melhores escolas do país. Além disso, Freire é o intelectual brasileiro mais reconhecido em todo o mundo.

Para especialistas, o pernambucano, morto em 1997, transformou-se em bode expiatório para quem acusa professores de uma suposta doutrinação. Estaria na obra de Freire, e na sua influência entre professores, ferramentas para um ensino sectário, além de uma das explicações para os fracassos da educação pública nacional —o que não é compartilhado por líderes de escolas de elite.

Nascido em 1921, no Recife, Freire desponta como referência para a educação popular no início dos anos 60, quando desenvolve um bem sucedido método de alfabetização de adultos em Angicos, interior do Rio Grande do Norte. O método, que parte dos saberes e experiências acumuladas, ganhou o mundo.

O autor desenvolve uma pedagogia crítica (que vai além do método de alfabetização) com princípios fincados no diálogo entre professores e estudantes e no valor da educação como ferramenta para emancipação individual e social.

“É a visão de que educar é um ato político, não partidário, nem de esquerda, mas da escola envolvida nos problemas contemporâneos”, diz Franciele Busico, professora do Instituto Singularidades e coordenadora pedagógica na rede municipal de São Paulo.

O principal livro de Freire, “Pedagogia do Oprimido”, está entre as cem obras mais citadas em língua inglesa, segundo o Google Scholar, ferramenta de literatura acadêmica. É o único brasileiro nessa lista. Na área de educação, aparece como o segundo mais referenciado —o volume de citações é um dos mais importantes indicadores de relevância científica.

Educadores estrangeiros como Peter McLaren e Michael Apple dialogam com sua obra. Há centros de estudos inspirados em Freire em países como Finlândia e Canadá.

O economista Martin Carnoy lembra que o conceito de educação “como libertação da ignorância e subjugação política” é tema comum na filosofia do Iluminismo, de Rousseau, Thomas Jefferson, até mesmo de John Stuart Mill. Carnoy é professor em Stanford (EUA) desde 1969. “O ataque de Bolsonaro a Freire”, escreveu ele à Folha, “é um ataque aos próprios fundamentos da democracia ocidental e ao conceito de liberdade”.

Para Carnoy, Freire conseguiu alcançar dezenas de milhões de pessoas com uma mensagem clara sobre o papel da educação em uma sociedade livre. “Todos, não importa quão pobres, não importa quão marginalizados, merecem ter uma educação.”

Para educadores brasileiros, a obra do pernambucano é mais reconhecida lá fora.

O professor Júlio Emílio Diniz-Pereira, da Universidade Federal de Minas Gerais, explica que o grande impacto da obra de Freire foi entender que a educação era essencialmente política em um momento, nos anos 60, em que a escola era concebida apenas como instrução.

Pesquisador em formação de professores, Diniz-Pereira afirma que, apesar da sua importância, a ideia de que Paulo Freire seja o livro de cabeceira de todos os professores não é verdadeira. “A minha experiência empírica é de uma grande ausência de Paulo Freire nas licenciaturas e nos cursos de formação de professores”, diz.

A presidente da Anped (associação de pós-graduação em educação), Andrea Gouvea, diz que Freire não chega a ser o autor mais estudado por aqui. “Há um desconhecimento e preconceitos [por parte de quem o ataca], o que impede um debate. Nem há predominância de Paulo Freire em nenhuma diretriz educacional”, diz.

Diretor do tradicional colégio Rio Branco de Higienópolis, no centro de São Paulo, Renato Júdice concorda: “Quem dera as ideias dele estivessem mais presentes, quando propõe mais autonomia, mais crítica do conhecimento”, diz ele, que ressalta a repercussão internacional de seus estudos.

“Todo educador no mundo inteiro tem como referência Paulo Freire”, afirma Mauro Aguiar, diretor do colégio Bandeirantes, na zona sul de SP.

MÉTODO
Como método Paulo Freire ficaram conhecidas as estratégias de alfabetização em que se parte do conhecimento e da realidade social do estudante.

Essas concepções filosóficas influenciaram pesquisas e práticas pedagógicas no Brasil. Mas não é possível dizer que há em Freire uma proposta fechada para alfabetização de crianças.

Há um debate no país sobre a eficácia de diretrizes de alfabetização, sobretudo entre o chamado método fônico (que concentra atenção na relação entre letras e sons para depois chegar à leitura) e o construtivista (que, em resumo, alfabetiza já focado na leitura de textos que, de preferência, façam sentido para o aluno). Críticas indicam que esse último seria a tendência nacional, com a influência de Freire, e os resultados ruins da educação seriam derivados disso.

Estudiosos como a professora emérita da UFMG, Magda Soares, criticam a ausência de referenciais metodológicos na maioria dos professores alfabetizadores do país. Os maus resultados estariam mais ligados às deficiências no sistema de formações de docentes do que na adoção de um método específico.

A definição do que se deve ensinar nos anos de alfabetização, presente na Base Nacional Comum Curricular, é apontada ainda como um caminho para melhorias.

Segundo pesquisadores, a obra de Paulo Freire transita entre a filosofia da Educação e a didática, com uma ênfase grande nos temas de educação popular. As críticas a Paulo Freire, no entanto, são praticamente centradas na inspiração marxista de seus textos.

Freire trabalhava com os conceitos de classe social e defendia a educação como ferramenta de emancipação e superação das injustiças. Sua visão filosófica de que não existe educação neutra tem sido interpretada como convite a doutrinação.

CHÃO DA ESCOLA
No também tradicional colégio Santa Cruz, na zona oeste da capital paulista, Freire tem grande importância, explica a diretora Debora Vaz. “Paulo Freire nos convida a compreendermos o chão da escola como o lugar no qual o professor valoriza os saberes dos alunos como ponto de partida para qualquer situação significativa de aprendizagem.”

Entre os egressos do Santa Cruz estão o cineasta Fernando Meirelles, o apresentador Luciano Huck e o banqueiro Roberto Setubal, copresidente do Conselho de Administração do Itaú Unibanco Holding.

Ana Fernandes, umas das coordenadoras pedagógicas do colégio confessional Santa Maria, na zona sul de SP, relaciona o autor a práticas descritas como modernas na educação. “Hoje é inaceitável que se comece uma sequência didática sem considerar o conhecimento prévio do alunos”, diz.

Segundo Ana Fernandes, já não é mais possível imaginar alunos passivos. “Eu coordeno turmas de 4º ano e as meninas começaram a reivindicar o espaço delas no futebol, sempre dominado pelos meninos. Elas conversaram comigo e organizamos o horário”, diz. Agora, elas têm a quadra para futebol às terças e quintas.

Os ataques ao pernambucano ganharam força em meio à onda conservadora que cresce no Brasil pelo menos desde 2013. Nos atos que antecederam o impeachment de Dilma Rousseff (PT), manifestantes pediam “menos Paulo Freire”.

O fato de ele ser um teórico do campo da esquerda, influenciado pela crítica marxista ao capitalismo, seria determinante para que os críticos exigissem um novo exílio de sua obra. Paulo Freire foi preso depois do golpe de 1964 e se exilou naquele ano, só retornando ao Brasil em 1980.

Grupos conservadores tentaram anular no Congresso o título de patrono da educação brasileira concedido em 2012. Após atuação de parlamentares e organizações de educação, a iniciativa foi derrubada na Câmara em 2017.

A educadora Ausonia Donato, diretora do colégio Equipe, na região central de SP, enfatiza a centralidade de Freire no projeto educacional da escola, mas ressalta que a própria filosofia do autor é incoerente com qualquer doutrinação.

“É um desconhecimento sobre o que Paulo Freire escreveu. ‘Ninguém educa ninguém’, as pessoas se educam mediatizadas, e ‘ninguém se educa sozinho’”, explica, citando o autor. “Isso já derruba qualquer frase sobre doutrinação.”

A onda de ataques a Paulo Freire e a efervescência em torno de projetos de lei inspirados no programa Escola sem Partido, que busca limitar o que o professor pode falar e vetar abordagens de gênero, ocorrem no mesmo momento em que o Brasil vê metas de inclusão escolar serem pouco observadas.

Também estão em discussão no país o formato da escola, o papel dos professores, o melhor aproveitamento da tecnologia e a importância de trabalhar melhor competências socioemocionais nas aulas, como resiliência, autonomia e trabalho em equipe.

Em Cotia, na Grande SP, o projeto Âncora tem sido reconhecido como uma das escolas mais inovadoras do país. Inspirada na portuguesa Escola da Ponte, a unidade não tem divisão de séries nem idade, e os próprios alunos constroem sua agenda de estudos.

A educadora Suzana Ribeiro diz que autonomia é a palavra-chave da escola. “A contribuição de Paulo Freire é fundamental na nossa filosofia. Ele revela a necessidade e a vibração que a autonomia traz.”
O país está ainda em meio ao seu mais profundo debate sobre currículo. A Base Nacional Comum Curricular da educação infantil e do ensino fundamental está em fase de implementação, e a do ensino médio, aprovada no fim do ano passado, deve começar a ser aplicada. O documento define o que os alunos devem aprender na educação básica.

Freire não é citado no texto, mas foi precursor de discussões sobre currículo no país quando esteve na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (1989 a 1991). Foi pioneiro nos debates sobre programas de tecnologia na educação, no mesmo período.

A Folha solicitou à equipe de Bolsonaro, ainda antes da posse, detalhes sobre o que o governo entende por “expurgar” o autor, mas não obteve resposta. Também questionou o ministério após a transmissão de cargo ao ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, mas a pasta informou que não se posicionaria.

Vélez Rodríguez já escreveu que houve um processo de domínio da ideologia marxista nas escolas com base nas ideias de Paulo Freire, que teria sido um “grande pedagogo dentro da ideologia marxista-gramsciana”. No discurso de posse, o ministro afirmou o compromisso de libertação das escolas da suposta dominação do marxismo cultural.

72.359 é o número de citações de “Pedagogia do Oprimido” registradas pelo Google Scholar, ferramenta de pesquisa para literatura acadêmica em inglês

99ª obra mais citada do mundo, segundo a ferramenta. É o único autor brasileiro entre os 100 mais citados

2ª obra mais citada no mundo na área de educação em artigos em inglês

Intolerância Acadêmica

Notícia publicada no Jornal do Campus (USP), “Estudantes pró-palestina repudiam curso da FFLCH“, ilustra um problema crescente nas universidades do mundo todo: a intolerência acadêmica. Nos EUA, “pensadores dissidentes do pensamento de vanguarda” são peremptoriamente proibidos de fazer palestras julgadas “inapropriadas”, em sua maioria por estudantes. Este é um problema muito grave, que caracteriza a assim chamada infantilização das universidades, tema abordado recentemente pelo sociólogo Frank Furedi em seu livro “What’s Happened to the University? – A sociological exploration of its infantilisation“. Este livro do Professor Furedi (University of Kent) foi amplamente debatido na mídia, devido à importância do tema. Assista entrevista com o Prof. Furedi (em inglês).

Como um filósofo huguenote percebeu que ateus podem ser virtuosos

Michael W Hickson – Professor de Filosofia na Trent University em Peterborough, Ontario (Canadá).

No Ocidente, durante séculos a ideia da existência de ateus moralmente bons surpeendeu pessoas como sendo concepções contraditórias. A bondade moral foi principalmente compreendida em termos de se possuir uma boa consciência. E boa consciência sempre entendida em termos da teologia cristã. Ser uma boa pessoa significava intencionalmente ouvir e seguir a voz de Deus (consciência). Uma vez que um ateu não pode conscientemente reconhecer a voz de Deus, ele é surdo aos comandos morais de Deus, e, portanto, fundamentalmente e essencialmente sem lei e imoral. Mas hoje, considera-se amplamente – se não completamente – entendido que um ateu pode realmente ser moralmente bom. Como essa concepção mudou? E quais foram aqueles que contribuíram para essa mudança?Um dos personagens mais importantes desta história é o filósofo e historiador huguenote Pierre Bayle (1647-1706). Seus Various Thoughts on the Comet (livro de 1682), propositalmente elaborado para derrubar opiniões errôneas e populares sobre os cometas, foi um best-seller polêmico e um trabalho fundamental para o Iluminismo francês. Nele, Bayle lança um conjunto de argumentos sobre a possibilidade de um ateu virtuoso.

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Pierre Bayle (1647-1706)

Ele inicia seu pedido de desculpas em nome dos ateus com uma observação então considerada escandalosa:

É tão estranho um ateu viver virtuosamente quanto um cristão viver criminosamente. Nós vemos o último tipo de monstro o tempo todo; então por que deveríamos pensar que o primeiro é impossível?

Bayle apresenta a seus leitores a ateus virtuosos de eras passadas: Diagoras, Theodorus, Euhemerus, Nicanor, Hippo e Epicurus. Ele observa que a moral desses homens era tão altamente considerada que cristãos foram mais tarde forçados a negar que eram ateus de modo a sustentar a superstição de que ateus sempre foram imorais. Bayle apresenta um filósofo contemporâneo, o italiano Lucilio Vanini (1585-1619). Vanini teve sua língua cortada antes de ser estrangulado e queimado na fogueira por negar a existência de Deus. É claro que aqueles que mataram Vanini de uma maneira tão elegante não eram ateus. A pergunta realmente relevante, Bayle sugere, é se crentes religiosos – e não os ateus – podem ser sempre morais.

Bayle admite que os cristãos possuem princípios verdadeiros sobre a natureza de Deus e a moralidade (nunca saberemos se o próprio Bayle era ateu). Mas, no nosso mundo terreno, as pessoas não agem com base em seus princípios. A ação moral, que diz respeito ao comportamento externo e não à crença interior, é motivada por paixões, não por teorias. O orgulho, o amor-próprio, o desejo de honra, a busca de boa reputação, o medo da punição e os inúmeros costumes adquiridos na família e no pátria, são princípios de ações muito mais eficazes do que quaisquer crenças teóricas sobre um ente auto-criado denominado Deus, ou o argumento da Primeira Causa. Bayle escreve:

Assim, vemos que, pelo fato de um homem não ter religião, isso não significa necessariamente que ele será levado a todo tipo de crime ou a todo tipo de prazer. Segue-se apenas que ele será levado às coisas às quais seu temperamento e sua mente o tornam sensível.

Deixados sozinhos para agir com base em suas paixões e costumes habituais, quem vai agir melhor: um ateu ou um cristão? A opinião de Bayle é clara a partir da justaposição de capítulos dedicados aos crimes de cristãos e capítulos dedicados às virtudes dos ateus. A causa dos piores crimes dos cristãos é repetidamente identificada como falso zelo, uma paixão que se mascara como o amor de Deus, mas que, na verdade, equivale ao partidarismo político-religioso misturado com o ódio de qualquer um que seja diferente. A pesquisa de Bayle sobre as recentes guerras religiosas de então demonstrou em sua mente que as crenças religiosas inflamam nossas tendências mais violentas:

Conhecemos a impressão que as pessoas têm pela ideia de que estão lutando pela preservação de seus templos e altares … como nos tornamos corajosos e ousados quando nos fixamos na esperança de conquistar os outros por meio da proteção de Deus, e quando somos animados pela aversão natural que temos pelos inimigos de nossas crenças.

Os ateus não têm zelo religioso falso, por isso podemos esperar que eles tenham uma vida mais discreta.

No entanto, Bayle não estabelece plenamente a possibilidade de um ateu virtuoso. O tipo de comportamento no qual se concentra é meramente superficialmente bom. Na época de Bayle, ser realmente bom era ter consciência e segui-la. Nos vários pensamentos, ele não declara que os ateus podem ter uma boa consciência. De fato, o pessimismo de Bayle alcança seu auge em um experimento mental envolvendo uma visita de uma espécie alienígena. Bayle afirma que os alienígenas levariam menos de 15 dias para concluir que as pessoas não se comportam de acordo com clareza de sua consciência. Em outras palavras, pouquíssimas pessoas no mundo são, propriamente falando, moralmente boas. Assim, os ateus não são piores do que os crentes religiosos e, na superfície, podem até parecer moralmente superiores. Embora isso seja menos ambicioso do que afirmar que os ateus podem ser completamente virtuosos, ainda é um marco na história do secularismo.

Bayle expandiu seus Various Thoughts on the Comet por duas vezes em sua carreira, uma vez com Addition to the Various Thoughts on the Comet (1694) e novamente com Continuation of the Various Thoughts on the Comet (1705). Nesta última obra, Bayle estabeleceu os fundamentos de uma moralidade completamente secular segundo a qual os ateus poderiam ser tão moralmente virtuosos quanto os crentes religiosos. Ele começa sua discussão sobre o ateísmo com a mais forte objeção que poderia levantar contra a possibilidade de um ateu virtuoso:

Porque [os ateus] não acreditam que uma Inteligência infinitamente sagrada comandou ou proibiu qualquer coisa, eles devem ser persuadidos de que, considerada em si mesma, nenhuma ação é boa ou má, e que o que chamamos de bondade moral ou falha moral depende apenas das opiniões de homens; daí resulta que, por sua natureza, a virtude não é preferível ao vício.

O argumento mais surpreendente de Bayle é que cristãos e ateus concordam quanto à fonte das verdades da moralidade. A vasta maioria dos cristãos acredita que Deus é a fonte das verdades morais, e que a verdade moral é baseada na natureza de Deus, não na vontade ou escolha de Deus. Deus não pode fazer com que matar pessoas inocentes seja uma ação moralmente boa. Respeitar a vida inocente é uma coisa boa que reflete parte da natureza de Deus. Além disso, de acordo com os cristãos, Deus não criou a natureza de Deus: sempre foi e sempre será o que é.

No fundo, tais visões cristãs não diferem daquilo que os ateus acreditam sobre o fundamento da moralidade. Eles acreditam que as naturezas da justiça, bondade, generosidade, coragem, prudência e assim por diante são fundamentadas na natureza do Universo. São fatos objetivos brutos que todos reconhecem por meio da consciência. A única diferença entre cristãos e ateus é o tipo de “natureza” em que as verdades morais são inerentes: os cristãos dizem que é uma natureza divina, enquanto os ateus dizem que é uma natureza física. Bayle imagina os críticos objetando: como as verdades morais podem surgir de uma natureza meramente física? Este é realmente um grande mistério – mas os cristãos são os primeiros a declarar que a natureza de Deus é infinitamente mais misteriosa do que qualquer natureza física, então eles não se encontram em melhor posição para esclarecer as origens misteriosas da moralidade!

Segundo o filósofo canadense Charles Taylor, nossa era tornou-se secular quando a crença em Deus se tornou uma opção entre muitas, e quando ficou claro que a opção teísta não era a mais fácil de se adotar quando teorizamos sobre moralidade e política. Através de suas reflexões sobre o ateísmo ao longo de três décadas, Bayle demonstrou que a moralidade baseada na teologia não era necessária nem vantajosa. Por essa razão, Bayle merece muito crédito pela secularização da ética.

Nota: este texto é uma tradução livre do texto de mesmo título em inglês, publicado pela revista eletrônica Aeon.